28 de dezembro de 2015

À espera de Deus

À ESPERA DE DEUS
Espero por Deus sempre
nos lugares onde não O encontro,
quando, assim de repente:
morreu, é terminal, 
arruinou-se, 
foi num desastre, 
é uma catástrofe natural.
Espero por Deus sempre
e mais quando parece que não está,
quando bato de frente no
não: não vales, não podes, não tens,
não a mim e a ti, não a este e aquele, 
só porque sim. Só porque sim, não.

Espero por Deus sempre.
Espero até que O veja
nestes locais mal frequentados da dor
e durante o tempo que for,
e espero-O porque chega.
Entre nós e os males do mundo
estão os guardiões da Vida:
um chama-se Mãe,
o outro chama-se Pai.
Casulo. Filtro. Explicação.
E um dia, entre nós e o mal, nada,
Mãe e Pai são vozes dentro da nossa voz
e é a nossa vez de guardar a Vida.
Mas eu sou demasiado pequena
para a guardar sozinha,
preciso que a Tua força pegue 
na minha fraqueza e lhe diga, 
és minha.

25 de dezembro de 2015

A Bela e o Monstro

A BELA E O MONSTRO
Abro um livro, 
leio dois versos 
ou três poemas, 
fecho-o, 
pego noutro,
meia dúzia de páginas  
em meia dúzia de linhas, 
espreito o email 
e o jornal e
até a composição 
do creme das mãos,
Barral.
Farejo uma palavra,
uma só:
a rosa vermelha
num jardim de neve:
a chave do poema por vir
ao silêncio branco da folha,
à vida em branco,
à espera.
A folha caiu da rosa vermelha.

22 de dezembro de 2015

Uma ervilha debaixo de sete colchões?

UMA ERVILHA DEBAIXO DE SETE COLCHÕES?
Não tem sido fácil. Lisboa imobiliária enlouqueceu. Não há casas para arrendar, há short rental, há rendimentos garantidos de 4% ao ano. E nem sei como, pois informaram-me da ilegalidade da coisa, até há a possibilidade de comprar um apartamento que não se pode mobilar, já vem “equipado”, nem habitar por mais do que quinze dias ao ano.
E comprar tornou-se uma aventura: vale tudo para quem vende desde que o preço suba acima dos quinhentos mil euros, a fazer olhinhos ao Golden Visa e, ou, à lavagem de dinheiro - explicaram-me, assim, sem mais, numa linguagem, como direi, cínica.
Percebo tanto de negócios como de fusão a frio: não são o meu forte. Isso não quer dizer que a aritmética dos quatro mil euros por metro quadrado de um buraco qualquer passe entre os pingos do sol deste Inverno primaveril. Também não quer dizer que trocar população fixada num lugar, ou que pretende fixar-se, por turismo de fraco investimento, grande ruído e suprema bebedeira me pareça uma aposta inteligente.
Não quero palácios nem buracos. As remodelações ficam pela hora da morte e eu não queria morrer nunca. Uma casa chega. Não a encontro. E não é porque quando me deito o faça em cima de sete colchões e sinta a ervilha debaixo deles. Mas trabalho em casa e tenho o prazer da casa.
Gosto de ser dona do meu nariz. Da minha vida. Da minha casa. Mas por estes preços, aqui não consigo ser dona de nada. Talvez me mude para Brooklyn…

14 de dezembro de 2015

Saudade Ingrata, meu Cão


Ai que Saudade Ingrata, meu Cão
Esta noite sonhei – bem, sonho sempre. No meu sonho havia um poema que tinha feito, pequenino, oito versos: durante muitos anos escrevi poemas assim ou ainda mais pequenos, e à volta de uma música de ouvido a ritmo certo. No próprio sonho fazia o que faço na vida acordada: não é preciso apontar, quando for escrever, recordo-me. E como na vida acordada, zás, esqueci-me.
Há isto, o tempo, um mistério que ainda não conseguimos agarrar e avançamos na cronologia. Até na da escrita. Tinha grandes planos e escrevia pequenos poemas. Agora tenho mínimos planos e escrevo poemas longos. Interessava-me encontrar o fio da música entre os versos, dentro dos versos e segui-lo. Agora só quero saber da vida à escala microscópica do indivíduo. A vida dos outros é o nosso melhor espelho. A nossa está muito perto dos nossos olhos, não se consegue ver, desfocamos tudo. Quando escrevo todos os eus são meus. O teu também. Escrevo eu, mas é mentira, eu é tu. Ou eu que já não há. Posso ser um homem. Posso ser mesmo o eu que eu fui e pipa no céu. Ou uma mulher que tive por vizinha, uma caneta de gente, uma linha, e cinco filhos como se nada fosse, ai mal tive tempo de chegar ao hospital, que aflição tinha-o no carro, disse ao meu marido, despacha-te Zé Manel que o miúdo ainda bate com a cabeça no tapete. Ouvi. Um pedaço de perfeita ficção. Lembro-me exactamente até do casaco tal qual uma manta que ela tinha vestido. Foi no café ao lado de casa. Há vinte e tantos anos, quase trinta. Ainda eu gostava de pão de Deus misto e aquecido na tostadeira. Ainda bebia Ucal de chocolate, de vez em quando. Há isto, o tempo em que gostei de chocolate, o tempo em que escrevia pequeninos poemas nos cadernos de capa dura da Papelaria Fernandes. Coisas assim de antes dos vinte anos, coisas da idade das certezas absolutas e de quando o mundo é para sempre e o que não tem remédio nunca terá:
Enquanto pela distância nos idealizamos
amamo-nos porque o Absoluto é nosso -
Absoluto que partimos ao lavar pratos e copos.
Não queria nada ter os meus vinte anos de volta, nem o pão de Deus nem o leite com chocolate. Aquela saudade ingrata do Chico Buarque, não dos vinte anos, dos doze anos, não conheço. Mesmo porque posso sempre fazer grandes planos e poemas pequeninos.
E no entanto, hoje disse ao Cão enquanto o metia no carro com cuidado, já fomos mais novos, tu e eu. Dantes, o Cão saltava para o banco do carro, molas nas patas - como raio um cão tão pequeno, pequeno como um poema, saltava para o banco de um carro tão alto? Com a puta da cronologia está surdo e não tem molas nas patinhas em verso com rima cruzada. Nem eu tenho. Ó Cão…

4 de dezembro de 2015

ACORDAR NA TASMÂNIA

Da série Juá (de vivre), de Ana Vidigal, 2013, detalhe


ACORDAR NA TASMÂNIA

Tenho bom acordar. Bem ou mal dormida, tenho bom acordar. Abro os olhos. Presto atenção ao corpo, desde a ponta do pé esticado a experimentar os dedinhos contra o colchão até à face colada na almofada a medir-lhe a macieza. Isto faz-me sorrir de gosto. Mal comparado, é como ser recém-nascida outra vez a verificar que tudo é e está como deve ser: um, dois, três, quatro, cinco dedos, olá mão, eh lá... belos pulmões cheios de ar preguiçoso e braços abertos de escancarar a manhã num bocejo, que bom, sento-me, ignição, já está: bonjour mundo! Logo na parede em frente da minha cama, premeditado para começar bem o dia e decidir a nota do pensamento, um rapaz e o seu cão - de Ana Vidigal, da sua Juá (de vivre): ambos contemplam a árvore de Natal. Mesmo sentada na cama, junto-me a eles. Todos os dias é dia de Natal logo ao acordar. Levanto-me. E quando chego à chaminé, de presente, café! O ronron da máquina - maravilha da técnica... Depois silêncio. A luz lá fora. Ou o céu de sombras. A sequência de zhineng qigong. Os músculos todos acordados e a alegria a correr com a água do duche. Ai que fome. O tabuleiro dos vegetais com fruta frio de uma noite passada no frigorífico para um sumo fresquíssimo. Vida boa e aliterações geladinhas onde menos se espera… A centrifugadora parece um raio de um motor de avião – fun! Lindo, lindo verde no copo. Play. Yehudi Menuhin e David Oistrakh no concerto para dois violinos, de Bach – esta semana tem sido este (BWV 1043), e por muito que varie, é sempre algo que condiz com a árvore de Natal.

Mas há excepções. Quando acordo na Tasmânia, o diabo à solta sou eu. O barulho dá-me cabo dos cabides. Fico possuída. Por muito que seja, e sou, um bicho manso, e daqueles que até desejaria ser um bocadinho mais agressivo, assertivo e mais um ou outro ivo dos tantos que por aí há, o ruído transforma-me. É uma alquimia do mal que se opera em mim. Não há meditação, yoga, Deus na terra. Não tenho medo de nada, não tenho medo de ninguém, não meço, não peço, passo-me. Basta um berbequim ou um martelo persistentes e inesperados. Tasmânia. O diabo da Tasmânia. A música altíssima que parece bater junto com o nosso coração, sabes?, e ao mesmo tempo dentro da cabeça, enquanto os vidros tremem… Tasmânia. E o diabo da Tasmânia. Eu. Não há sumo verde, vegetais lixem-se, violinos? Eu dou-te a música: todos contra todos, carnificina já!

Eu é outra pessoa. E essa pessoa é um bicho nada manso. Não sei onde o eu se enfia naquelas alturas, imagino que a tentar pôr a trela e o açaimo na besta. Só de chicote numa mão e de Hobbes na outra. E mesmo assim, o animal rosna-lhe, insidioso: palerma, então o contrato social só funciona para ti? Até respiro fundo do esforço… Recua monstro que avanço!

Penso todas as semanas, à hora certa, quando vejo Homeland, foi ontem, gostava tanto de ser mais corajosa, ter sangue frio, ó… não conseguiria fazer isto nem por aproximação, nunca sobreviveria. É mentira. Bastava despoletar o modo de funcionamento acordar na Tasmânia e cometeria atrocidades. Tenho um bárbaro aqui escondido no bolso.

2 de dezembro de 2015

E se não ajoelha, é porque não sabe rezar


Quem trabalha, descansa, vá, melhorzinho...

E SE NÃO AJOELHA, É PORQUE NÃO SABE REZAR

Marquei encontro com uma pt – personal trainer. Fizemos um plano: cinco dias de treino, dois de recuperação. Quando chega sábado estou morta, mas tenho a ressurreição garantida ao domingo, o segundo dia de descanso obrigatório e chave do sucesso: o corpo pede o treino que não tem e suspira por ele…

É domingo. Em pleno estado suspirativo, pus-me a pensar nisto de ginásios, estilos de vida ditos saudáveis, e modas mais ou menos passageiras, só para dar por mim a dizer, ó diabo!, isto não é passageiro, isto é de sempre. E não tem a ver com o corpo nem com a febre do ideal de juventude. Tem a ver com a Vénus de Willendorf e a Beyoncé, duas expressões de uma mesma coisa.

Em 1908, em Willendorf, na Áustria, foi encontrada uma pequenina estatueta de onze centímetros, datada de há mais ou menos vinte e oito mil anos, feita em pedra calcária. É uma mulher. A cabeça, sem feições de rosto que lhe ofereçam identidade; no tronco, foco de toda a atenção, as mãos, ao fim dos braços finos e atrofiados, repousam sobre o peito cheio e pesado que assenta no abdómen exuberante, caído sobre o sexo, tão bem marcada a fenda, e de costas umas nádegas largas, gordas, sobem num belíssimo refego até à cintura; as coxas e pernas arredondadas não terminam em pés, nem se sustém de pé. Os estudiosos presumem que foi desenhada para a mão humana, tão bem cabe nela.

Esta que é a primeira escultura terá sido um objecto de proximidade. A Vénus de Willendorf é arte na sua forma mais primitiva, coisa tangente à magia pois é evocativa. Tenta manipular a realidade e assim se aproxima do culto e da religião.

Que desejo fechava a mão quando agarrava esta mulher abundante e nua?

O desejo de fecundidade e abundância, ao que tudo indica. E não é coisa pouca, é o garante da sobrevivência. Da mulher nua de Willendorf, e de outras estátuas similares do mesmo período e com as mesmas características, peito e nádegas proeminentes, conjectura-se que serão, digamos, talismãs.

Como se o valor do talismã se transmitisse quando é incorporado por aquela que o tem na mão – expressão reveladora, não é, ter algo ou alguém na mão? Ora, o que tem valor, tem poder.

Quem é que nunca olhou para o rabo de Beyoncé, de Jennifer Lopez? Ou para a mais willdendorfiana Kim Kardashian? Estas mulheres, para além de se depositar nelas o poder da natureza fêmea de Willendorf, poder de vida e da morte, por terem rosto, nome, definição muscular tanto quanto redondezas de estrogénio, sustêm-se nos próprios pés. Não lhes chega, a estas mulheres, serem Vénus de Willendorf, querem ter, também, a hierática inacessibilidade da rainha Nerfertiti, e a condição física da deusa caçadora Ártemis.

As mulheres estão mais musculadas e os homens mais depilados, eles estão, como nunca antes, no mundo familiar e nós, como nunca antes, no mundo profissional. É giro como até no corpo se vê, não é?

Hoje fazem-se aumentos mamários e de nádegas, lipoesculturas e dietas detox. O desejo cardinal por detrás dessas decisões não é só o de ser um objecto sexualmente apetecível. É a necessidade de ser um objecto de valor.

Fazemos agachamentos no treino como antes se pintavam os cabelos do exacto platinado de Marylin Monroe e com a mesma intenção: uma actriz de culto é uma deusa. Cultiva-se a semelhança com os deuses, seja na capela ou no cabeleireiro. Fazer como as estrelas da pop ou do cinema é a imitação dos santos dos nossos dias. O que é ser estrela? Não é iluminar? Mae West, Dietrich, Wallis Simpson, Maria Callas, perceberam cedo que o poder feminino, para ser completo, é natureza e civilização, é fêmea e macho. E, esse poder, é preciso tê-lo para sentirmos com tranquila certeza que se um homem não ajoelha diante de nós, ou fez uma ruptura do menisco, ou é só porque não sabe rezar.



Publicado na revista Epicur, Outono de 2015