25 de abril de 2015

Laranjas

LARANJAS

Então, é isto:
estamos no fim de Abril,
do pomar colhido
sobraram as laranjas pelo chão
e cheiro doce da noite.
E há, sei que há, uma casa
onde moras sem mim -
tu, a quem nunca vi
e chamo-te Amor.
Há-de estar uma laranja na tua mão,
como esta na minha,
hás-de estar como eu,
na cozinha,
a descascá-la do teu jeito
enquanto eu do meu, infantil,
em espiral, não te partas,
a sorrir sozinha,
quero dizer,
para ti.

20 de abril de 2015

Dou-te a receita - e depois queixa-te...

Como-te! Mhmmm...


Sete menos vinte da manhã. O telemóvel toca desalmadamente. Que lata! Mas quem é o raio do anti-cristo que liga antes das sete da manhã?!
Eu:
- Estava a dormir, maluca!
A alucinada da minha irmã:
- Pois eu também queria dormir e ficar na cama a preguiçar até os miúdos me saltarem para cima! Mas como já não acordo durante a noite e durmo como uma pedra no fundo do mar, às seis e meia da manhã o corpo grita-me por exercício - é pior do que a voz da consciência! Por culpa da tua alimentação. E tu não vens correr comigo. Portanto, levanta-te bandida.
Eu:
- Mas o meu relógio interno só toca entre as sete meia e as oito menos dez... Roubaste-me uma hora de sono, deitei-me tarde, vou ficar com duas cabeças. Vai comer cereais carregadinhos de açúcar, torradas e leite, e não me chateies.
A alucinada da minha irmã:
- Agora já não consigo comer os cereais. Arruinaste-me os cereais, as torradas e o leite. Olha lá, que vais fazer de pequeno almoço?
Eu:
- Talvez panquecas de banana com mel e framboesas.
A alucinada da minha irmã:
- Dá-me lá a receita...

18 de abril de 2015

Esse palácio é meu

Em verdade, sei que tenho sorte. Sorte de Psique, portanto, do caos das mil sementes por separar, tarefa impossível, fez-se uma ordem enquanto dormia; do perigo só me ficou a lã de ouro; o voo, confio-o às águias, e a beleza está, sei, vejo, em toda a parte. E porque me apaixonei pelo amor, posso saber, e sei, entre as poucas e fundamentais certezas que tenho, que o amor se apaixonou por mim e só por isso estamos sós os dois. Hoje.
E por isso sei também que o meu lugar esta vida não tem. Não tem, eu faço em cada tarefa impossível para dizer em verdade, atravessei metade do céu só para poder voltar a casa. Uma casa é um ovo. Também de intersecções temporais sem qualquer anacronismo porque todos os dias são nossos e até o futuro dos imortais.
Que quer isto dizer?
Algumas pessoas nascem ensinadas, outras aprendem com facilidade, ou dificuldade. E esta vida é para elas. Isso é bom. Tem beleza.
São vidas como o trânsito, seguem uma lógica de código de estrada, de partida, de chegada, os sinais cuidam, facilitam, previnem, por aqui não, ali sim, e o resto é a potência do motor, a adequação à estrada, o piso, a competência. Há a beleza neste tráfego de sentido obrigatório desde a maternidade à cama de pedra, família, escola, amizade, reconstrução da família original, corações que explodem, e manhãs de absoluta pureza e mesmo a tristeza orbital. É belo. Mas não foi para mim.
De nada vale insistir com a vida nem ela insistir connosco. Há o Norte interno contra a lógica do mundo que aponta o que só os nossos olhos podem ver: há o palácio depois do abismo, só sabe quem lá viveu. Então.
A minha avó dizia, esta miúda parece que nasceu acabada. Acabada queria dizer feita. Com uma ideia e um sentido. Faltava-me o que falta à infância, claro, a experiência que nos oferece obstáculos e a forma de os incendiar e de ardermos, ou de os contornar, mesmo integrar na paisagem dentro, o combustível interno e esta fonte que somos nós. As tais tarefas, a sorte de Psique.
É preciso olhar bem o impossível, olhar com as mãos, os sentidos todos acordados, e provar a qualidade da água que corre escura no lado mais calado da alma e nem por isso morrer dos seus venenos e venerar a luz daquele trânsito a partir do abismo: esse palácio é meu.

14 de abril de 2015

No que não se vê

CREDO

Creio nos cães
e nas mentiras das crianças,
creio nas mães
e no amor feroz pelas crias
sejam filhos ou filhas,
portanto, de modo geral,
creio no mundo animal.
Creio nas coisas feitas
contra toda a razão,
e por isso só juro pela ficção.
Creio na paixão,
na pintura, na música,
no cinema, na poesia,
portanto, creio na alegria.
Creio no que não sei como.
Creio no sim sem saber porquê,
portanto, creio, acima de tudo,
no que não se vê.

13 de abril de 2015

O Valor da Liberdade


O Valor da Liberdade – diálogos sobre as possibilidades do humano -, da autoria de Joana Pontes e José Tavares, e realização também de Joana Pontes, é uma série de dez entrevistas a dez pensadores para uma reflexão sobre a liberdade e o desenvolvimento, usando estes dois conceitos como traços constantes para interpelar os entrevistados e os espectadores.
Comecei a ver O Valor da Liberdade - documentário ou entrevista - pouco depois de ter escrito este texto, numa noite de zapping. E logo no quarto programa, deparo-me com John Gray. Assisto, surpreendida, e acabo comentá-lo e a recomendá-lo. Tinha-me escapado e, no entanto, a Sic-n publicita-o. Creio que terá sido uma questão de preconceito: ao ver o cravo na apresentação, terei pensado que seria relativo ao 25 de Abril - não assisti àquele Jornal da Meia-Noite.
Na verdade, não é. Está na senda de uma outra série televisiva de entrevistas Of Beauty and Consolation, se bem que mais estreito na liberdade e mais cortado no desenvolvimento. O que quero dizer? Para além da estrutura ser menos fluída no que permite aos entrevistados, e menos intimista no que oferece ao espectador quando comparado com Of Beauty and Consolation, este é um trabalho que merecia outra edição. Uma edição mais larga no tempo de duração e, no caso de entrevista a John Gray, onde o pensamento fosse menos interrompido, cortado, colado – quando se percebe que foi, é porque foi. E é pena. Mas.
Em O Valor da Liberdade, são-nos oferecidas perspectivas de pensamento para além das nossas, podemos, portanto, actualizar o que somos, ou reforçar o que não somos, acrescentar ou não, mas o saldo é sempre positivo. Antes de iniciarmos um debate de ideias e declararmos as nossas intenções, o primeiro diálogo é interno, não é?, e a primeira decisão cai sobre o nosso dia a dia... E vivemos um tempo que também ele nos interpela, da literatura à política, e em questões fundamentais como esta: que comunidade, país, que Europa queremos ou podemos ser?
Porém, o que gostaria de dizer sobre esta série de programas, e só agora porque só agora os vi em número suficiente, é isto: a excelência inspira-nos e faz-nos aspirar à excelência possível a cada um de nós. Of Beauty and Consolation, penso, terá sido um forte referente, uma inspiração para O Valor da Liberdade que é uma forma de fazer televisão que redime a ausência de programas de informação e de autor onde tenhamos o gosto de nos sentar na assistência. Para além desta nota, só uma coisinha mais, a informação de qualidade permite-nos a sensatez. E o bom-senso está terrivelmente sub-valorizado e subalternizado pela demagogia e um rei vai nu de ego-originalidades. O Valor da Liberdade é, nesse sentido, uma raridade que não temo louvar.

12 de abril de 2015

Repete. Repito


Eu andava na segunda classe. E a piada era tola e vagamente irritante. Decerto também a fiz. Mas era uma piada parva. 

- Uma senhora tinha quatro filhos, ao primeiro deu o nome Repete, ao segundo Repite, ao terceiro Repote, e ao quarto Repute. Como se chamava o primeiro filho?
- Repete.
- Uma senhora tinha quatro filhos…

E assim se repetia.


E isto por estar aqui a pensar na intimidade/promiscuidade entre a linguagem e o comportamento. Logo eu que tanto gosto de repetições, o mesmo filme, o mesmo livro, o mesmíssimo exercício, pois tudo me sabe a novo e a nunca antes, desgosto ainda mais desta repetição de primeiro filho e ela é inevitável.
Não amamos só com os nossos actos, com este ou aquele gesto, olhar, decisão. Também amamos com palavras. E a maioria de nós, ainda que esteja a amar de fresco, ama já com bolor-amor. Não inventamos uma nova expressão amorosa se o amor, por acaso, nos reinventa. Ingratos é o que somos! Explico.
Uma pessoa habituada a dizer meu amor, meu querido, minha querida, dirá ao amor que se segue, senhor que se segue, senhora, meu amor, meu querido, minha querida e tudo lhe saberá a novo e a nunca antes. Porquê? Porque não sabe encontrar a novidade repetida no rosto da pessoa querida, quero dizer, sabe mas é a jantar requentado, restos de ontem. Fastio de quem esbanja vida, um bicho feito de tempo que oferece em cada dia uma vida tenrinha em folha para viver.
Por outro lado, esse meu amado que ficou para trás, ultrapassado, essa amada, querida, querido, ficará estraçalhado, não apenas com a sua efectiva substituição na equipa do para sempre, mas também, ó raios!, com o efeito retroactivo da actual condição – amorosa, claro. Explico outra vez.
O elevado grau de permutabilidade carno-linguística, dir-lhe-á sem hesitação, ai julgavas-te especial, um coração, pois olha, meu lindo, linda, e vê que não… como tu há mais cem, um de cada vez, serial lover e killer do psico-português de afecto-alcova.
O MEC disse, eu repito, repoto, reputo: o amor é fodido.

Tem peso e ocupa espaço

Não quero a ideia de café, a experiência do café, a sensação do café, o sabor a café. Quero uma bica!

Quando era pequena aprendi: matéria é tudo aquilo que tem peso e ocupa espaço.
Quero dizer, aquele foi o mundo em que cresci, tudo tinha peso e tudo ocupava espaço. Mesmo tudo. Não havia cá imaterialidades, sequer a filosofia, coisa para tomos de quilo. Os sentimentos também se viam. Eram pretos de luto ou pretos de festa, amor era aliança, casa, filhos; alegria era brinquedos, praia. Música era discos e cinema era enorme.
Tenho muita sorte: acho que escolhi bem a data do meu nascimento. Quantas gerações poderão dizer que assistiram ao fecho de um mundo e à abertura de outro? (Se calhar era mais bonito dizer ocaso e nascimento…)
O mundo foge-me e eu com ele fujo-me também e um dia desmaterializo-me de todo. Explico.
Como sempre peguei na caneta com força, tinha um calo enorme no dedo médio da mão direita. E como escrevia com tinta permanente, andava sempre pintada num lindo tom de azul tinteiro. Há anos que escrevo no teclado, no dedo só a memória de ter escrito à mão mais limpinha do que a de Pilatos. Escrevo numa folha de pixels. Se quiser tocar-lhe, coisas aparecem no écrã porque o diabo é sensível ao toque e salta-lhe um teclado, caixas de opções, enfim, mais escolhas do que num Starbucks, inutilidades para quem bebe um expresso forte, cremoso, curto, sem açúcar e sem franchising.
Quem diz isto diz o resto. Livros no tablet. Cadernos de endereços no telemóvel. Música é streaming e televisão é um conceito a caminhar nessa mesma direcção. As cirurgias fazem-se com os médicos a milhares de quilómetros do corpo do paciente.
Ainda temos casas. Já o amor não sei se existe, mas se existir tem peso e ocupa espaço.
Não é só o movimento das placas tectónicas que nos muda a geografia do pensamento.

10 de abril de 2015

Parabéns a você, G&P!

Parabéns, minha linda G&P!


A minha editora faz hoje anos e isso significa que estamos as duas de parabéns. Tenho sido feliz com ela, não só quando escrevo, mas quando leio. E se tenho lido... Sade, Sena e Sofia numa só alegria e tantas outras tive que não vou dizer. Mas uma editora antes de ser papel é gente. Valente. Porque uma editora pequenina e independente é um arame de equilibrista quando publica o que talvez não fosse publicado neste Portugal de hoje deprimido e empobrecido. Deixa-nos acreditar no mundo  de quando éramos pequenos e dizíamos com toda a certeza que quando crescêssemos íamos ser... escritores. Merci, Guerra e Paz, aos meninos e meninas, e ao nosso Editor que disse assim:

MENSAGEM DE MANUEL S. FONSECA, EDITOR DA GUERRA E PAZ
Mais ou menos por esta hora, há nove anos, no Auditório II da Fundação Gulbenkian, nasceu a Guerra e Paz. Nesse dia, com o lançamento de um novo livro de Agustina Bessa-Luis, outro com a correspondência de Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner, e dois pequenos livros com contos de Camilo e Eça, a Guerra e Paz editores surgiu com um propósito: o de ser preciso virar a página. 

São nove anos a virar páginas, com sucessos e insucessos, com alegrias e tristezas. Tem graça, não há nenhuma diferença entre a vida de uma editora e a vida de uma pessoa. E já nem sei se sou eu, se é esta casa editorial que se lembra de ver, nesse fim de tarde de Abril, no palco dessa sala da Gulbenkian, o João Bénard da Costa, a Maria Filomena Mónica, a Sílvia Alberto a apresentar, e um pianista, António Maria Cartaxo, filho do maestro António Cartaxo, ao piano, a acompanhar um sonho que nascia. Ou seria a embalar um bebé?

6 de abril de 2015

Determinismo e Liberdade

Fazemos as coisas por sermos quem somos. Mas também fazemos as coisas para sermos. E somos.

5 de abril de 2015

Então, é isto o amor?

Tazza Farnese
Estava aqui a fazer conjecturas sobre as nossas pequeninas mas terríveis hipocrisias. Na verdade, sobre uma delas. A teoria da independência e a prática da dependência. Não tem muito o que saber.
A família, na nossa cultura, tanto é a rede que protege quanto a malha que aperta, e isso não é bom nem mau, apenas nos fecha a um sentimento de comunidade e nos vincula à consanguinidade e às relações de proximidade social. Tem consequências, claro, o mérito vale pouco ao lado do sangue...
Porém a questão em que me entretinha nem era bem essa. Não directamente. Pensava em termos afectivos. Como é que nós, que vivemos com os nossos pais, fazemos um brevíssimo interregno dessa morada para logo construirmos uma família, ou seja, como é que nós, vivendo em permanente relação familiar, e próxima, temos a lata de falar dessa independência que não vivemos como um valor - não para nós, claro, que não somos cá malucos -, mas para os que estão de facto sós ou, imaturos!,  não querem estar pois foram, mais do que educados, alimentados do pensamento aos sentimentos e comportamento para ser família?
Como tantos portugueses cresci numa casa inter-geracional que é o mesmo que dizer, na casa dos meus avós, perto da casa dos meus bisavós e de todos os meus tios, os irmãos do meu avô. Durante aquela fracção de segundo em que vivi com o meu pai e a minha mãe, quando íamos para o Porto, era tudo igual, apenas com outros cenários e outros actores: todos os irmãos do meu pai, excepto ele, viviam na mesma cidade, portanto, perto uns dos outros e dos meus avós paternos.
A solidão cai-nos como um mau vestido barato e mal cortado.
Eu tenho sorte. Talvez porque casei cedo e me divorciei cedo, pude, depois, observar. Em câmara lenta. A observação muda-nos: cria um intervalo entre nós e a coisa observada. Aprende-se – não que isso sirva para muito, mas muda-nos, quero dizer, faz-nos completamente outros permanecendo os mesmos. E não voltei a partilhar uma casa desde essa juventude, ainda que tenha dito sim duas vezes, para dizer não antes de marcar a data dos dois novos casamentos que consegui evitar só porque a observação nos muda e quando observamos, vemos, e vemo-nos. Temos escolha. É uma liberdade. Perceber isto não é amor, esta não é a pessoa, esta não é a relação nem o futuro a despeito de quaisquer imagens erróneas de perfeito casal-família em cujo reflexo nos vejamos devolvidos, é uma grandíssima liberdade de ser.
Sei que não tenho a cultura nem o coração para ser só, ainda que goste da minha atípica independência. Há-de estar um muito específico amor à minha espera porque eu não quero outro, nem tão pouco a minha cabeça já se assusta e diz um sim que é não, Deus me livre. Mal comparado, há-de ser como a história do perfumador que só pôde acontecer porque cresci na velha casa dos meus avós onde coisas velhas abundavam, nada como os apartamentos da Base Alfa onde as minhas colegas viviam em actualizado convívio de elevadores partilhados e outros prodígios da intimidade com estranhos.
Em pequena, sempre gostei de quinquilharias rebrilhantes ou, na linguagem familiar, sempre tive gosto de sevilhana. Ora, um dia, entra-me pelos olhos adentro uma garrafa que estava no móvel de estimação da minha avó. A coisa era positivamente barroca, logo, era linda.
- Posso ter aquela garrafinha pequenina que está ali no seu armário?
- Qual garrafa nem meia garrafa, é um perfumador!
De facto, a garrafinha pequenina de porcelana branca, decorada à maneira da Tazza Farnese do Carracci, grinalda de frutos, maçãs, uvas, pêras gordas e Baco ao alto, as armas ao centro, e grinalda de rosas de esmalte sobre a monture do gargalo, era um idoso perfumador.
- Posso tê-lo para minha garrafinha?
Havia isto: a apropriação de leques, anéis, quinquilharias ou não, pérolas verdadeiras ou falsas, tanto me fazia, mas as coisas daquele armário não, nem abrir o armário sequer, ó criaturas intocadas, o minucioso açucareiro de cristal azul tão profundo, suspenso numa gradinha assente em quatro lindas patinhas cheias de ramicoques e que pesava, nem sei, muito, ideal para os meus chás, só lhe pequei uma vez durante a limpeza e mesmo assim, ai os meus ricos tímpanos, nem pensar, ouviu?!
Os adultos têm dias de grande mistério. A minha avó era não. Era não em regra. A minha avó era a própria regra. Mas levantou-se, rodou a chave na vitrine, e disse:
- Tome lá a sua garrafa. Eu, no seu lugar, não a partia.

2 de abril de 2015

Surpresa!

Páscoa ii
Ó...
O dia das mentiras já acabou e a minha querida amiga não conseguiu fazer tantas maldades quantas gostaria... ó. Ainda por cima estamos na quaresma económica e social há que anos! É só caras sérias, dramas, enfim, o diabo. E piora. Queria passar a Páscoazinha fora, fazer umas mini-férias ou, pelo menos, umas consoladoras compritas? Pois eu também. E nada. Nicles. Diante deste quadro de sexta-feira santa, o melhor é agir. Como? Explico tudo.
Há uma crise de emprego, não há? Seja generosa, empreendedora, crie emprego. De duas formas distintas.
1. Colabore com quem os tem para que os mantenha, criando necessidade de serviço.
2. Ofereça uma experiência aos seus amigos - sim, estas maldades, perdão, bondades surpresa, só as fazemos a gente de quem gostamos.
Que experiência? Bem, não há-de ser uma viagem de balão, uma prova de vinhos, nem um daqueles spas de barrar uma pessoa com lama. Muito melhor. A oportunidade de se vislumbrarem numa vida diferente. Talvez decidam mudar o rumo profissional. Ou lhes confirme a vocação. Ou lhes dê um coração grato. Vê que adequado ao calendário religioso e tudo?, também é uma experiência moral. Sou magnânima, eu...
Surpresa!
Surpresa!
Vamos à missão. À do ponto 1. Missão: Abaixo os despedimentos e quem os apoiar. 
Há pessoas que precisam de cumprir x visitas a clientes, ou criar um número x de contactos por mês. Quer que percam os empregos por causa da sua negligência? Veja lá se fica com insónias!

Bom. Contacte uma empresa de aspiradores daqueles que nos aspiram a carteira. Uma vendedora/demonstradora da Bimby, a Remax. Ou aqueles senhores dos aparelhos auditivos - também pode preencher o cupão de uma revista qualquer que encontre num consultório que esta malta dos ouvidos é expedita. Ou todos. Preencha com os dados do seu amigo/amiga. Seja discreta em caso de ser amiga, por exemplo, do Mário Soares, toda a gente sabe quem é e depois acabava-se a privacidade telefónica do nosso um dia presidente e esse não é o objectivo. Portanto se for amigo do Mário Soares que se chama Mário Alberto Nobre Lopes Soares, preencha os dados como M. Alberto Lopes. E não pense mais no assunto. Está nas mãos, sei lá, do universo, do destino, do que a minha amiga quiser. Fez uma boa acção e pronto. Alguém há-de tentar e tentar e tentar vender aspiradores, a casa, aparelhos auditivos, e a Bimby ao seu M. Alberto Lopes e isso significa que alguém está a trabalhar. Linda menina!

Vamos à Missão do ponto 2: Presente Surpresa.

O presente é a tal da experiência. Agora psico-afectiva ou lá o que é. Olhe, pode oferecê-la ao seu marido/namorado/híbrido, assim, se estiverem numa daquelas fases da relação de calmaria bem oleada que deixam os rapazes de nervos em franja à espera que a morte lhes morda os calcanhares, pode evitar uma desgraça e tem assunto para uma reviravoltazinha... Conto-lhe tudo. Vá ao McDonald´s. Não coma! Preencha um daqueles currículos flash: queres trabalhar connosco? É tudo em tu cá tu lá. Ora bem. Mantenha, para o nome, a mesma discrição. Falseie os dados - tenha paciência mas tem de ser, se tiver quinhentos mil anos a malta do McDonald´s não telefona para fritar batatas, escreva 22 anos e diga que está na faculdade. Experiência anterior? Não hesite. Um ano na Churrasqueira do Campo Grande, quem sabe assar frangos, sabe virar hamburguers na chapa. E saiu da churrasqueira porque, sendo estudante, aquele horário completo não lhe servia. E já está. Que linda surpresa. Quando o seu marido/namorado/híbrido, naquele dia de marasmo amoroso, lhe vier com a conversa mistério do McDonald´s, já sabe, pergunte-lhe que menuzinho é que ele quer, afinal, alguma fast food faz bem à saúde.
Este coelhinho vai para a panela...
Este coelhinho vai para a panela...

1 de abril de 2015

E tu?

Oh me! Oh life!
Walt Whitman
UMA CANDEIA COM NOME DE MULHER  E TU, LUZ
Aqui estamos, tão sós que temos de confiar
nos nossos próprios pés e assentar a alma
no pulso biorrítmico da natureza,
botão que trazemos off para incomunicar
o on elementar:
se a chuva cai on, a nossa solidão é a invencível
água, o avanço inexorável dessa parede de força
a escorrer rios cavados. E é as raízes desprendidas 
dos pinheiros levantados no leito de líquido assombro,
a nossa solidão em plena luz e
nem os insectos se escondem on.
Tu sabias disto, destes secretos vasos comunicantes,
regência das marés, plano, migrações,
do botão on/off da poesia, quando rua a fora,
industrial e alto, relevante num só verso
capaz de descarrilar a incredulidade dos olhos 
por mero exercício da verdade, 
ias sem fé, mas cheio de Graça,
mais grávido do que Maria,
mais desolado do que a sua desolação de mãe virgem,
com a alma assente na solidão umbilical onde a natureza começa
e, células tronco, nos indiferenciamos.