27 de junho de 2015

Há-de Passar

HÁ-DE PASSAR
E o meu rio corre
e assim avança o mar, 
mesmo se as paredes da alegria 
se estreitam e então é quando
lanço estas âncoras recitativas
para passar, mesmo de lado, a fazer espaço com os cotovelos:
aqui ao leme sou mais do que eu.
Porque tenho e tu tens adamastores desmedidos
e lá ao fundo cantam as sereias o sonho
dos cínicos, não vou, não quero ir,
as paredes estreitas hão-de florir
apesar daquele filho da puta ali em baixo
andar a convencer-me do lixo,
espanca a cadela e os ganidos
enfiam-se-me no pensamento
- o ouvido é um bicho de eco infinito,
nada nunca passa, é o caracol da eternidade.
A polícia não quer saber, ninguém quer,
vou à janela para que ele saiba que eu vejo
e hoje gritou-me outra vez
puta do caralho, vai para dentro ou esmago-te
os cornos.
Não vou, não quero ir, podes cantar, sereia, o lixo.
Sou impotente, é certo. Não consigo salvar a cadela,
nem impedir que vendam meninas para o tráfico,
nem coisa alguma destas que dariam cabo de mim
quando as paredes se estreitam,
mas eu passo e a alegria também nem que seja à cotovelada:
há uma miúda, Michaela DePrince,
já deve ter vinte anos, agora,
é bailarina profissional
numa boa companhia, na Holanda,
veio da Serra Leoa, internada no orfanato por um tio
depois de assistir ao assassinato do pai, à mãe morta à fome,
ainda viu ser cortada a barriga à professora grávida,
uma aposta para ver se era rapaz, à catanada corta-se
o penúltimo vínculo de esperança,
o último, uma capa de revista com uma bailarina
um dia atrás do outro, um ano atrás do outro, 
dentro das cuecas, uma merda de uma folha apanhada na rua, 
uma bailarina de tutu cor-de-rosa, jogada pelo vento,
dobrada nas cuecas, era uma bailarina 
e ela, quatro anos de idade, 
sem ter feito uma única pirueta na terra batida,
sem saber dizer ballet,
e ela aqui ao leme sou mais do que eu,
e foi da África à América de deem-me os vossos pobres -
que afinal existe.
A América existe sempre.
As paredes da alegria estreitam-se mas a gente passa.
Todos os impotentes transbordam uma fúria omnipotente
e eu, ah eu, nessa fúria bem esmagava os cornos
àquele traidor do pacto que os cães fizeram com os homens
quando abandonaram a alcateia para ser matilha.
E era bem capaz de cortar à catanada
um cobarde de orfanatos.
Mas até ao mostrengo que trago dentro
e a voar roda três vezes
e à sereia que lá do fundo canta,
lixo, lixo, lixo,
respondo aqui ao leme sou mais do que eu,
e o meu rio corre
e assim avança o mar, 
e as paredes fazem espaço
e o poema há-de passar.

20 de junho de 2015

Para maiores de 18 anos

Ó minha serpente... falta cor nesta maçã!

X - O X DA QUESTÃO

O telefone é um meio de comunicação à distância - aprendi isto na primária, que é só outra maneira de dizer, no tempo tecnológico dos Flintstones. Agora, na era pós-pc, o smartphone, telemóvel esperto, inteligente, giro e bem disposto logo no nome próprio, é muito mais do que um meio de comunicação. O seu poderoso sistema operativo faz dele mais uma plataforma de trabalho e recreio ao nosso dispôr, um assistente pessoal, um modo de expressão e de ligação – e ligação não é uma chamada, é vínculo, é laço ou nó e na laçada, mais ou menos apertada, quem está, está lá, allô, somos nós.

E a graça de sermos gente começa logo aqui: tão independentes, no trânsito da família alargada para a nuclear, e desta para a monoparental, ou mesmo para a experiência individual de sermos, coisa pequena, assim atomizada, zás!, com isso não queremos nada, cem por cento online, ligado tu e eu ligada.

Ligados a quê, ligados a quem? Ao mundo e um ao outro, meu bem. Vamos conversar para maiores de dezoito anos e bolinha vermelha no canto superior direito.

Se no tempo dos Flintstones era fácil definir um telefone, hoje não é assim tão fácil definir um smartphone. E muito menos um conceito em pão-pão, queijo-queijo, de sext, sexting. Da academia aos meios informais, olhe, varia porque evolui. Todavia podemos afirmar sem mentir que é a troca de conteúdos sexuais explícitos, mensagens, fotografias, chamadas de voz, vídeo-chamadas, vídeos. E os dados sobre esta prática, sexting, predominantemente norte-americanos por criminalização como pornografia infantil das fotografias tidas ou enviadas e reenviadas de menores, informam-nos muito sobre a população adolescente, mas menos sobre a população adulta. A Alemanha e a Espanha também contribuem com alguma informação, mas as amostragens não são representativas ainda que este seja um comportamento social global.

Contudo, o que nos adolescentes é um comportamento de risco, entre adultos que são um par romântico, pasme-se, é o reforço de um vínculo, um apertozinho na tal laçada. Estima-se que um em cada cinco baby-boomers não queira andar solitário entre a gente mas sim preso por vontade. Portanto, em nada diferente da ferida que dói e não se sente do jovem adulto de vinte, vinte seis anos. Este modo, digamos, camoniano de arder, perde a cada dia o seu estigma de obscenidade, o carácter me liga, vai. Passou para o domínio da poética, quero dizer, é música de cama. Porque entre adultos a vinculação amorosa passa pela cama, e a cama não é sedentária, é nómada e pode estar no quarto do smartphone.

Verifica-se nos casais que praticam sexting, uma mensagem aqui, uma chamada ali, e mais uma fotografia, e outra chamada porque no romance a voz é fundamental, a consolidação da relação romântica, pois há assim uma espécie de nunca contentar-se de contente, um estar e não estar em ai banho-maria, tão bom banho-manel, cada um por si no foco profissional ou social, e imersos um no outro na construção de uma tensão sexual óptima, os preliminares na ponta dos dedos via sms, e com aumento de produtividade laboral.

Resumido: porque o prazer de ser desejado é saber-se amado, seja poeta, diga lindas indecências ao ouvido telefónico do seu amor.

18 de junho de 2015

Escola de Ingratidão

ESCOLA DE INGRATIDÃO
Penso que Paulo Leminski 
queria ter sido um grande poeta.
Drummond, tendo querido ou não, é.
A palavra leva a melhor sobre a vontade
e na poesia até leva a melhor sobre o desejo.
Não se é o poeta que se quer ser,
é-se o poeta que se é, e isto basta
para a história da ingratidão.
Começa logo de pequeno:
ah, eu queria ser polícia, médico,
bailarina… Ninguém diz:
ah! eu quero é ser poeta.
Ninguém quer ser poeta como
ninguém quer ser puta,
são duas tristes profissões:
uma por defeito congénito pois
alguém se faz poeta? Não, 
poesia não é fermentar versos, 
um poeta não é um pão no forno a crescer lento, 
a poesia é uma existência, 
reconhece-se quando nos reconhece;
a outra dá-se por camilianas circunstâncias
a despeito da tretapolítica 
das trabalhadoras do sexo
com factura discriminada.
Mas a ingratidão estende-se adulta,
escrever só se pode quando 
se pode escrever por cima,
diplomatas, jornalistas, alguns, poucos, médicos
decerto por segredo de receituário e obscuros
funcionários públicos ou privados.
Quem pode ser poeta e ter carreira a sério?
A carreira é um eu muito grande, não dá espaço
à enorme poesia.
E ter a poesia assim como quem 
tem uma amante ou uma coisinha de lado?
Ninguém de letras maiúsculas.
A poesia é a mulher toda, inteira,
e se forem precisas três para fazer uma,
olha, é a vida, a única carreira legítima,
a conta da água e a da luz, os filhos para criar,
o grande amor que o tempo morde
e o ressentimento, é, foda-se, larga-me, 
vem cá, é para sempre.
Não fui promovido, que se lixe,
está aqui este poema vale bem um ano de vida,
trocava-te, sim, a ti e às outras duas,
por ele e até por um verso - a ingratidão continua.
Que não haja dúvidas: a poesia vem primeiro.
Essa Máquina de Destruição,
ver o rosto de Deus e viver sem ser profeta.
Sorte dos poetas com salvífica prosa, romance,
crónica, artigo ou ensaio, e biscate alimentício.

8 de junho de 2015

Em flama

Tanto disco dos Beatles e nem unzinho do Tony de Matos... Quem está em destaque na capa, quem é? Abaixo a tirania e quem a apoiar!

A minha avó cantava fado – em casa, claro. O meu pai também, mas mesmo fora de casa, com amigos e guitarradas, muita festa brava – um clássico, portanto. Infeliz ou felizmente, não nasci com a voz da minha avó nem do meu pai. Não tenho ouvido para a música e a minha professora de piano dizia que eu tinha mãos de aranha. Não toco um dó nem para salvar a vida: passei as lições de piano a dar aulas de ballet à filha da professora de piano.
Isto para dizer que era pequenina e adorava ouvir telefonia. Mas era a telefonia da Liana, pendurada na corda da roupa da varanda lá de cima, cheia de azul do céu e líquenes teimosos nas juntas da tijoleira envelhecida a toque de sol e chuva.
A Liana trabalhava lá em casa. Os passos dela ouviam-se na distância e parecia que falava por um megafone. Fazia coisas de fora. Era, toda ela, uma força sobrenatural como as mulheres quadradas de Paula Rego. Lá em casa, quando eu era muito pequena, havia fora e havia dentro. Fora era estender a roupa. Matar uma galinha também era fora. Mas um fora mais longe e por outras mãos. Cozinhar a galinha e passar a roupa era dentro. Eu deveria ficar dentro, mas andava fora, pisava o risco, está visto.
O rádio da Liana tinha Tony de Matos. Com os érres enroladinhos nas cartas de amor, e sinónimos a explicar bem: cartas de amor, por exemplo, são andorinhas e levam saudades minhas.
Os fados da minha avó eram outros, tinham muitas coisas singulares e notícias do meu país ao passar pela ribeira onde às vezes me debruço. Mesmo os fados do meu pai não haviam tido Tony de Matos. O meu ouvido não saberia afinar, todavia era de boa memória em quilómetros de letras tintim por tintim. Os fados do meu pai tinham tido embuçado nota bem foi um touro que o matou. Mas eu preferia o presente tal qual a vida dá e o que dava na rádio era o Tony de Matos.
Ora, a tirana da minha avó não me comprava os discos do Tony de Matos, ó rua de amargura, rua feia e escura, rua sem amor. Desconfio que era por causa das torturas do desejo, dos pedaços de dor, dos ideais que morreram, do amor desencontrado. Enfim, por tratarem de questões verdadeiramente importantes, as que nos desgraçam ou, tal como a Maria, ave, nos enchem de graça...
Não serviu de nada a tirania. Eu sou aquela que não olvida e estou aqui: decorei tudo, não pedi licença ao mundo, que falem não me interessa, lado a lado, linha a linha pelos furinhos da telefonia e nem preciso que o tempo volte para trás pois o sol volta todas as manhãs.
Vocês sabem e eu também sei!

4 de junho de 2015

Até ao Céu

For me lips that have smiled, eyes that have shed tears
Walt Whitman, Song of Myself

ATÉ AO CÉU
Entre o meu chapéu e as minhas botas,
três noites seguidas cantou um cigano,
fora do calendário,
saetas até ao céu -
se Deus ouviu, ou não, não sei,
eu sim.
Começou sempre por volta da meia-noite,
a voz nítida atravessou o calor 
do afinadíssimo escuro e quebrou
em mil gomos o aroma das laranjeiras.
Onde está o cigano? O pomar, onde está?
Entre o meu chapéu e as minhas botas,
mas da janela não os encontro, 
nem toco no mundo fechado:
da torre só vejo o asfalto com
os seus semáforos comandantes
da incansável vida motorizada.
Está verde, verde meia-noite, 
a noite avança e o cigano, e eu.
Canta melhor por volta da uma, 
já respirou ar quente pela boca 
e o sumo de cheiro a laranjeiras 
deu-lhe sol nas cordas vocais.
Às duas, intermitentes bullerías.
Às três, a voz do cigano falha, 
é o sinal vermelho, 
noto que bebeu demais 
nos intervalos de silêncio tinto.
E ele também, e cala.
Entre o meu chapéu e as minhas botas
canta-se uma saeta enquanto tu páras
no semáforo, a mão no volante,
eu cá em cima, longe de tudo e de ti,
a convencer a carne das certezas da razão:
a unidade da alma e a sistémica da física:
somos partículas que cantam uma saeta até ao céu.
Mas isso não me consola.

1 de junho de 2015

Síndrome de Angelina Jolie

Qualquer mulher sabe o que é a tragédia sem ter estudado os clássicos. A tragédia é um não sei se mate não sei se morra, talvez matar e morrer seja a resposta, pronto, acabou-se. Este pano grego é-nos fatal porque o diabo é hormonal e certo como um relógio suíço até quando atrasa. Ah, sim, estou a falar disso… Dir-me-á, não seja australopiteca, nós tomamos a pílula. Não, nem todas tomamos ou podemos tomar: algumas de nós somos ao natural. E nem sempre o que é natural é bom.
Estou fortemente desconfiada de que grandes momentos dramáticos e literários foram retirados ao spm. Furar edipianamente os próprios olhos é um exemplo representativo. Um homem faria lá isto? Pois sim…Nicostrata, primeira mulher de Sófocles, todos os meses tinha uns blues de não se levantar da cama e quando se levantava era um tigre, assim tipo, se não deslargas esse raio dessa peça, tão certo como me chamar Nini que te furo os olhos com este pregador, ouviste? Daí ao edipozinho e ao segundo casamento teórico, perdão, com Theoris, foi um sopro.
Ora, isto vem a propósito do humor e não da biologia feminina. Há períodos complicados na vida de uma mulher – não é um trocadilho. Um spm da alma, digamos. Ou porque casou com o homem errado. Ou com o certo o que não lhe permitiu errar bem. Ou porque teve filhos e não foi fazer um workshop de yoga em Chenai. Ou porque não teve filhos e descobriu que quer ter mas não de um homem qualquer e o pai ideal não está à mão de semear. Ou porque não aconteceu quelque chose que não sabe muito bem o que é todavia poderia ter sido. Enfim. É puta da serpentezinha da insatisfação que anda a rabiar pelo pensamento - e se a serpentezinha rumina e rumina a mesma converseta, céus, parece uma vaca!

Estou convencida de que isto é o Síndrome de Angelina Jolie. E só tem cura à Lara Croft. Quero dizer, às serpentes, corta-se a cabeça. Explico.
Anglina Jolie é linda de cair para trás desde a primeira inspiração. Tem uma profissão e sucesso nela. Desenvolveu montes de trabalho humanitário ao levar os holofotes para passadeiras pouco vermelhas um pouco por todo o mundo. E mais recentemente mostrou uma fibra do caneco - nem vou chover no molhado com detalhes. Mas não foi sempre esta mulher que é hoje, vulnerável, permeável, enquanto é forte e capaz de lidar com as adversidades, o que é só outra maneira de dizer, um referente. Angelina Jolie já passou pela fase cabelo asa de corvo e sangue do então marido ao pescoço, num pendente, e ai não sei se mate ou se morra, então é melhor matar e morrer. Depois começou a viajar para África, em direcção a outras necessidades, necessidades de outros: ao cuidá-los, cuidou-se. Cortou a cabeça à serpente.
Ser feliz é uma decisão, não é um acaso, nem é determinado pelas circunstâncias. Não se consegue andar de sangue ao pescoço armado em baby suicida quando se vive fora do próprio umbigo.
Resumido e espremido: enquanto não nos livrarmos do pendente, não podemos saber de que tamanho é o mundo, onde estamos nele, para quê. E, azarucho dum raio, não há Matt Damon, enganei-me, Brad Pitt que nos encontre: só se atrai aquilo que se é.