20 de novembro de 2016

Aula de Jornalismo: é sempre de um dos Istas...

Ups...



O meu sobrinho, ao fim-de-semana, pode ter um bocadinho de vício de iPad. Eu tenho o vício das notícias e dos documentários. Ora, estava ele tranquilamente no iPad enquanto estava eu tranquilamente a ver a abertura das notícias, e de repente ele:
- Não ouvi, quem foi?
E eu:
- Quem foi o quê?
E ele:
- A notícia, Tatia. A notícia é sempre de um dos Istas: os terroristas, os motoristas, os turistas ou os futebolistas. Não é?

7 de novembro de 2016

Um ovinho chega...

Corre! À meia-noite transformas-te em abóbora...

SÓ UM OVINHO
É verdade que tive lindos presentes de aniversário. Presentes como os discos pedidos e sem ser preciso dizer a frase apesar de serem prodígios do tipo verbal. Uma coisa divina, portanto. Passava-se assim. O meu avô:
- Então, já pensou no que gostava de presente de aniversário?
E eu:
- Um candeeiro de tecto com fio de telefone que sobe e desce, todo em plástico cor-de laranja, sim?
E zás! Só de nomear a maravilha, ela haveria de aparecer. Quero dizer, no caso luminária apareceu. Bem, em princípio, apareceria. A concha, caso Boticelli, maravilha entre as maravilhas, apareceu. Os nãos, como verifiquei, provaram-se redondos, ou melhor, ovais, fechados e, azar dos Távoras, definitivos.
Não será um segredo bem guardado que, naquele tempo que é o primeiro tempo da infância, não fazia diferença entre belo e opulento, entre opulento e ofuscante. Resumido e espremido: não havia barroco que chegasse para mim! Pudesse eu arrastar caudas de vestidos em sedas bordadas de alto a baixo e andar carregadinha de jóias... Adorava dar-me ares de princesa cativa, estendida na otomana, enquanto esperava um leitinho quente com uma torrada que teria forçosamente de vir numa travessa com chávena, douradas até mais não, douradas para lá de Bagdad! Eu não sabia como a minha avó me deixava lanchar naquela relíquia encandeante, se me olhava de revés quando me dava para o desatino no armário das porcelanas, mau-mau, nem se atreva, ouviu? Mistério do caneco. Dos canecos, aliás, como mais tarde vim a descobrir: a preciosidade tinha sido comprada em meu próprio benefício, e pasme-se, pela minha própria avó: era uma loiça barata de Alcobaça e foi, mais coisa menos coisa, assim:
- Vai-se pelar por isto, é de impressionar indígenas...
Também comprou um pendente do tamanho de um ovo de codorniz, cravejado de safiras e esmeraldas que, perversa, pôs em destaque, mal arrumado, na aneleira. Indígena, rapinei-o logo. Usei-o até partir uma das esmeraldas quando se soltou do meu turbante improvisado.
- Avó, aconteceu uma tragédia, parti uma esmeralda.
- As esmeraldas não se partem.
- Que desgraça, é falso, chame a polícia, roubaram o verdadeiro!
Naquele ano, sabia muito bem qual era o meu desejo de aniversário. Tinha andado a ver e a rever, céus, qual ver? a lamber com os olhos as páginas do livro, a fixar os mil um detalhes daquela mínima perfeição.
- Então, já pensou no que gostava de presente de aniversário?
- Pode ser um ovinho. Só um chega. O da Cinderela.
- Um ovinho?
- Sim, só um ovinho. Vou buscar o livro. Este aqui. Pode ser?
- Este ovinho é um Fabergé!
Ó...