23 de maio de 2015

Carta ao meu Amor - última!

É a última alegria que lhe dou por correspondência!

Amor dum raio!
Acabou-se. Perdi a paciência. Preciso de uma prova de vida. Acha bem uma mulher ter de pedir isto ao seu próprio marido?! Escrevi-lhe três, umaduastrês lindas cartas, e respondeu-me? Pois sim… Não se justifique. As justificações irritam-me porque, olhe, azarucho do caneco, sou crédula, portanto, nem tente que não o posso ouvir - detesto ser crédula. Por mim, até pode ter estado a fazer serviço humanitário, ter sido raptado e estar a recuperar num hospital: não tem perdão nem tenho peninha de si. Sofra.
Enfim. Venho dizer-lhe que está com os dias contados. Vou dar-lhe um prazo findo o qual desapareço mais depressa do que a Cinderela do baile. E pior. Peço-lhe um divórcio mental que até vê a vida a andar para trás por não ter andado para a frente. E depois vai andar aiaiaiaiai. Está avisado. Para o bem e para o mal: levo muito tempo para tomar uma decisão. Mas depois de a tomar…
Desapareço-lhe! E depois vá queixar-se a Annie Leibovitz...

Aos factos. Viu An Affair To Remember? Soa-lhe a chick-flick? Não viu? Tem a mania de que não gosta de comédias/dramas românticos? Não quer dizer? Não sou telepática, veja o filme, svp. A cena à refeição, creio que ao jantar, é giríssima, deixa-me sempre a rir. E a menina, a Deborah, tem alfinetes. Eu gosto. Umas alfinetadazinhas, vá, estimulam a circulação aos rapazes - quem manda que sejam uns vaidosões? Tau-tau.
E podemos ir comer quelque chose...

Tem de ver! Já está de dvd na mão? Nickie Ferrante, Cary Grant, e Terry McKay, Deborah Kerr, em viagem de volta a casa, a Nova Iorque, e ainda no navio de onde regressam da velha e boa Europa, marcam encontro para dali a seis meses, no Empire State Building. Claro, acontece muito lailailai até esse momento, não posso dizer o quê para não lhe estragar o filme. Adiante. Por razões que não posso contar, Terry não vai ao encontro dele. Ela não vai, mas eu vou. Ter consigo, se vier ter comigo. Ao Empire State, não, porque depois disso já lá foi a Meg Ryan com o Tom Hanks, no Sleepless in Seatle - sim, gosto de comédias românticas, gosto de me rir e comer gelado a vê-las. E gosto do Natal. Das ruas iluminadas. Que quer, sofro de uma grande falta tédio e de afectação. Acho bonito, sou como os índios e os miúdos, não é segredo, já o disse: brilha, gosto, fico contente.
Resumido. Dia 21 de Dezembro de 2015, segunda-feira, já é a semana do Natal, Lisboa está linda – bem sei, agora com os jacarandás a florir, também. Gosto tanto dos jacarandás em flor, sou um público fácil para o show da natureza. Derivo. Marcou na agenda? 21.12.15 - encontrar o Amor. Onde? Na livraria. Na Pó dos Livros. À hora de almoço, aí pela uma tarde? Sou do tipo praticamente pontual. 
Um beijo da sua linda mulher,
EV

18 de maio de 2015

Alergia aos metais

Ups...


Dê o mundo as voltas que der, venha a nanotecnologia que vier para nos remendar, este é um facto da vida: não farei bodas de ouro nem que case com o raio do Amor - e já isto seria uma boda de per si: como se podem encontrar duas pessoas que não há meio de se acharem? Nem bodas de ouro nem de prata. Deve ser isto a famosa alergia aos metais.

12 de maio de 2015

Uma clara evidência


Os quinze anos do Manuel S. Fonseca esperavam levitar. Ri-me, claro, também porque nele me vi a mim e, numa casa que já não existe, uma estante com uma prateleira de mistérios.
Eu tinha treze anos e os mistérios eram livros sem dono nem proveniência. Tinham acostado ali, sabia-se lá quando e por que mão – foi lá que descobri o maravilhoso catálogo do barroco dos anos sessenta-setenta do século vinte. Fosse como fosse, esperavam alinhados que o proprietário regressasse a buscá-los.
Não é exactamente um segredo que tive uma esmerada deseducação: nunca me proibiram um livro ou filme, e sou grata por isso, principalmente porque a informação fora de horas é uma escola de imaginação: o mundo deixa-se moldar, é macio no pensamento.
Pois bem. Foi ali que cacei um extraordinário tratado do desconhecido. A Terceira Visão. E o autor? Nem mais nem menos do que a alma de um lama – o português é lixado -, transmigrada para o corpo de um canalizador inglês, auto-nomeado Lobsang Rampa. É preciso ver que isto se passou num tempo sem Richard Gere, antes do Dalai Lama ser uma figura da pop culture, quando o Tibete estava em silêncio nos media e a China, mao-mao-mao, vivia o rescaldo da Revolução Cultural.
Ó mundo novo: da geografia à política e com rotunda na religião! Uau, só prodígios: clarividências, levitações, yetis, reencarnações, viagens astrais, e eu muito quieta, à noite, direitinha como uma cadáver, na cama, à espera e nada do corpo astral levantar voo como um papagaio de papel preso ao corpo pelo seu cordão de prata, raios que o meu havia de ser de chumbo. Praticava à tarde, ao fim-de-semana, nem em posição de lótus, nada. Deslarga-te! Nada.
Ninguém se interessava pelas maravilhas, nem pela política da coisa... O meu avô tão pouco se dignava a indignar-se solidariamente comigo contra a invasão do Tibete, provocava-me:
- O avô gostava que os Espanhóis nos anexassem?
- Adorava!
Nem tinha qualquer compaixão pelos meus esforços científicos, um incompreensivo, ria-se perdidamente. Pior, fazia pouco de mim.
Uma manhã em que foi levar-me ao colégio quase me fez entrar pelo espelho do carro adentro. Seríssimo. Abismado. Arrependido.
- Não quis dizer nada antes para não preocupar a avó, mas parece-me que essa mancha vermelha entre as sobrancelhas, é um olho a formar-se: o terceiro olho.

5 de maio de 2015

Parabéns ao Cão! Viva o Cão!...

Bem sei, bem sei: todos os anos nesta data posto o mesmo post com o mesmo boneco. Fazer o quê? O Cão e eu somos os mes­mos…

Quem é o perfeito? O mais que perfeito, quem é? O ideal concreto é quem? As quatro substantivas patas, o cabeça de cão do tão balalão?! Quem? É o próprio do Cão!

1 de maio de 2015

É urgente?

SERVIÇO DE URGÊNCIA
Homem, coisa boa,
tu não achas que devíamos 
sair do pensamento,
palavras, leva-as o vento -
e hoje ele é morno e o dia quente…
Ó my sweet, porquê sair
de onde se está tão bem
e como nós ninguém?
Mas homem bom,
gostava tanto de ser um casal
daqueles que até vão ao hospital…
Angel, uma sala de espera
não tem poética!
Tem, pois, é músculo-esquelética,
eu de heroína romântica 
na ressonância magnética,
é bonito, ou tu, na radiografia
a espreitar o osso que assobia.
Darling, e um osso assobia?
Sim, quando passa uma frente fria.
E porquê o drama?
Porque a gente se ama!
E não seria melhor ficar na cama?
Só se for para morder a mesma
concreta maçã.
Amanhã?
Não, agora: eu sou lá mulher
de se jogar fora?!

Essa raça de gente

Não creio que o mundo queira os seus heróis, vitoriosos ou caídos, antes pelo contrário, faz gosto em esmagá-los e apenas não pode, não consegue mais que prová-los, porque o amor é maior do que a morte e essa gente, ó essa raça de gente, até nos ossos, até no ódio é mais amor e a vida inteira.