28 de novembro de 2015

Carta do escuro da manhã

Eye hath not seen, nor ear heard, neither have entered into the heart of man, the things which God hath prepared for them that love him.
1 Corinthians 2:9, KJV
CARTA DO ESCURO DA MANHÃ
A minha poesia não arrasta mitologias,
não assenta em olímpicos pés,
nem tem anjos em visita nem fantasmas,
nem estrangeiras brumas de Irlanda tecidas
a finos ouros semânticos: repetitivo gongorismo
só quero na filigrana, sim, a de Viana –
I'm a material girl até no apreço barroco
pelos Santos iluminados
com as suas grandes mãos desproporcionadas
para nos educar o olhar para a sua intervenção -
escola de arte subliminal.
A mão faz. A mão maior faz mais. Faz melhor.
A mão faz o pensamento que faz a mão.
E assim se faz o texto, de desproporção barroca,
de atenção à palavra, todo o amor é atenção,
nós pela mão do Santo
e ele pela nossa,
ambos para glorificar o Deus dos nossos pais.
Deus só reconheço um,
o que os meus olhos não sabem ver,
e vêem,
nem os meus ouvidos ouvir,
e ouvem,
nem coração que trouxe para usar
no rés-do-chão do pensamento pode
conceber a beleza da ordem
onde florescem as equações para a madureza da flor,
nem a beleza do caos devorador de eras
sem que um só dia passe,
não pode, e assim mesmo,
sinto-a com a razão puríssima
no sopro com que uma letra
agarra outra pelos versos do tempo.
Portanto de brumas tecidas e de outros renhonhós
de linguagem bolorenta
que melancólica se canta ou lamenta,
estamos conversados – quando era pequena,
se uma coisa me desagradava, revirava os olhos,
encolhia os ombros, bufava, pfff…
e a minha avó, menos expressão corporal
que não a estou a educar para mimo.
Para o que me educaram, não sei.
Olho em volta e decerto acertei na mouche em desconseguir.
Tudo. A minha geração planeia a reforma.
E conta os anos que faltam para enfiar os filhos
na universidade. E o que fará com o resto da vida,
há-de ser uma segunda vida, livre e tal…
Sabem tudo. Viram tudo. Fizeram tudo.
Príncipes do Mundo e são pobres filhos de Góngora.
Se me imaginasse reformada, matava-me:
estou só a começar, mal tenho idade para ser mãe:
I'm an absolute beginner with eyes complety open,
e conforme foi escrito antes dos séculos,
no escuro desta manhã,
só de saborear a alegria do corpo a emergir do sono,
escada do espírito que tudo procura, as coisas mais fundas
onde o medo nos junta e a fraqueza aproxima,
e as mais altas tão longe da sabedoria dos homens
já em voo para o Poder de Deus,
só pela alegria, sei que há um sol de vinte e quatro quilates
aqui escondido.

17 de novembro de 2015

Contas de multiplicar

Não havia esta Anita quando eu era pequena. Fui pequena em Hermes Baby!

Quando era muito pequenina, ainda antes da escola, havia esta canção. E se eu a cantei...
Sou boneca articulada
e dou honra ao construtor
perfeita e bem acabada
até meu corpo tem calor
Tenho corda para falar
pra gestos e movimentos
enquanto a corda durar
mostrarei os merecimentos
Sei contar de um até cem
diminuir e também somar
porém corda ainda não tenho
pra contas de multiplicar
Sei dizer o ABC
soletrar o Bê à Bá
de progresso o que se vê
sei dizer mamã papá
No palco sou um portento
na valsa ninguém me iguala
todos dizem que talento
quer no campo quer na sala
Mais diria se pudesse
mas tenho de me calar
boa noite meus senhores
tenho a corda a terminar
A minha avó nunca leu um poema meu, publicado, e sobre o qual me ouvisse dizer, estou em paz com este poema. Logo ela que se fartava de pensar esta miúda não tem conserto, que chatice, já nasceu acabada, e o meu avô mas em que mundo é que tu vives? Não é verdade, avó, eu sou em construção, olhe, como a Sagrada Família lá de Barcelona, às vezes até parece que me desfaço, mas é sempre em direcção ao céu ainda que o meu reino seja mesmo deste mundo cá em baixo, avô, a grua, a pedra... Há pessoas que demoram o seu tempo: sou dessas. Chegará para dar honra aos construtores? Bem, os construtores honram-me, e isso chega.
Quando tinha catorze, quinze anos, fazia sonetos horríveis de sílabas irrepreensíveis de um até cem, diminuir, somar. E a minha avó, isto já era mau quando a Florbela Espanca estava viva... E anos e anos depois, não me queria atirar ao romance: tinha medo que aquela fome me devorasse. Ainda tenho, mas vamos dançando uma com a outra, a contar os passos aqui, mais livres ali. Estou em paz com esta tensão, aceito esta valsa, e aos poemas, e a tudo quando alinhe uma letra após a outra em caligrafia imperfeita e inacabada - fazer o quê, se o meu corpo tem calor?
Quando dou por mim, quando me observo, parece que a minha vida é isto, um deserto de tudo o resto e, de repente, um oásis de versos. Uma boneca articulada. Mas é mentira. Todas as palavras que dizem me desaguam no ouvido, há literatura puríssima aí pela boca dos mercados, na solidão dos de telemóvel perpétuo, nos títulos dos jornais. Escrever também é tocar de ouvido. E vejo tudo, vejo com muita atenção, desde que esteja distraída de ver fico logo com os olhos do Lobo Mau, vejo melhor: há milhares de mundos que se puseram em movimento, em cada pessoa, para chegarem ali. Costumo pensar, por ser verdade, meu Deus, não há ficção para tanta realidade, que eu tenha só um bocadinho de pulso para enfiar isto página adentro. É natural que a minha vida pareça um deserto de conseguimentos, não há filhos para ir buscar e levar ao colégio, ao ballet, nem o tal Amor ao meu lado, mamã e papá, nem preocupações de pôr o frango a descongelar. Sou o que sou. E agora, boa noite meus senhores.

15 de novembro de 2015

12 de novembro de 2015

Mas que zoológico é este?

Big Bad Wolf?! Eu não quero ser um lobo... Nem uma fada!

A questão zoomotora começou há menos de um mês. Caracolinhos, a Fada, o meu lobo, perdão, a minha fada, ai!, o meu sobrinho mais novo, de quatro anos, estava comigo na rua, perto de casa para onde regressávamos, de mão dada, claro. A verdade é que estava aflitinha para ir à casa de banho, então, acelerando muitíssimo o passo, disse-lhe:
- Anda, vamos a galope!
E ele, zás. Pára e finca os pés no chão.
- Tatia!, eu não quero ser um cavalo.
Adiante. Ele vê-me fazer yoga. Sempre viu. E, tal como o irmão, de vez em quando vem fazer uma yogazinha básica comigo. Algumas posturas tem nomes de animais: cão de focinho para baixo ou para cima; a do gato que vem antes ou depois da vaca; fazemos a cobra e naturalmente a águia que não a leva nas garras; o pombo; o peixe que por alguma razão sempre me deu vontade de rir e faço boca de peixe para compor o figurino com caretas de aquário; o leão de língua de fora; o diabo do pavão anti-gravidade que não consigo, vaidoso!, e mais uma série delas. Então. Tínhamos terminado a tal yogazinha básica quando, aproveitando o facto de já estarmos no chão, lhe digo:
- Olha, põe-te de barriga para baixo, de gatas, vamos andar como urso e depois como o crocodilo…
- Não quero andar animal. Quero andar como um menino!

11 de novembro de 2015

Um homem de cama e grelhador

- Não sei se acordei caçadora se recolectora, o que te parece?
- O que tu decidires para mim está bem...
- Então, meu querido, gostava de um peixinho grelhado.


Um Homem de Cama e Grelhador

Calor rima com grelhador e caçador. Ou seja, rima com homem. Desenvolvi uma teoria sobre o homem selvagem, perdão, o marido/namorado/híbrido, essa criatura em vias de extinção.
Lembra-se de Deus dizer: não é bom que o homem esteja só? Foi no Éden, era amena Primavera, nada de 40 graus à sombra nem grelhadores nas varandas. Porém o homem, na posse do livre arbítrio, faz-se de surdo e caminha para a solidão. Quer ver?

Em 2014, Portugal teve o mais baixo número de casamentos de sempre: 31.170. Pior, este número aponta uma tendência: em catorze anos os casamentos caíram para metade. O número de nascimentos é o mais baixo de sempre e, porque uma desgraça não vem só, 49.3% dos pais não são casados. Destes, quase um terço nem sequer coabitam.

Sei o que está a pensar, não é preciso casar para ter filhos. E viva as famílias monoparentais e outras que tais! Obviamente, a minha amiga também está a pensar, e muito bem, pois sim, filha, se o casamento fosse um rebuçado também os números não teriam vindo por aí abaixo de reboleta. E aqui entra o grelhador-salvador. Vamos à teoria do grelhador.

A relação homem-mulher evoluiu. A grande chatice é que nessa evolução pagámos a comodidade com a facilidade e a coisa perdeu o interesse a longo prazo. É tudo nosso com garantia de tédio. Ó drama.

Mas como a mulheres são criaturas de poder, estará mal, mas perdido é que não está. Porque quem tem, é quem dá.

O homem é um bicho que faz. Fez o mundo à sua imagem e semelhança: ergueu, e geriu. Porém, só contou com a mulher nesse mundo do ponto de vista masculino.

Lá em casa, havia uns livros mal-amados pela minha avó, cujos títulos contam quase tudo sobre esse lugar da mulher. Ou melhor, das duas mulheres que o homem inventou. Um Noiva, Esposa e Mãe, o outro, A Mulher na Sala e na Cozinha. Para completar o quase falta referir outro sucesso editorial, As 50 Posições. Está tudo dito.

Hoje, a mulher tem outra ideia do seu lugar. É totalizante. As 50 posições na sala e na cozinha, por exemplo, é mais integrador. Em vez de duas mulheres, o homem pode ter duas em uma. 

Para o homem, a mulher duas em uma é um bocadinho baralhante, não é o mundo que ele fez. E é um mundo castrador porque a mulher com super-poderes é a mãe.

Com a agravante, as mulheres induziram as mulheres em erro: não se pode dar o ouro ao bandido, ao marido/namorado/híbrido. Não precisamos de ser iguais, porque não somos iguais, devemos sim ter os mesmíssimos direitos para fazermos diferente o que verificarmos ser mais benigno para o grupo – nós pensamos em benefício alargado. O homem pensa nele primeiro – é natural, não engravida e chegou à paternidade muito depois da mulher chegar à maternidade. Isto para dizer que retirámos ao homem deveres para tomarmos direitos. Ora, quando se lambe muito a cria, diz Donne, criam-se monstros. Não pode ser. É preciso corrigir esse disparatinho. Como? Seja uma deusa. O que faz uma deusa? Deixa-se adorar, inspira, castiga, recompensa. Seja uma fêmea alfa. Que faz uma fêmea alfa? Faz bem feito, tudo, até o mal.

Conceda ao homem o dever de ser caçador: ponha-o a grelhar. O grelhador é um apelo ao caçador que ele traz na memória. No mercado, deixe-o escolher o peixe, a carne, sentir o cheiro vago a sangue. Olhe para ele: o mercado é a savana e no quilo de bifes da vazia já ele vê pulsar o coração do bisonte caído à sombra dos pimentos e tomates, perdão, do embondeiro. Das brasas do carvão, cresce e volta o fogo inicial. À mesa, oficiada pela fêmea alfa, a tribo celebra a vida no alimento que o caçador arrancou às mãos da morte. Não há divórcio que resista a esta satisfação. Nem filhos que não nasçam, famílias que não cresçam. Perto disto, o cheiro a sardinha nos cortinados, é canja.

Publicado na revista Epicur, Verão de 2015

6 de novembro de 2015

Ainda não tive tempo para deixar de sonhar contigo

Photo de Maria João cabrita

Estava a escolher uma prancha de sup - insuflável ou rígida? Que achas? E se não gostares de sup nem de passear de bicicleta? E ginásio? Amo um estranho. Estranho amor. E estava decidir se levava aqueles copos para a casa nova, são lindos, mas são de whisky, alguém ainda bebe whisky? E tu? E, já agora, a almofada comprida. Sabes, aquelas que ocupam a cabeceira toda e onde as outras assentam? Comecei a fazer listas de sim e de não, separamo-nos aqui. Foi nessa altura que dei por mim. Ah malvada! De hoje não passas…
Fui à Wook como quem vai ao mercado e vez de trazer um salmonete vim com Ainda não tive tempo. Sou uma má gestora das minhas vinte e quatro horas diárias e o raio da vida escorre e não a agarro numa lombada em condições. Quero ser uma escritora daquelas que pica o ponto e em oito horas de trabalho, folha a folha, romances de quinhentas páginas. Toma lá. Hoje não sou essa escritora. Penso que me treinei ao contrário. Quando tinha dezanove anos ensaiava shorts em cinco linhas, andava sempre a ver onde cortaria, sai, sai e isto também vai de carrinho… Os poemas eram mínimos. Um dia gastei uma página inteira num poema e pensei, ó diabo, como é que isto aconteceu? E os contos não vale a pena publicá-los, disseram-me. Parece que não há apetência por contos curtos, coisa de meia dúzia de páginas para te roubar ao mundo, sim? E tu, leitor, o que queres?! Eu leitora gosto de contos, curtos, com pulso. E adoro escrevê-los. Porque não queres lê-los, leitor? Explica-me. Em poucas linhas. Mas digo-te: podes desgostar à vontade, escrevê-los-ei: ficarão para os teus filhos!
A poesia é uma coisa lixada, enfia-se pelos buracos das fechaduras e instala-se ao nosso lado no sofá, entra com sol pela janela, e cai com as sombras ao fim do dia. Fala na voz deste e daquela, senta-se nas cadeiras de praia abertas no passeio à beira da estrada onde nenhuma onda rebenta, agarra-se à bata por cima da roupa de loja do chinês da mulher que varre à frente da porta de casa. O apito da panela de pressão corta a estranheza entre os desconhecidos que seremos mais logo cada um fechado no seu casulo, cada um à sua mesa, tão iguais - passas-me o sal a trezentos quilómetros de distância? Hoje sonhei que, de repente como nos milagres, as árvores a que elogiava o rico perfume nocturno se enchiam de flores, uma copa carregada de leves flores brancas, entre a aparência da nuvem e a do algodão, maná florido como quem floresce só para dizer obrigada. Obrigada eu pela taumaturgia do caneco. Este assomo de harmonia, a real e até a sonhada, bem me lixa a rotina de funcionária de escritório, oito horas de trabalho com intervalos para almoço e café, se faz favor, o Cão está velho e dorme, o peito sobe e desce e quando dei por mim, tinha pasmado meia hora nesta perfeição animal: há ali leões, savanas inteiras antes da era do homem, a criação debaixo das estrelas, e nós a esquecermos que também somos bicho, corpo, a máquina exemplar de bestialidade.
Então. Hoje não trouxe poema, nem página de romance nem conto. Não se pode escrever das alturas quando o tecido da vida é a nossa segunda pele, tem de haver um grau de separação ou as palavras são carnais como as dos místicos e beija-se a natureza na boca.