27 de setembro de 2015

Ganda livro!

Tenho desde ontem à noite este novo "Os Maias". O livro que li um número de vezes tal que seria embaraçoso dizê-lo pela metade. Não é um segredo que Eça é um dos meus maridos preferidos e conquistou esse lugar com "Os Maias". Estava na altura de uma renovação de votos - e se o meu marido veio giro à cerimónia, de encarnado... nem sei se gosto mais dos bigodes se do monóculo!
Já tinha saudades suas, seu malvado de bigodes! Ora empreste  cá a luneta para eu o ver melhor...
Já tinha saudades suas, seu malvado de bigodes! Ora empreste cá a luneta para eu o ver melhor...
Manuel Fonseca, este é para si, mas para dividir com Ilídio Vasco e Helder Guégués...
DESTINY
O meu primo foi sempre bom aluno. Filho do meu tio Manuel, irmão do meu avô, que ameaçava em voz muito séria pendurar-nos aos dois, pelas orelhas, no tecto do fumeiro, se, em vez de para boas notas, usássemos o cérebro para enchidos. Por alguma razão, diante da carantonha que ele punha, ríamos perdidamente, mas pelo sim pelo não, de mãos a tapar as orelhas.
Ora acontecia lá em casa não se brincar com as notas da escola. E era nosso dever trabalhar o suficiente para não precisar de explicações. Dá-las, era uma coisa, recebê-las, outra muito diferente e, há que confessá-lo, muito mal vista.
Todo o ramo do meu primo tinha o pensamento em números e o Técnico era onde desembocavam. O meu primo Manel, filho mais velho do meu tio Manuel – por sua vez filho do meu bisavô Manuel pois sempre fomos, como direi, muito originais com os nomes próprios -, já estava à data no Técnico. Na falta do irmão mais velho, ao meu primo, sobrava a prima para confidente. A prima era eu. Então.
Ele estava no 11º ano. Eu no 9º. Ele com dezasseis anos. Eu treze. Ele tinha uma fraqueza. A disciplina de francês à qual tirava a nota mínima permitida, doze. Portanto, hipotecado a francês, não poderia ter menos de catorze a mais nenhuma disciplina e isto já a contar com dois dezoitos de segurança para cumprir a média mínima aceite pelo meu tio. Azarucho do caneco, esbarrou num muro inultrapassável, Os Maias. O problema não era o livro. Era ele não conseguir lê-lo. Estava tão desesperado que veio ter comigo.
- Não consigo, não consigo!
- Mas porquê?
- Não sei explicar! é que não consigo…
- Dá cá isso, eu leio, depois conto-te e fazemos o trabalho juntos.
O trabalho, uma abébia da professora aos alunos que se espetaram no teste. Não havia escolha, teria de ser um ganda trabalho com uma apresentação e defesa irrepreensíveis – o inferno de qualquer adolescente em pânico queiroziano.
Os Maias que então conheci eram um catarpácio de mais de meio quilo. Era preciso ler depressa e bem. E a verdade é que há quem, pois foi um caso de amor à primeira vista. A questão não foi como é que eu acabo isto a tempo, foi o que faço quando chegar ao fim?
E o que fiz é parte da mitologia familiar: fui gozada durante anos.
Acabo de ler. Fico completamente nas nuvens. Preparo tudo tim-tim por tim-tim, em fichas de leitura, e continuo nas nuvens. Ensaio com o meu primo a apresentação até estar tudo na ponta da língua, e ainda estou nas nuvens. Não penso em mais nada. A existência transformou-se numa experiência aero-espacial: ou estou nas nuvens ou estou no céu. O meu primo não compreende e não quer compreender. Ao fim, será salvo por um perfeito catorze técnico e artístico...
Não sei se a voar, se a flutuar, vou ter com a minha melhor amiga e informo-a:
- Temos de escrever para Hollywood a dizer que este filme vai ser o novo E Tudo O Vento Levou. 
- Qual filme?
- O que eles vão fazer quando lerem este livro, só preciso de traduzir isto para inglês. E mudar-lhe o título senão, não lhe pegam.
- Mas afinal onde está essa bomba?
- Está aqui: Os Maias. Mas vou chamar-lhe Destiny.

22 de setembro de 2015

Hola, Vitamix, quiero decirte una cosita...

Hola...

Não é exactamente um segredo bem guardado que gosto de cozinhar. Tudo. Não é que não coma, de vez em quando, comida mistério-fabril - já aqui confessei que ando na Koka, mas pouco. Ou gulodices e gourmezices. E quem diz a Koka-mistério diz o Heinz-Ketchup-mistério. Sei lá eu o que aquilo leva, e onde e como, e ó se os como de gosto... Mas prefiro fazer. Tudo. A pasta e o molho de tomate. A maionese, o hummus, o leite, logo que não implique ter uma vaca na varanda, uma coisa assim de amêndoa ou do que tiver na despensa. Também bebo leite-leite, claro, mas muito menos, tal como os iogurtes, escolho os de agricultura biológica. E vingo-me nos belos queijos artesanais.
Faço sumos verdes diariamente. Não, não é de hoje, nem lhes chamo detox nem de emagrecimento porque nem desintoxicam nem emagrecem, alimentam. E de outras cores também os faço. Na centrifugadora. Ora, a maior parte da fibra, na centrifugadora, perde-se. Porém nos batidos, nas sopas, cremes e purés, recupera-se. 
Não tenho uma Vitamix. Só uma varinha mágica e uma liquidificadora banal a precisar de reforma pois rachei o copo ao usar frutos vermelhos congelados num batido. Não está capaz. Hoje queria fazer um batido geladinho. Pensei o que já estou farta de pensar desde que escanequei o raio da liquidificadora: está na altura de comprar uma, vou comprar a melhor, faz tudo e é resistente que se farta. E hoje, além de o pensar, decidi-me. Vou ao site da Vitamix para saber quem a vende - não a queria encomendar na Amazon. Há a questão da voltagem porque a marca é norte-americana e não se trata de um iphone... Não quero pegar fogo às tomadas. E é cara e eu sou prudente - bem sei, bem sei, sexy é ser impulsiva... olhe, azarucho. Queria uma demonstração de belo funcionamento em voltagem e eficácia portuguesas.
Fiquei a saber que em Portugal não há uma loja que a venda. Uma alma que faça a demonstração. Só Bimbys. Demonstradoras de Bimbys. Revistas de culinária para Bimbys. A Bimby é a Barbie das meninas crescidas... No entanto, nem tudo está perdido. Se quiser uma Vitamix da gama empresarial, o meu revendedor local está, como o próprio nome indica, pertinho. Numa cidade de nome Madrid. É já ali ao virar para Spain.

17 de setembro de 2015

Mínimas ix

A morte não tem solução e a doença não tem cura. O resto resolve-se com uma boa manicure e um par de saltos altos.

Minha Mulher, A Solidão

Este é o lindo e novíssimo  Fernando Pessoa, da Guerra & Paz Editores. Uma obra ao negro, é certo, e ao rubro também. 


O ano passado oferecemos-lhe um Fernando Pessoa em capa de madeira. Este ano, queremos fazer o livro que reúne os textos de Pessoa & heterónimos sobre as mulheres, o casamento, o amor e o desejo. Inspirados num verso do autor, vamos chamar-lhe Minha Mulher, a Solidão. Mas vamos também chamar-lhe, porque há outros textos que assim o exigem, Conselhos a Casadas, Malcasadas e algumas Solteiras.

É um livro ambicioso, de grande dimensão, 24x24 cm, capa de cartão, 3,5 mm de espessura, títulos e nome do autor em estampagem serigráfica a vermelho e negro. O miolo com dois tipos de papel Munken, ambos de 150 gramas, mas com tonalidades diferentes. Vai ser um livro a preto e branco rasgado a pantones vermelhos. O que os franceses chamam um «beau livre».

Ainda estamos a fazê-lo, mas vai ficar assim:

Mas será que Pessoa e heterónimos escreveram só sobre mulheres. Ou será que há por descobrir, na poesia e na prosa do autor, uma sexualidade selvagem e inflamada? Há. Basta ler as odes de Álvaro de Campos. Fomos buscar esses textos e fizemos um segundo livro, que irrompe, em papel de jornal, pelas páginas de Minha Mulher, a Solidão. Tudo colado à mão.

Para um livro assim, surpreendente e irreverente – que vai dar a muitos leitores uma nova visão de Pessoa – tínhamos de encontrar soluções gráficas igualmente irreverentes. Além das três faces do miolo pintadas à mão a vermelho, não se admire, por isso, que o miolo do livro esteja preso só por uma face à capa, ficando a lombada com costura à vista. Um livro artesanal.

São grandes e extraordinários textos de Campos, Bernardo Soares, Barão de Teive, enfim, de Pessoa & Companhia. Mas temos outros convidados: uma pintura original da artista Ana Vidigal (mais uma colagem à mão) abre o livro num díptico, e há um texto-poema, de Eugénia de Vasconcellos, a dialogar hoje com a mulher de ontem de Pessoa.
Deste livro, que chega às livrarias no final de Outubro, serão comercializados apenas 1.850 exemplares, todos numerados. Edição única. Este livro não voltará a ser impresso.

Precisamos, amigos e leitores da Guerra e Paz, que nos ajudem a fazer esta obra. Sim, o crowdfunding já chegou à edição. Vale a pena adquirir já este livro que ainda não existe. Ajude-nos a criar um livro de qualidade e compre, agora, por 33€, um livro que, depois, no Natal, vai custar 55€.  Pode comprar Minha Mulher, a Solidão por apenas 33 €, desde que o faça a partir de hoje, dia 11 de Setembro, e até 16 de Outubro, no site da editora.

Vá ao nosso site e adquira o livro, poupando 22 €. Ajude-nos a fazer edições de alta qualidade.

Compra limitada à oferta existente. Os livros adquiridos serão enviados para a morada que nos indique, a partir de 20 de Outubro. Portes de envio (para Portugal e Ilhas) suportados pela editora.


15 de setembro de 2015

Primeira Epístola à Igreja dos Cabeçudos

PRIMEIRA EPÍSTOLA À IGREJA DOS CABEÇUDOS
Que é lá isso de ser crescido
e contar sílabas, cantar sílabas, 
engolir dicionários e regurgitar 
a palavra rara, a tal palavra cara 
que justifica as despesas de educação,
a altíssima formação 
em falta de pensamento, 
e a reverência aos balões de vento…
Cuando era niña, escribía como niña,
pensava e razonava como niña.
Pero cuando me hice mujer
dejé de lado la escritura de niña.
Ó grandíssimos cabeçudos,
címbalos,
a desfilar uns para os outros,
ding, ding,
ninõs,
e nas margens da vida
o aplauso de quem nem sabe
para que servem as mãos -
é triste esta merda, ou não?
Quem ama não se deixa aplaudir,
puxa para dentro, traz para o centro,
abraça.
Sabes, lá ao fundo,
a terra seca de meter dó
espera-te a ti e a mim
debaixo deste céu azul mais imaculado
que o manto da Virgem Maria
e onde a luz desce a pique:
cega-nos o coração e seca-nos a boca
tanta verdade:
as covas rasas, nem uma erva,
a maré baixa de flores de plástico,
nem uma alma, nem uma lágrima,
a terra seca de meter dó e de se comer
pó e morrer o futuro.
Que é lá isso de desfile, cabeçudo,
címbalo, ninõ mío,
a vida,
para contarla bien, hay que amarla bien.
A língua dos anjos e dos homens
é de um alfabeto de amor.