26 de novembro de 2014

Saber mais é fazer melhor, ser mais completamente, não é?

Uma virtude, talvez a maior virtude da pequenez, da mesquinharia, nossa ou de outrem, é a de nos confrontar com a grandeza - o céu estrelado. Fazer o quê com aquilo que em nós é menor senão acomodá-lo no que em nós é de maior?

25 de novembro de 2014

Poema dos quarenta e seis anos

POEMA DOS QUARENTA E SEIS ANOS
Não é cedo para esta contabilidade
é a estação certa
e o dia
Algum dia tinha de ser
um destes dias
foi hoje: vi
a contagem decrescente
e a balança das almas
luminosa 
como são todas
as esperas do que sempre chegará
Pois bem:
em fevereiro publiquei um conto
um fôlego uma só expiração
estava acabado dentro e veio a página
encontrou-o - teve sorte impressa
e em novembro saiu-me um livro
de outro poeta onde fui feliz
desde antes do primeiro verso
Não tenho mais nada para mostrar
dos quarenta e seis anos
O resto não se vê são folhas inéditas
cadernos de poemas com listas de mercearia 
 e mantras: aham brahmasmi azeitonas
alcaparras comprimidos do cão
duas vezes sublinhados
notas avulso da física que jamais serei
e considerações sobre os tormentos do tempo 
torniquete apertado em dúvidas clássicas
campos e cordas transcendentais por ignorância
 – não tenho matemática só ganhei o alfabeto é a vida
E o outro resto 
o romance que interrompi para não escrever
com o meu próprio punho sobre o punho
do Verbo:
não foi na catequese que aprendi a ser mariana
foi nas linhas
o esforço fura o papel
a caligrafia é grosseira e a erudição não presta
se não for pão ensopado de lágrimas
quente de sexo estaladiço de riso
palavra pão e o mais que se foda
e foi no amor
fazer espaço ser o espaço dar espaço
ao que tu queres ser
tu é Vida
É só isto Não há mais:
o meu quadragésimo sexto ano 
cabe em poucos caracteres

23 de novembro de 2014

20 de novembro de 2014

Matilde-Metáfora Nome de vaca

MATILDE-METÁFORA NOME DE VACA
Um dia fartei-me da ditadura do encarnado,
do constrangimento do ´tou supé-assim
e fiquei supé-assado e de todo
o super de érre cortado e por junto corei
do tão querida! e do obrigadah - senti-me
tão embaraçada que fiquei encarnada, perdão,
vermelha acidulina groselha menina.
Foi no mesmo dia em que desliguei o tefone,
por falta de éle, não de bateria – e lá em casa
já só toca a te-le-fo-nia, ouviu, tia?
Um dia queimei a minha agenda e o futuro
pré-cozinhado e com ele ardeu todo o passado, e
se era mais que datado: touros, jaquetas, curros
forcados, cavalos e fados, os não sei quantos
de vez em quando matam-se, os dali jogam,
aqueles levantam-se sempre, ora isso é
uma boa raça de gente. Raça mas é de gentes,
é filho de quem?, deixe ver os dentes. Porém
quanto a forcados e touradas, praça de pé, e
quanto a fado, silêncio se se vai cantar.
E de quando em vez, não se pode evitar,
há quanto tempo, tenho montes, montes! de coisas
para te contar: este é o martim, o bernardo, a luisinha,
a matilde.
Matilde é nome de vaca - cacete.


17 de novembro de 2014

Amor&Café

AMOR&CAFÉ

Hoje é dia 17 de Novembro, segunda.

O café está ralo, sabe mal ao fim, ali entre o amargo e o ácido. A máquina perde água e faz um ruído estranho. Cansaço, talvez, de uma curta vida a tirar café. Os electrodomésticos já não são feitos para durar nem para serem arranjados quando se avariam.

Quando era pequena, pensava que isso de frigoríficos perfeitamente bons jogados na rua era um vício americano do comportamento. Uma desconsideração que se reflectia ali de patas para o ar e grelhas ao léu. Agora somos todos americanos. A máquina de café também deve ir para o cemitério perfeitamente boa, há-de ser uma borrachinha ou outra coisa menor.

A questão nem é a do expresso cheio de creme. Também gosto muito do café de cafeteira e o cheiro a espalhar-se pela casa e eu feita cartoon levada pelo nariz. Feliz. (Há uma coisa risonha no i e mais ainda no iz, tão risonha que até uso parêntesis e disso não gosto nem um bocadinho: sis não é iz.)

Na verdade, o mundo não está para café. Está para cápsulas. Não sou alma para encapsular café e estou um bocadinho de farta de dar com o George Clooney por tudo quanto é lado, da Nespresso aos relógios Omega. A culpa não é dele nem dos senhores da publicidade: nunca tive interesse por actores, cantores ou quaisquer animais de palco. Nem na adolescência quando se fazia um-do-li-tá a sortear Duran Duran como cromos: ficava sempre livre de quem está livre, livre está. Que alívio.

A minha avó dizia que andava ao engano. Eu, não ela. Porque afirmava a pés juntos que queria casar. Pensava, sempre pensei, que o casamento me assentava bem porque sou mansa, tenho o prazer da casa e da fidelidade. A minha avó dizia que o casamento era outra coisa, que eu amava o amor e a liberdade. Fui casada. Detestei. Divorciei-me. Um divórcio é outra violência igualmente detestável. Apesar das generalizações não me agradarem por aí além, os homens olham para as mulheres como eu olho para esta máquina de café. Não quero isso para mim. Nunca quis. Graças a Deus, quando me aconteceu, correu mal. Fiquei livre mesmo às portas do inferno. Doutra forma acho que quem estaria no cemitério perfeitamente bem seria eu.


Uma vez ouvi a Paula Rego a falar do marido. De como ela o admirava. E ele a ela. E de como cortava muito bem cortadinhas para as suas colagens tiras de ódio e de ciúme. Ninguém a interrompia quando ela se fechava a pintar. Para que serve o amor se não for para nos ajudar a ser? O resto dele é alegria. E mesmo tiras fininhas de ódio e ciúme. Cama. O amor não se fecha em cápsulas, nem se joga fora. É feliz mesmo quando lhe falta o iz: quando se lê fel é só porque precisa de arranjo.

15 de novembro de 2014

Um quintal lá no fundo: não posso reclamar

novo dia lailailai
é o bonde do dom que me leva
os anjos que me carregam
os automóveis que me cercam
os santos que me projectam
nas asas do bem desse mundo
lailaillailai

12 de novembro de 2014

Livre

LIVRE
É preciso ir com paixão àquilo que se deseja. E com igual desprendimento. Ou assim, ou escravos. Porque os resultados imediatos do nosso investimento estão nas mãos do mundo é fácil esquecer que o mundo está nas nossas mãos.

Os filhos de Deus

Fotografias de Maria João Cabrita. Textos de Eugénia de Vasconcellos. FOTOS GRAFIAS AQUI

OS FILHOS DE DEUS

Chegados aqui, podemos acreditar: mais do que um plano seguido ou desconseguido a vida é, antes de tudo o resto, um acto de criação. Talvez seja essa a Palavra que lemos no Livro de Génesis e os nossos ouvidos não ouvem: Façamos o homem à nossa imagem e conforme à nossa natureza.

11 de novembro de 2014

De pequenino se torce o pepino. Ó.



DE PEQUENINO SE TORCE O PEPINO. Ó.


A infância não é fácil.

Hoje, no colégio, celebrou-se o dia de São Martinho a quem o meu sobrinho chamou São Magusto, um senhor que trocou a capa pelo sol. 



Para além disto, a celebração de Remembrance Day, coisa que também não correu grande espingarda, salvo seja, porque o mesmo meu sobrinho disse que era o dia da Guerra das Poppies, Revolução dos Cravos dos soldados ingleses que tinham morrido todos quando foram apanhar papoilas e dia de pensar nos mortos, e se era Día de Muertos – assim, em espanhol e tudo. 



Porque isto é pouco, ainda teve teste de mandarim. Pior, foi o primeiro teste feito no pc, não separou as palavras, e zás, 53%.



Enfim, nem tudo foi mau. Descobriu a medida, ou será a capacidade?, do seu próprio estômago. Tinha pedido à mãe, literalmente, “três mil” castanhas para levar para o magusto porque decerto as comeria todas – adora castanhas. A mãe deu-lhe um saco com meio quilo bem pesado. Quando chegou a casa informou que tinha comido duas deliciosas castanhas inteiras, o tamanho “exacto e preciso” do seu estômago pois não lhe caberia mais nada, nadinha mesmo.


O outro meu sobrinho? Caracolinhos a Fada e estou mesmo encantada? Esse ficou de castigo logo à chegada. Tinham de fazer dois minutos de silêncio, lailailai, a Guerra das Poppies. Não fez o silêncio? Não fizei, fizei talim talão, badalo, sino!


Escrever

ESCREVER
- poema ao labirinto -

Hoje entrei no labirinto de Borges:
troquei o medo de me perder
pelo desejo de encontrar o livro
que estou a escrever: como poderia
fazê-lo se o texto e todas as suas variações
não estivessem perfeitamente indexadas
e acessíveis no centro da estante?, ali
mesmo, no meu plexo solar,
onde o mar se expande e a espuma me
toca os passos e humedece os tacos
do corredor da biblioteca.

10 de novembro de 2014

Meus filhos, o Natal está feito...


Bollywood de trazer por casa


BOLLYWOOD, BABY
Não é exactamente um segredo bem guardado que, quando era pequenina, adorava musicais. Não queria apenas ser Cyd Charisse a dançar no jardim com Fred Astaire, ou soviética e de gola alta numa estética que jamais me passou de moda cheia do vigor e humor dos Red Blues, e a minha avó imperativa páre! vendaval... Nem queria ser apenas a Eliza Doolittle a ameaçar o seu rico Henry Higgins, just you wait, ou a Leslie Caron nas minhas primeiras pontas chegadinhas por correio de Londres para sonhar melhor com Um Americano em Paris. Não.
Ia ver filmes indianos. Todos. Eram para Maiores de 6 porque não havia beijos nem gente nua. Não se beijava em Bollywood ainda que, de repente, aparecessem bebés. Na verdade eram muito exemplares e conformes à catequese aqueles filmes. Havia de passar-se tudo a toque de Espírito Santo. E eram mesmo muito shakesperianos, inimizades familiares, castas, vinganças, amantes contrariados a morrer de amor. Até porque já tinha lido Shakespeare em banda desenhada, percebia a potes de Shakespeare. O grande problema não era o guião apesar de a minha avó dizer ao meu avô antes de ele me ir deixar à porta do cinema ao lado de casa: tudo o que essa miúda precisa é de argumentos. O grande problema eram os argumentos não escritos: a overdose colorida, rebrilhante, enfeitada, adornada de jóias dos pés à cabeça e, enfim, a vida dançada a tempo inteiro.
Que posso dizer em minha defesa? Nada. A minha avó estava certa.
Já não vejo filmes indianos. Mas a dança, Bollywood, é agora um género que pegou de moda para minha grande sorte. E aquela linguagem corporal decomposta em sílabas até eu a aprendo tantos anos depois.
Há quem caminhe em direcção à velhice, e há quem ande sobre a linha da infância. Que posso dizer em minha defesa? Gosto de dançar. Não se consegue ser triste enquanto se dança e tenho o vício da alegria.
Resumindo: ando nisto, na escola outra vez, mas as professoras são Janani Chalaka de Bombay Jam e Madhuri Dixit, super-estrela de cinema.
Se não tiver paciência passe logo para os 03:25

Este é um belo canal para subscrever, o da menina Madhuri. 

8 de novembro de 2014

Toda a Gória brilha

TODA A GLÓRIA BRILHA
Todos os dias são dia de Corpus Christi.
Todos os dias a poesia alinha no verso de um a voz de todos
e isso é só outro nome para a Unidade e a Eucaristia.
E a vida corre no poema,
carne e sangue transubstanciados em alfabetos
onde estamos tu e eu e ele
nestes pequenos actos de devoção onde 
toda a Glória brilha:
há um homem fechado no trânsito de regresso a casa,
uma mulher passa o batôn nos lábios
enquanto o empregado do café lhe serve
o milagre da bica curta ou cheia.
Não é a Vida do mundo o que se dá ao mundo?,
não é a sua Carne o nosso alimento?
Descemos do céu, 
a raiz umbilical ainda de pó de estrelas,
para sermos a Hóstia, cordeiro imolado,
e Deus que recebe o sacrifício.
Amén.