27 de julho de 2015

Bonjour Mundo!

it's too darn hot 
it's too darn hot
lailailai with my baby tonight
lailailai with my baby tonight
according to the Kinsey Report
ev'ry average man you know
much prefers his lovey dovey to court
when the temperature is low
but when the thermometer goes'way up 
and the weather is sizzling hot
mister pants for romance is not
lailailai

26 de julho de 2015

Tens dono?

Fotografia de Maria João Cabrita

A varanda daquele prédio em frente tem quatro chaminés, cada uma delas com cinco saídas de fumo, e a caixa dos elevadores, mais um pequeno acesso para o exterior. Assim mesmo, sendo um espaço comum e atravancado, todos os dias um homem tem vindo fazer caminhadas peripatéticas em calções de banho, sem mais. Os de ontem eram azuis escuros com alguma coisa que não se percebia na distância, algo mais claro, branco ou amarelo, não eram bolas - não sei. Está nos setenta e bastantes anos, de certeza, tem uma grandíssima barriga e anda para trás e para diante de mãos atrás das costas, ao fim da tarde e depois já perto das onze e meia. É calvo. Não está moreno da praia nem é branquela por aí além.
A lua está em quarto crescente, dourada a ouro velho, nem o craquelée lhe falta, enorme, e põe-se a nascer mesmo atrás da caixa dos elevadores e depois sobe céu acima sem motor algum que a puxe nem caixa que a feche e fica ali mesmo por cima da varanda do homem tal qual a estrela de Belém. Não há reis nem pastores que venham, só eu para aquele menino Jesus velho, sem presépio nem discípulos a pisar os caminhos secretos da varanda.
Quando olho para a lua não consigo evitar lembrar-me que navegamos o espaço, ela e eu, tão peripatéticas como o homem de calções.
Também existimos para testemunhar a vida, não é? Seja a de um satélite de ouro estival ou a de um estranho. O facto é que a despeito daqueles enormes calções largos demais nas pernas para acomodar a cintura, da idade a apontar para o fim, está ali, ainda presente, o menino que a mãe teve, o rapaz do seu pai, porque isto permanece, os pais falam dos seus rapazes que são os meninos das suas mães, houve um miúdo, e sonhos, e alguém o amou. Uma família depois e agora anda sozinho na varanda.
As pessoas, como os cães, precisam de dono.

21 de julho de 2015

Stand up

STAND UP
É Verão lá fora,
cá dentro é só calor
e o Cão tão velho
a respirar por sibilos,
o coração em esforço -
o veterinário diz, é assim,
está a fazer a medicação,
é assim.
Tenho o sono muito leve,
aéreo, cheio de sonhos,
acordo mil vezes e agora
mil e uma para ir ouvir
o Cão a dormir - se ele ressona,
o mundo é bom.
Quanto a mim,
faço sumo verde e a Mãe em visita
diz, todos os dias sumo e não te vejo
melhor e eu respondo, mas Mãe, 
se não preciso de fazer medicação para
as alergias, nem bomba nem nada,
estou melhor… Não é isso, é o resto. 
O resto? O resto é assim. 
E não posso gastar a atenção 
em dói-me aqui
ou em não consigo,
desloco o pensamento
para a prancha a deslizar lentamente
no rio do futuro, como se fora hoje,
agora, já,
stand up paddle é
o meu tipo de coisa feliz, como foi passear
de bicicleta com o Cão no cesto,
a lamber o vento.
Não se pode viver sem perder.
A força. O querido Cão. A gente que amamos.
Mas podemos remar.

15 de julho de 2015

Cortem-lhe a cabeça!


Estamos quase a celebrar o nosso aniversariozinho, não é minha lindeza ariana? Não me chame assim que coro... Fica-lhe tão bem nas faces o rubro da nossa bandeira, dê cá a mãozinha, bebé. Cuidado com o cigarro, maluco!
Toda a gente sabe o que é o Síndrome de Estocolmo - para quem esqueceu, em linguagem de café, é isto, mais coisa menos coisa: a empatia dos reféns pelos seus captores. Os reféns poderão mesmo justificar o comportamento dos seus captores, e em casos extremados, fazer a defesa destes e dos seus valores.
Já a Síndrome de Varoufakis, ainda que seja um fenómeno psicológico exuberante, será menos conhecida. Na sua essência, é um rapto colectivo do pensamento lógico a partir de uma base ideológica comum, informalmente conhecida como Grande Nação da Esquerda Caviar. Verifica-se a emissão de expectativas irrealistas ou, porque também é possível, perfeitamente adequadas em Lalaland. Desencadeia hiper-actividade nas redes sociais, nas passeatas, alguma falta de controlo de impulsos, por exemplo, muito bater de portas, referendos, acusações de grande eco, tipo, fascista, terrorista e outras coisinhas que desprestigiam fascistas e terroristas e mais gente que assim se vê diminuída.
A coberto de urbanidade multicultural, politicamente correcta e tal, e estética de gin tónico, a Síndrome de Varoufakis caracteriza-se por um provincianismo que só encontra espelho no ultra-nacionalismo. Ora, também toda a gente conhece a ideia de, vá, Pátria/Europa encontrada nestas duas afinidades electivas do pensamento político, afinal de contas, logo à cabeça, com quem se aliou Hitler representado na linda pessoa que decerto foi o seu ministro Ribbentrop? Pois, foi com o amigo Estaline e a Rainha de Copas: off with his head!
E eu estou aqui em baixo, porquê? Ainda vos corto a cabeça! Ó Molotov, traz-me um pudim, filho, que o tratado de... de coiso, vá, de Tordesilhas já está assinado pelo teu patrão...

10 de julho de 2015

O coração do caçador de borboletas


Entre os meus mil e um pecados, o diz que disse não está. Não por qualquer mérito moral, apenas por carácter: não só não me interessa como me entedia ouvir falar de gente que não sei quem é, não quero saber, mas tu sabes quem é, é não quantas, filha de não sei quem que andou com o… Não sei de quem falam e se vagamente calculo de quem se trate, não tenho paciência, repito, não tenho o menor interesse, quero lá saber, façam o que quiserem. Mas desamparem-me os ouvidos.
No entanto, tudo da vida me interessa. Nem a coisa mais insignificante me chateia. Sou bem capaz de memorizar com os olhos a mulher que entra na frutaria e de lhe perceber na postura os fios dos pensamentos, o lado amolgado da alma e o prazer que colhe na ponta dos dedos a escolher dois pêssegos caros demais para a carteira de plástico. Tudo da vida me interessa e a tudo dou atenção que é só uma forma de amar com o intelecto. E levo esse amor para a frase, o verso onde o tu se faz eu, onde a empatia se desfaz para dar lugar à comunhão: sinto com o teu coração. É assim.
Talvez haja alguma perversidade em pegar na vida de carne e ossos e sangue e em levá-la para a ficção, ora mais ora menos poética; talvez haja perversidade em fixar a vida nas palavras, mas prefiro pensar que nada disto se passa ao gosto vitoriano da caça às borboletas presas em quadros como o que havia lá em casa, e as borboletas num mistério de conservação a atravessar gerações. Seja lá como for, um fim de tarde, há meia dúzia de anos, ou pouco menos, fui passear o cão, e do arbusto ao lado do passeio, tantas borboletas, um tornado delicado de asas azuis em minha volta, tudo azul escuro dos pés até por cima da minha cabeça, quase me assustei, dezenas e eu estátua, e de repente desapareceram no arbusto.

6 de julho de 2015

E quando?

Fotografia de Maria João cabrita

Então. Fiquei surpreendida. O meu primo tem a minha idade e três, repito, três filhos, os mais velhos já na adolescência - são tão giros... Divorciou-se há quase um ano, separou-se há quase dois e poeira até tudo assentar. Assentou. Nenhuma surpresa nisto, só pena, é difícil um divórcio com os miúdos ainda a crescer. Mas virou-se e disse e se eu tivesse casado com ela, tenho pensado muito nisto, e se eu tivesse casado com ela? Ela, a namorada que tinha quando conheceu a mulher.
A minha vida não tem e se?, nem um e se? Nicles. Zero. Digo sempre, obrigada, meu Deus, obrigada, por estar exactamente onde estou, no lugar certo para chegar onde devo. Porque há coisas de que me arrependo. Claro. Mas o arrependimento é activo e actualiza-se no presente, quero dizer, não seria capaz de as voltar a viver, isto é, não as faria ou permitiria. Simples. Tal qual os cigarros: o dia em que me arrependi de fumar - fiquei despachada no treino, nem podia com um gato pelo rabo -, foi o último dia em que fumei. Simples. Não há e se nunca tivesse fumado? Lixe-se isso, se fumei foi porque na altura não sabia mais, quando soube, fiz melhor. Acabou. Siga.
Mas penso, e creio que toda a gente pensará, outras possibilidades de ser. Se são impossibilidades, dou-lhes cinco minutos. Cinco minutos para ficar triste com o que jamais se será ou terá, chegam. Porque vida é pequenina demais, dura pouco e as lágrimas não são navegáveis. E se? é uma rejeição que mutila quem se é, o que fez e se tem. Não gosto. Prefiro pensar e quando? E quando? tem futuro.

3 de julho de 2015

O sol, por vezes, tem a cara da Virgem Maria

Não são elas, mas podiam ser...

Havia as primas de Espanha. Vinham à frente do Verão e ele vinha por arrasto, nos saltos das socas, nos shorts tão curtinhos, na vida a cores de livro de Anita: rosa-choque, azul-turquesa, amarelo, amén.
Todas as primas falavam perfeito português de um café e una natilla, por favor. E se alguém dissesse nata logo respondiam com a surpresa nas sobrancelhas pois haviam dito exactamente isso, o no? Por causa delas ainda hoje compro os albaricoques que então cresciam na árvore acidental lá de baixo, antes da capoeira, e que tomávamos de assalto – lá de baixo já não existe, nem a árvore, nem pitapitapita nem gemas de ovo cor de albaricoques. E à bolacha americana que comprávamos nas tardes infinitas de praia, amén.
As primas eram um monte, e o primo, um só irmão desgarrado. A minha tia, católica férrea de mantilha preta e lenta no leque, entregara à divina providência o número de filhos e a providência decidira-se por seis raparigas e um rapaz. A minha tia dizia que o filho saíra ao marido, falava a língua dos touros e dos cavalos e no resto era surdo-mudo tal qual o pai e como ele levantava-se de noite para ouvir nascer a manhã no pasto. A minha avó costumava dizer-lhe quando ela chegava sem o marido e sem o filho, as palavras a caírem do sorriso: finalmente deste descanso às almas no purgatório? Então, habituei-me a pensá-los a subirem ao céu de Espanha, que era outro, obviamente, montados nos seus cavalos para quinze dias de celeste silêncio conjugal, filial, fraternal – amén.
Se calhar porque tinham nomes bíblicos ou evocativos de Maria, todas as primas tinham dons – o de falar em línguas escapara, é certo. Tocavam. Dançavam. E a Pureza, a do meio, cantava tão impuramente o flamenco que a mãe acabava sempre a dizer-lhe com um gesto imperativo na ponta dos dedos el Padre Nuestro. E ela, hagase tu voluntad, atacava um Pai Nosso rociero para redenção dos pensamentos da mãe, as irmãs a fazerem coro, e aquela voz fazia arrepiar uma pessoa e dava gosto ao arrependimento pois justificava todo o pecado. E vinha por ali fora o Rocío em peso e até a sua Virgem Dourada vinha ouvi-la e trazer o sol ao Verão.

1 de julho de 2015

Assinatura

Ser o que pressentimos ser, arrojar os limites do raio das nossas possibilidades, quero dizer: há a educação, as circunstâncias, as expectativas, há sermos o que inventaram que éramos, e depois de tudo isto, depois de sermos o pai e a mãe que tivemos, e o herói e o vilão que nos atribuíram, depois de vivermos os seus respectivos sucessos e fracassos, há a liberdade de ser, há outra porta para a qual só nós temos a chave. E quase ninguém entra. Será porque ser exige obra?, obra nossa, única, pessoalíssima? O desconhecido que fascina também assusta.