26 de setembro de 2017

A culpa é do Cupido!



a culpa é do Cupido!

Não percebo o que raio fazem as pessoas quando não estão a trabalhar. Não consigo atinar com essa história da identidade não estar no trabalho. Onde está, então?

Para mim tudo é trabalho mesmo que não esteja a escrever, sei que vou escrever; se estiver mar dentro com o sol a dar-me nos olhos nem o prazer da água me desvia a seta permanentemente apontada à folha: aliás, tenho a certeza, esta frechada é a de Cupido porque se penso em não escrever, e se por vezes penso, lá se vai tudo ao ar para vir tudo abaixo – tenho sorte, dura pouco esta insanidade temporária que qualquer tribunal aceitaria.

Da última vez que me deu, jurei à Nossa Senhora que tenho no quarto que ela não poria os pés na minha nova casa, nem ela nem São João, padroeiro dos escritores, nem Santo António, nem o registo, e vou pôr o terço no oratório como se me tivesse esquecido dele, fica tudo aqui, não quero nem a medalha que a minha avó me deu, nada, acaba-se agora tudo. Tudo! E eu que não digo um palavrão, ainda que escreva todos, mandei Deus e os Anjos e os Santos a lugares inconfessáveis. Pior, a Nossa Senhora também. Passei-me:

- Nem mais uma linha. Nada. Não existes! Melhor, nunca exististe, ouviste?!

Comigo é assim, aniquilação total e retroactiva… E isto com uma imagem de Nossa Senhora que, quando saí da minha casa, nem veio com as mudanças, trouxe-a eu, com todo o cuidado. Assim, com esta fúria toda nunca me tinha dado. Sinto mesmo alguma satisfação por, ao longo dos anos e graças a uma trela curta, ter domesticado a fera de temperamento que me habita. Mas ela de vez em quando foge… É a minha cruz, este feitio de gato que quando se assusta, eriça o pêlo para parecer maior do que é e ir direito aos tigres. O meu Cão fazia isto aos cavalos, até se apoiava só nas patas traseiras… – tantas saudades meu Lindo Cão.

Odeio não escrever. Ou não pensar em escrever o tempo todo. Fico no limbo. Percebes? Não sei o que fazer comigo. Tropeço em mim. Muito menos sei o que fazer com a transparência em que me ponho se não escrevo, se o preto não se inscreve no branco da folha. Ser invisível é não existir e assistir à não existência. É horrível. A culpa é do Cupido, Nossa Senhora, deixa-me cega, louca, faz de mim táubua de tiro ao Álvaro, não tem mais onde furar. Cupido, teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno estriquinina, que peixeira de baiano, teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver, e faz-me ser mais má que TU!

25 de setembro de 2017

A vida das pequeníssimas coisas


A VIDA DAS PEQUENÍSSIMAS COISAS

Um Golias chamou-me micróbio.
Não foi o primeiro. Não será o último.
É natural: a água não tem cabelos,
não se pode segurar, as palavras
são um rio, um rio só pára quando é mar.
E ainda há a questão da minha impureza
lexical, da insubmissão formal e
uma grande desnecessidade de aval.
No fundo sabem, eu tenho recursos
estranhos nos bolsos como David e
os heróis da bd - vêm assim como
as fortunas de um bolinho chinês que
se esfarela. Não desfazendo das frases que
orientais vão ao forno,
os meus invisíveis recursos secretos
têm raízes no céu, como eu que sou
uma inexorável máquina de escrever,
mil vezes mais pequena que
qualquer micróbio,
ínfimas partículas de letras no comboio do tempo,
lugar de origem e de destino
escritos no bilhete. É Deus quem dá.
Nós? O que somos nós, se não formos isto que
liga o Céu e a Terra,
o Totem que vivo respira e
o seu avesso que o Tabu sufoca?

3 de setembro de 2017

Coisas Singulares

COISAS SINGULARES

E quer-se independência,
fazem-se planos em bando,
adolescentes mais que pássaros e
antes que o coração seja dono
dos seus ais,
já somos casais,
e um dia somos menos
do que sonhámos, ou mais
do que merecemos.  E somos pais. Claro,
só sei disto por assistir e ouvir falar.
Muito graciosamente, a vida
deu-me outro fruto a provar:
talvez possa resumir-se
no silêncio iluminado de azul,
de Hammershöi. Como tu,
também me sonhei, e era outra
a pintura, era hip hip hurrah, de Kroyer -
um tom de luz mais acompanhado.
Mas tenho sorte, bem vês, entre o menos
que sou e mais que poderia ser,
não é assim tão grande a diferença,
de Skagen a Skagen a distância
é a que vai de me estender no sofá
com McCarthy enquanto tu,
que nunca encontrei, e
se foram montanhas, mares,
números, não sei, só Cecília sabe,
e Camões e Amália, tu, espero,
para que mor não seja a dor,
brindas do lado
de lá da tua tela, também a mim,
como eu aqui: a ti!
E assim, tu e eu, duas existências
desconhecidas uma da outra,
podemos ser nós. Só
por um bocadinho.