30 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: Um jantar em Nova Iorque, por Manuel S. Fonseca


A capa da New Yor­ker leva-nos a jan­tar a Nova Ior­que. Janta a Eugé­nia de Vas­con­cel­los e janto eu. Como é que janta cada um de nós? E como é que jan­ta­ria o paci­ente e esfo­me­ado leitor?
UM JANTAR EM NOVA IORQUE
Hoje ia jan­tar a Nova Ior­que. É Outono e em Manhat­tan quais­quer 12 graus cen­tí­gra­dos sabem a 16 ou 17. Podía­mos ser três ou qua­tro, para a con­versa ir de car­ri­nho. A espla­nada do Aqua­grill, na Spring, é uma delí­cia, e se nos desse um arre­pio, mudá­va­mos de mesa, lá para den­tro. As ostras saem de gelo e mar e se man­dás­se­mos vir cham­pagne, o pro­mís­cuo cham­pagne não se impor­ta­ria nada com um petit ménage de lín­gua e ostra. Isto na sala, por­que depois e por­que hoje se marisca, para cami­nha, o estô­mago pede viei­ras, as gril­led scal­lops, a bivalve carne sólida, super­fí­cie ace­ti­nada, que se entre­gam, insi­nu­an­tes, a uma boa aber­tura de lábios e den­tada firme. É por isso que todo o cora­ção que sai do Aqua­grill é um cora­ção apaixonado.
São agora nove da noite e teria almo­çado antes, por volta das treze, no infer­nal Gol­den Uni­corn, enfi­ado num pré­dio assus­ta­dor de uma esquina de Chi­na­town. É o paraíso can­to­nês do dim­sumDum­plings de cobre, cre­pes de veludo, a insa­ci­ada boca (perdoem-me o abuso lexi­cal) a goludicear-se na espes­sura de tanto frito – nada é tão frito como o abso­lu­ta­mente frito da cozi­nha des­tes chi­ne­ses. As salas do Gol­den Uni­corn são deca­den­tes salas de baile pro­te­gi­das por uns imen­sos e ron­ro­nan­tes dra­gões de ama­re­lís­simo ouro. Têm olhos semi­cer­ra­dos e satis­fei­tos, uma pre­gui­çosa lín­gua em fogo, uma bar­riga lacada a bar­be­cue e fresquís­si­mos fres­cos do mer­cado. Fazem-se novas ami­za­des no Gol­den Unicorn.
Antes do Aqua­grill, pelas sete e meia da tarde de Manhat­tan, havia de pas­sar pela Bro­adway. Volta-se ali, à W 44 St, encos­tada a bai­la­ri­nas, bai­la­ri­nos e acto­res, como quem volta à escola pri­má­ria. Ou como quem volta a abra­çar o Pedro Ban­deira Freire, tão len­dá­rio fre­quen­ta­dor quão len­dá­rio é este Sardi’s, fun­dado em 1921 e onde se bebe o mais vibrante dry-martini, um dry-martini que irrompe como um tigre e nos faz de todo o apa­re­lho diges­tivo a mais ampla e lumi­nosa auto-estrada. Bebe-se ao bal­cão do velho bar, o mais des­pre­ten­si­oso e dinos­sáu­rico bar de Nova Ior­que. Cheira tanto à casa dos nos­sos avós que só se levam ao Sardi’s os mais anti­gos e incon­di­ci­o­nais amigos.

Visão, tenha duas: A minha rica salada de agrião

Vejo a capa. É sobre cerveja – de qualidade a despeito da informalidade. Mas não bebo cerveja. Pior, não percebo nada de cerveja. Então, sobra-me o resto.
Hip Hops Peter de Sève
A capa da New Yor­ker leva-nos a jan­tar a Nova Ior­que. Janta o Manuel S. Fonseca e janto eu. Como é que janta cada um de nós? E como é que jan­ta­ria o paci­ente e esfo­me­ado leitor?

A MINHA RICA SALADA DE AGRIÃO
Gosto muito de comer. Tenho o prazer da mesa. Não queria ter: preferia ser zen ou sofrer de fastio, mas gosto muito de comer, de cozinhar, de ir à praça, espreitar as bancas de peixe, dos legumes, da fruta, dos queijos, dos enchidos, do pão, bisbilhotar as especiarias e ervas frescas e secas, enfim, tudo, e de me enfiar em mercados locais marcados pelas estações do ano. É uma alegria para os sentidos, na hora e também por antecipação do trato que vou dar ao que compro e do bem que vai saber depois. Não cozinho mal.
Porém não cozinho de modas, não como de modas, olhe, não vou de modas.
Há coisas que me horrorizam, claro. Com que direito se desgraça um patinho, praticamente o Duffy Duck, enfardando a bicheza à bruta goela abaixo para nos deliciarmos com o belo pâtézinho com compota de framboesa e uma rica colheita tardia? Foie gras é fígado gordo. Fígado gordo, selvagens! O triste do pato tem o colesterol pelo telhado e nós nem um Crestor de solidariedade. Horroriza-me e como-o de gosto porque enquanto como não penso na animalidade em si ou o animal seria moi. Marcha o foie gras e o próprio do patinho marcha também, confitado, caramelizado, ou à Pequim: quá-quá sua má.
Tanto, ó tanto, que queria ser, vá, civilizada, mas sou bárbara a ponto de já ter feito com estas mãozinhas que outras bichezas hão-de comer, o belo do supra e super citado foie gras. É para que saibam do que sou capaz. Eu e o crocodilo que chora a presa, tudo farinha do mesmo saco. Só me dou desgostos.
Lá em casa também não se ia de modas. A minha avó tinha mão de ferro: refrigerantes nicles. Comida de pacote, umas simples batatinhas fritas Pala-Pala, nicles. Bolos, bolachinhas, biscoitos, só caseiros e ao fim de semana. A menos que fosse compota. Sopa todos os dias. Salada todos os dias. Na altura em que se ouvia dizer ai o peixe azul faz mal, a minha avó, esta gente não pensa. Era isso e o protector solar nos anos em andava tudo armado de bronzeador no coltre dos bikinis. Esta gente não pensa, basta ver a quantidade de rugas e manchas na pele de quem trabalha ao sol, se há envelhecimento precoce por fora tem de haver dano por dentro. Óleo? Vai tu, só azeite. Batata doce, sim, branca pouco, feijão está bem. Carne? Não se podia, ao que parece, confiar nas racções. Ainda não pode. Cereais ao pequeno almoço e de base? Isso é comida de engorda. Esta pirâmide alimentar é uma idiotice. E era. Os resultados dessa aventura dos anos setenta estão bem à vista.
Portanto, adorava as festas de aniversário das minhas amigas: regalava-me em Boca Doce é bom é bom é, diz o avô e diz o bebé, em cor-de-rosa do sofá da saleta lá de casa, Tang, impuríssimas laranjeiras em pó, sandes de pão de forma daquele mole que se cola ao céu da boca, pudim do chinês muito leve e bamboleante, Tulicreme. Ai queijo de bola, que delícia. E mousse de chocolate de pacote. Alsa. Batatas fritas. O resto nem me interessava. Perguntava de tudo: e este belo pudim? Levava as preciosas informações recolhidas e a Ingratidão respondia ignorando-me: esta miúda só gosta do que não presta.
Depois de crescida vinguei-me. Era aniversário das minhas amigas quando queria e me apetecia. Comia porcarias, Donettes e batatas fritas de pacote salgadas e avinagradas. Deve-me ter dado uma veneta, auto-limitada graças a Deus, pois se fumei de gosto uma fartura maços de cigarros, eu que só gosto do cheiro dos charutos e das cigarrilhas... não podia estar de pleno juízo. Todavia, a verdade, é que não tinha saúde para aquilo. Nem feitio. Era uma impossibilidade.
A minha mãe diz que sou a princesa da ervilha – aquela que sentiu a ervilha debaixo de sete colchões e por isso passou mal a noite. É feio ser-se assim. Sou. Com a comida também. Se é congelado, sei. Se não é fresco também. Se é uma daquelas merdas para impressionar o indígena tipo gema de ovo de codorniz coroada de espuma de pêras rocha com jalapeños, come tu.
O facto é que os meus defeitos excedem largamente as minhas qualidades. E para quem gosta de comer isso é uma sorte do caneco. É preciso ser exigente e fazer uma alimentação saudável, em regra, para termos o bom prazer das excepções. Ou como diz a minha irmã quando quer que eu afine: vou fazer uma salada de agrião colhido em noite de quarto crescente, às três e meia em ponto, com azeitonas à provençal que eu mesma temperei, e queijo feta das ovelhas do tio Hippolytos, e no Natal logo como filhós em calda.

29 de outubro de 2014

Deslarga a fruta, pá!


Senhores doutores da fruta encerada e polida,
se me apetecesse cera polida, lambia chão não comprava laranjas, maçãs, limões... E que é lá isso de fruta gigantone, sem sementes, de longa duração e o diabo a quatro? ´Tá tudo maluco?! As aparências também funcionam ao contrário: por fora bela viola, por dentro pão bolorento. Resumido: se lhe deram cera, puxaram brilho, se a aditivaram, pigmentaram e saberá Deus o que mais, então comam-na, suas bruxas envenenadoras da Branca de Neve...

26 de outubro de 2014

Vamos dançar, beleza?

Estava a ver as notícias na Sic-n. Em rodapé: cumbia no B.Leza. O que gosto de dançar uma cumbia... Fui logo espreitar o site. É La Yegros. Amanhã.



Nunca estive no B.Leza. E também não vou estar. Ó. Que pena. Ao menos sirva o desgosto para limpar o mau karma!


24 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: Haiku de atraso


O Manuel S. Fonseca e eu vamos todas as semanas a Nova Iorque. Desta vez perdi o avião, e deixei-o a sós com o Congresso. Ó. O Manuel S. Fonseca discursou. E bem. Eu não: deixo um post it com um haiku de atraso.



POST-IT
Azarucho técnico
Ou preguicite aguda?
Uma só Visão…

Visão, tenha duas: Os meus palhaços, por Manuel S. Fonseca


A Eugénia de Vasconcellos e eu vamos todas as semanas a Nova Iorque. Desta vez fomos ao Congresso. Discursámos: my way, her way. Discurse agora, também.

OS MEUS PALHAÇOS
Uns palhaços, todos! É tão fácil, hoje, despejar os políticos pelo cano do esgoto. Palhaços, arlequins, jokers, encantadores de serpentes. Mark Ulkriksen, o autor desta ilustração que faz a capa da New Yorker, foi buscar tudo isso e um par de botas. Confesso, não consigo calçar esse par de botas.
E se tiver de confessar, confesso também: quis ser tudo na vida. Experimentem ouvir-me cantar. Pode ser a experiência das vossas vidas. Um trauma indelével. E mesmo assim cheguei a sonhar que, depois de vir a Portugal fazer a universidade – digressão que imaginei como um regabofe boémio – voltaria à minha cálida colónia como cantor de banda rock. E isto era eu, que tenho um ouvido de Van Gogh para a música, uma voz que faz as formigas desatarem a fugir de um açucareiro – isto era eu a querer ser cantor. Quis ser o Lord Jim, o dr. Jivago (e comprei uma camisa igual), quis ser estrela de futebol (os meus penalties, os meus pontapés de bicicleta!). A minha professora primária queria até que eu fosse o Papa, um Jorge Bergoglio avant la lettre.
Quis ser tudo isso, só há uma coisa que nunca quis ser. Mesmo nos meus tempos de punhinho no ar, um pé no primeiro degrau de catolicismo progressista, e logo a seguir a espalhar-me pela breve escadaria do maoismo cambodjo-parisiense, se quis as incendiadas manifs de Luanda e Lobito, o poder popular, a famosa e digna dipanda, nunca quis ser “um político”.
Quis escrever, quis a rádio, o cinema, a televisão, quis ser essa coisa tão imaginariamente prosaica que é ser-se executivo, por achar que só assim se “faziam coisas” – a ilusão que ainda hoje tenho de que fazer coisas é das poucas "coragens" da vida. Mas não quis e não quero ser político.
E todavia lembro-me. Aos 10 anos, estava numa aula do 1º F, a minha primeira turma do Liceu Salvador Correia, quando soube que tinham assassinado John F. Kennedy com uma bala na cabeça. Uma pequenina e inocente comoção tocou os 20 e tal miúdos que nós eramos. JFK já era um homem terrivelmente adulto aos nossos olhos meninos. Mas havia nele uma magia que o impedia de ser o velho que, para nós, necessariamente seria qualquer pessoa com a idade dele. JFK tinha uma ambígua juventude: vinha-lhe do físico, que o fazia parecer um júnior do Benfica de Luanda; vinha da francesa elegante, quase yé-yé, quase Sylvie Vartan, que era a namorada dele. E vinha, sobretudo, das ideias que eram o único chapéu dele, num tempo que odiava chapéus. Nas ideias de JFK havia laivos do “Sgt. Pepper’s” que ainda estava para vir vir. Ou do “I can’t get no satisfaction” que JFK nunca ouviu cantar.
Ao contrário do que, queixinhas e duvidosamente, cantaram os Pink Floyd, precisamos de educação e de professores que não deixem os kids alone, precisamos de ciência e de tecnologia, precisamos de crenças e valores, mas para termos mesmo um mundo novo – um mundo aleixo, um mundo novo a sério – precisamos de políticos, precisamos do sangue, suor e lágrimas dos Churchill, precisamos dos sonhos dos Luther King, precisamos, de vez em quando, que um tipo de fatinho, quase um puto, católico e adúltero, se ponha em bicos de pés e grite por cima de qualquer muro, “Ich bin ein Berliner”.
Hoje, não há ninguém que os compre. Palhaços, são todos uns palhaços. Pode ser que sim, que muitos indignados, tantos amigos meus, uma cambada de alegre e vistoso feicebuque, tenham as suas razões para se queixar e ressentir. Mas por tudo o que vi e passei, a única coisa que vou continuar a jurar a mim mesmo é que sem palhaços não há democracia. Por mais exangue que a peregrina democracia pareça estar, por mais enrugada que esteja a sua triste e lamentável face.

16 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: A mulher que ama os livros , por Manuel S. Fonseca


Cos­tu­má­va­mos fazer isto com a “Visão”, mas as ilus­tra­ções da “New Yor­ker” são tão boni­tas que não resis­ti­mos. A mesma capa, duas visões. A da Eugénia de Vasconcellos e a minha. Gos­tem das duas e tenham a vossa.

A MULHER QUE AMA OS LIVROS

Estava a olhar para esta ilustração de macio Outono, que Tom Gauld fez para a New Yorker desta semana, e as primeiras imagens que zuniram, céleres, no rendilhado musseque que é a minha cabeça, foram as imagens das minhas bibliotecas de Luanda. Tinha livros em casa dos meus pais, mas eram pouco mais do que uma simpática estante e houve três bibliotecas – a do Liceu Salvador Correia, primeiro, a da Câmara Municipal junto à Mutamba, a seguir, e mais tarde a Biblioteca Nacional de Angola, no edifício que era a Secretaria do governo-geral para a educação –, que fizeram as minhas delícias sentimentais e abriram, como tenazes, os meus horizontes literários.
Na Biblioteca do Liceu li “O Crime do Padre Amaro”, ligeiramente antes do tempo, os olhos a distraírem-se com a Amélinha e os joelhos à procura dos joelhos de uma colega que tinha pernas bem mais altas do que as minhas. Na Biblioteca da Câmara li “As Vinhas da Ira”, na altura de uma juvenilíssima paixão pelo “A Leste do Paraíso”, que comprei num delirante esforço de poupança avant Vitor Gaspar. Na Biblioteca Nacional de Angola, como já aqui contei, foi onde fiquei a saber que a ditadura acabava de fechar o livro e que havia um livro por abrir, novo em folha, em cima da mesa.
Mas voltando a olhar para a biblioteca de Tom Gauld, percebi que era uma biblioteca diferente, muito diferente das minhas. Miraculosamente suspensa sobre Nova Iorque, pilhas de livros organizados em linhas de uma elegância descontraída, esta é a biblioteca de uma mulher. A mulher tem vestido o mesmo Outono que cai, folha a folha, das árvores e lê. Há, na mulher que lê, uma mística que o homem que lê, hoje, jamais alcançará.
O livro até pode ser uma criação masculina, uma benigna e maravilhosa criação masculina. Foi, diga-se, do tijolo à impressão guttenberguiana, uma criação de conhecimento e poder. Nem sempre, como os correctíssimos e admiráveis sociólogos dirão, a mulher pode aceder ao livro, marca de poder masculino. Mas, de uma forma persistente, subtil, a mulher foi-se chegando e foi-se roçando pelas capas douradas, ou de marfim, que encerravam manuscritos e iluminuras. Alguém que conte essa gloriosa história que eu não tenho tempo: bref, o que interessa é que mulher começou a ler.
A mulher, a meu ver, não começou a ler para conquistar poder, muito embora a leitura lhe tenha concedido mais seguro poder do que o poder que se diz que a cama lhe conferiu. A mulher começou a ler por aventura e por encantamento. E o livro, agradecido, colou-se à mulher, de tal forma que o amor entre a mulher e o livro, de tão intenso, criou novos géneros literários. O desejo erótico saiu da alcova e veio deitar-se, ducal e principesco, carnal e adúltero, na poesia provençal ou nas nossas cantigas de amigo e de amor. Daí ao romance foi uma vírgula.
As mãos da mulher que lê, os olhos da mulher que lê, criaram a literatura. Tanto faz que seja um homem como uma mulher a escrever: escreve-se para que uma mulher leia. Há dias, Ian Mc Ewan foi com o filho oferecer livros dele às pessoas que se refastelavam à hora de almoço nos parques londrinos. Em dez minutos, trinta pessoas tinham aceitado os oferecidos livros. Trinta mulheres (forço um bocadinho, talvez tenham sido 29).  Ian McEwan arriscou um vaticínio: “Se as mulheres deixarem de ler, estamos fritos.”
O que faz a literatura, essa zona utópica de prazer e impoder, são as mulheres que lêem. O homem que lê, com raras excepções, é um homem cansado, que lê utilitariamente. Só a mulher lê o livro pela sua magnífica e sublime inutilidade, a mesma inutilidade e deleite que se empresta e se recebe do amor. A mulher não lê um livro, a mulher lê um corpo. Sempre que vejo a mulher que lê, cheira-me. E cheira a prazer. Poucas coisas há tão aromaticamente indecentes como a mulher que lê.

Visão, tenha duas: Em pratos limpos


Cos­tu­má­va­mos fazer isto com a “Visão”, mas as ilus­tra­ções da “New Yor­ker” são tão boni­tas que não resis­ti­mos. A mesma capa, duas visões. A do Manuel S. Fonseca e a minha. Gos­tem das duas e tenham a vossa.
EM PRATOS LIMPOS
De entre todas as pessoas que conheço ao perto e ao longe sempre fui aquela que poderia jurar não aparecer na capa de uma revista. Pela simples razão de que as pessoas como eu não aparecem: desaparecem. No meio dos livros. Explico.
A coisa passava-se assim. Quando era muito pequenina e pré-escolar, tudo era um belíssimo folhetim. A quantidade de prodígios dignos de relato que se sucediam diante dos meus olhos, diariamente, era superior ao número de folhas da nespereira do exacto verde-escuro do vestido de veludo com que gastava o espelho. Ora, se eram dignos de relato, relatava-os. Interpretativamente num sem fim de uma coisa leva a outra. Aquilo tinha um grandessíssimo valor para mim.
Aquilo poderia ser: a Liana pendurava o rádio dela na bola de ferro ao fim da guarda das escadas enquanto, com a enceradeira eléctrica, uma bicheza cheia de escovas em movimento por baixo de uma carapaça, estava a puxar brilho ao chão – este bandido divertia-se: de vez em quando um adulto derrapava sem querer onde eu escorregava de propósito. O ruído da máquina era abafado pela canção que, dependurada da tira de plástico da pequena telefonia, caía a pique dos buraquinhos da coluna afora para entrar Liana adentro via os pêlos das escovas, subindo pelo motor e avançando por ali acima até ao manípulo que as duas mãos dela seguravam; amaranhava então pelos braços até aos ouvidos, fazia um rodopio na cabeça e finalmente saía-lhe pela boca. Altíssima. Forte. Adulterada. Já não era uma canção. Era uma possessão sem exorcismo. E ela uma figura temível: quando se é pequeno, tem de se olhar para cima: as casas estão cheias de titãs, bruxas, e também pessoas crescidas. Pois esta coreografia num cenário de tapetes enrolados e cantoria diabólica de fazer revirar os olhos e se ver o branco, tinha de ser contada, parecia-me, ou como ouvia depois quando era repreendida por ter contado que mania de pôr tudo em pratos limpos e inventar por cima! Na verdade, quase metia medo, mas era bonito o raio do estranho bailado...
E a coisa continuou a passar-se. Mas no papel. Redacções. Bendito o inventor das redacções. Até 12 linhas. Nessa altura só contava os prodígios à tinta na veia da caneta. Raspanetes zero. Até 25 linhas - foi aqui que aprendi a pescar à linha e a cortar no peixe, perdão, na palavra para o texto cumprir a numerologia. E foi também nas 25 linhas que percebi que nunca iria aparecer na capa de uma revista. Aquilo não tinha valor para mim.
Aquilo poderia ser: uns ouviam Police com calças de ganga justíssimas e cigarros às escondidas. Outras Duran Duran e panamás em cima dos olhos já tapados pelos óculos espelhados, e cigarros às claras. Uma cegueira. Duas. Ou melhor, três. Porque. Eu lia. Escrevia. Lia mais. Corrigia mais. E também não via nada.
Nada poderia ser: os ouvintes Police e de Duran Duran eram ovos kinder surpresa. Com o tempo abriram. Saíram de lá de dentro casais Police que tiveram filhos Duran Duran e vice-versa. Montes de profissões de calças de ganga e outras tantas de óculos espelhados. Um por outra desapareceram no meio dos livros.
A coisa passa-se ainda. Voltei, claro, a dar um grandessíssimo valor àquilo.
Aquilo é ler e fazer a anotação de prodígios. Não posso fazer mais nada. Vivo no meio deles, dos lidos e dos vistos. Nem acredito na sorte que tenho. Gasto a língua a pensar, obrigada meu Deus, obrigada, que tenha os olhos e os ouvidos do Lobo Mau e possa ler melhor também para escrever melhor.
Bem podem imaginar o meu espanto de desaparecida entre milhões de letras quando me vi plasmada e aparecida. Nem mais nem menos do que na capa da The New Yorker. Com a vida em pratos limpos para toda a gente ver.
Sei bem o que está a pensar: então, onde está o Cão? Toda a gente sabe que tenho o único Cão com feitio de gato. Só aparece quando quer e desaparece quase sempre. Está atrás dos livros. A dormir que não vai para novo. E o resto dos pratos? Qual resto? É mesmo só isto e aquela chávena de café.

15 de outubro de 2014

ANDO NISTO

HOJE  VI
coisas de Adrián López Crego. Fotógrafo, motion designer. Quando  A.L. Crego encontra a peça de arte urbana e a passa para formato gif, ela renasce neste virtual país das maravilhas onde também já residimos. Sobre o trabalho de um artista de rua faz uma animação e temos as paredes vivas no ecrã da nossa sala de trabalho – o mundo de lá de fora ao alcance dos olhos dentro, e isso é feliz. Descobri-o aqui: bom vento e bom casamento.
(Se seguir o link supra, verá o que está sub como eu vi, não sei plasmar os bonecos em movimento...)
E como não vi filme algum, nem vou ver, tenho numa fartura de trabalho para fazer, mostro o dvd que vejo mais vezes na vida, de manhã, ou se a manhã falha, a meio da tarde. Azarucho, não é cinema, é aula - está lá em baixo na photo. É o NYCB Workout.
HOJE LI
e vou continuar a ler. Como muitos, não consigo ler um livro: leio livros, sou uma serial reader. Ensaio, poesia, romance, crónica, outro ensaio. Resumindo:
1. Reli, da Poesia e Metafísica, de Eduardo Lourenço, Walt Whitman e Pessoa, num exemplar novinho, comprei-o no ano passado porque não sei onde enfiei o outro igual a este já com montes de anos;
2. Reli como folhas soltas versos de Todos os Poemas, de Ruy Belo, nos intervalos;
3. E estou a reler também as pouco mais de vinte páginas do capítulo 2, d´A Poesia do Pensamento, de George Steiner, mas acompanhadas dos fragmentos de Heráclito e Parménides que estão online  traduzidos do grego para o inglês, com notas e comentários. Romance, nicles, crónica só quando for dormir, mas ainda não sei qual nem de quem.
HOJE OUVI
Ah! non credea mirarti, com Callas e Antonino Votto no repeat. Faço isto do repeat muito. A maior parte das vezes com o tio Bach. E trouxe da estante Seasick Steve para ouvir ao café, depois de almoço, a pensar em nada e em coisa nenhuma. Nem lhe toquei. Enganei-me: não estava in a Seasick Steve state of mind.
 
Ps: é o meu lindo verniz novo!

11 de outubro de 2014

UN AMOUR DANS LA BOUCHE, FOGO QUE ARDE SEM SE VER

"O Amor é fogo que arde sem se ver", de Luís de Camões, com a companhia de "L’ Erotisme", de George Bataille, e de "La Capitale de la Douleur", de Paul Éluard.
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

UN AMOUR DANS LA BOUCHE, FOGO QUE ARDE SEM SE VER
Em L’ Erotisme, ao elaborar o conceito de beleza, Bataille conclui que o desejo de beleza é, na verdade, o desejo de profanação do belo e de transgressão do humano: não se podendo profanar o feio, é o belo que é erotizado. O êxtase e a violência apresentam-se como entrelaçados traços constantes na natureza que nos coube, e com todo o seu horror e fascínio: le cœur n’est qu’une seule bouche.
Profanar é destituir o sagrado para erigir o quê em seu lugar? No coração do tabu estão a angústia e o prazer juntos, c’est un plaisir, c’est un désir, c’est un tourment, portanto, a morte de que se foge e a morte que se persegue, nó duplo de medo e desejo: mourir de ne pas mourir.
A experiência do belo, de desejo, de profanação, de morte, tem uma sensibilidade religiosa: o eu erótico nos seus componentes daqueles êxtase e violência, seule la doleur prend feu, ameaça os pactos sociais e a integridade psíquica: desliga-se não apenas dos outros, mas do lugar de fronteira com o sagrado onde se constitui humano. Esse eu que somos nós está só: entre mon désespoir et la raison de vivre. Esta é a morte. Excluído. Só debaixo das estrelas.  
A beleza é, então, um problema que se apresenta ao desejo: como se estabelece uma relação com o objecto erótico se este obriga a uma relação com os escuros dele e os nossos porque também o somos? Et je suis tour à tour et de plomb et de plume, une eau mystérieuse et noire qui t’enserre.
Porque a beleza convoca toda a luz da claridade, chama também o escuro que a devora, leurs ailes sont les miennes, rien n’existe que leur vol qui secoue ma misère, leur vol d’étoile et de lumière, leur vol de terre, leur vol de pierre sur les flots de leurs ailes, ma pensée soutenue par la vie et la mort. Seja na natureza, na mulher ou no homem, a luz e o escuro, uma só boca. Esta é a nossa matéria prima, e da consciência deste mistério vive a arte quando se faz tangível por palavras, música, pintura. Disso e pelos buracos de silêncio e vazio que o permitem: je chante la grande joie de te chanter, la grande joie de t’avoir ou de ne pas t’avoir.
Quanto mais belo, mais claro e mais obscuro, mais intenso e mais breve: a morte faz-se uma presença na vida, o visível sussurra ao ouvido do invisível.
A experiência do belo, do amoroso, do erótico, será sempre também uma experiência de sofrimento. Isto significa que o sofrimento pertence à beleza. Legitima o elemento sádico e o masoquista. O amor é, de facto, a ferida que dói e não se sente, a ferida que temos e a que infligimos.
Como a arte maior de Camões é fogo que arde sem se ver: ses yeux ont tout un ciel de larmes.

9 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: Nova Iorque sempre foi em Luanda, por Manuel S. Fonseca



Fomos pela capa da New Yorker, a Eugénia de Vasconcellos e eu. Entrámos em diferentes mercearias, mas podia ser a mesma. Ela comprou colchetes, eu vendi um espada americano.
Visão, tenha duas: Nova Iorque sempre foi em Luanda
Toda a gente sabe que a Vila Alice é um bairro de Nova Iorque. Fica ali, encastrado entre o Soho e a Little Italy. Já ficava, muito antes de se ter encostado à Vila Alice uma africaníssima Chinatown – encosto recente, não tem mais de um lustro.
Pode parecer que o meu forte não é a geografia. Enganam-se. Quando um dia, pela primeira vez, cheguei à Califórnia, soube logo que tinha voltado a respirar o espaço que, por todos os poros e com narinas boca-de-sino, se respirava em Angola. E não me venham dizer que o mundo é pequeno. O mundo é enorme, é maior do que as duas orelhas do Dumbo, mas sendo grande, e por ser tão grande, o mundo repete-se. Há um bocadinho de Alfama a subir para o Sacré Coeur e havia um bocadinho dos anos 50 de Bronx e Newark na Luanda dos anos 60.
Na Alberto Correia, a minha rua da Vila Alice, havia pelo menos três mercearias. Mas só a mercearia do Senhor Manel, a mais próxima da minha casa, se pode gabar de ser o espelho borgesiano das mercearias que podemos pressentir no “Bronx Tale”, único e gentil filme que Robert De Niro dirigiu, ou nos romances abusivamente autobiográficos que Philip Roth escreveu.
Na mercearia do senhor Manel não se vendiam metáforas, é certo. No entanto, havia duas entradas de metonímica afinidade. A canónica entrada das horas legais de funcionamento, precedida por três degraus que podiam, se fosse mais devoto o continente, ser os degraus de uma capelinha setecentista. Fechava à hora de almoço e, se ainda me lembro, agora que vivo nesta terra de nariz esquimó, fechava outra vez quando o sol se punha. Depois dessas horas, entrava-se na mercearia por outra porta, a porta lateral que dava para um pátio, onde às vezes o senhor Manel punha uma mesa guerreira para partidas de sueca que levantavam alaridos de Aljubarrotas. De uma tomada interna, o senhor Manel sacava uma puxada e era à luz de uma gambiarra que se batiam as cartas. Cruzavam-se Nocais e Cucas e nós, candengues, ouvíamos da boca dos mais velhos o que ainda hoje não nos atrevemos a dizer.
Podiam ser, se fossem sicilianos, mafiosos do Bronx. Estavam ali, de gordos ou ossudos rabos enfiados nas cadeiras, apostas sobre apostas, fumo a entrelaçar-se em fumo, até às quatro, cinco da matina. Um dia, um deles tentou pisgar-se às três da manhã. A perder, o velho Augusto lançou-lhe um labéu capaz de gelar os trópicos: “Parceiro da merda, joga duas partidinhas e vai-se logo embora.
Eram traseiras de filme, traseiras de “Rear Window”. Jogavam-se cartas como num “film noir” e colados aos cigarros, às cervejas, a um whisky com 7 up, estavam Edward G. Robinson e Walter Brennan. Ria-se como se ria na prisão do “Rio Bravo”.
Era a vida, mas não era nenhum atraso de vida. Repetindo o ritmo de um quintal mafioso dos anos 50 de Nova Iorque, o pátio de mil suecadas de Luanda antecipou o que depois sacudiria a América. Os carros dos primeiros anos 60 eram as carrinhas Ford, uns Chevrolts e Plymouth, espadas americanos. Por pouco tempo. A luz da gambiarra da mercearia do senhor Manel iluminou, oscilante, a chegada do Simca do meu pai, do Triumph da Mimi, do Fiat de abertura pela frente do lixivieiro, do Alfa-Romeo do largo dos Cunhas, do Volkswagen preto do inspector da Pide, do Citroen e do BMW da família dos engenheiros. Se em Detroit estivessem atentos, saberiam, em meados dos anos 60, que a indústria automóvel americana estava condenada.
Tudo o que os japoneses fizeram depois – a baratíssimos Hondas, Mazdas, Toyotas – foi só um golpe de misericórdia. O mundo mudou sim, mas à luz ténue da gambiarra do pátio da mercearia do senhor Manel. Na Vila Alice, esse bairro meio-judeu, meio-italiano, de Nova Iorque. Digo eu que, agora sei, de carregada nostalgia, que Alice doesn’t live here anymore.

Visão, tenha duas: Sol de LED


Fomos pela capa da New Yorker, o Manuel S. Fonseca e eu. Entrámos em diferentes mercearias, mas podia ser a mesma. Eu comprei bordado inglês, ele vendeu um espada americano.

SOL DE LED

Quando era muito pequenina, antes de qualquer distopia, era mais vigiada do que as páginas de 1984 e sem ter um Big Brother.

Entre os dois e os cinco anos vivi em regime de controlo absolutista depois de ter sido expulsa, perdão, convidada a retirar-me do colégio. E se queria sair de casa… e não só para andar de bicicleta na rua, rua verdadeira, qual no quintal das traseiras, que nervos! Mas nada, nem para recados, logo eu tão bem mandada e tão disponível para antecipar toda e qualquer necessidade. E tão compostinha e bem penteada, vaidosa de berço. Cheia de boa vontade. Ai que lindo descascar ervilhas, mexer segredos com colheres de pau escuras de uso e os frascos rebrilhantes das compotas. Que beleza o cheirinho dos lençóis brancos nos estendais lá de cima onde, ao fundo, crescia a inclinação das telhas bordadas a líquenes. Andava sempre enfiada na cozinha, na dispensa, nos quintais, nos guarda-fatos, no armário da loiça, a farejar as estantes, a mexer nos proibidos como o açucareiro de pesado cristal azul escuro numa monture linda de morrer de bons tempos já mortos, e dentro das arcas onde cabia inteirinha mais meia dúzia como eu, todos conservados em cânfora.

Se o quer que fosse estivesse lá em casa, saberia onde estava, mesmo o que estava na gaveta do por enquanto, um lugar de transição e desarrumação: uma fita, fio, uma tesoura, um lápis, uma carta aberta e o calendário do pintado com a boca e com o pé, vendido de porta em porta: o meu avô dava-me dinheiro para aquele contorcionismo angustiante – só queria comprar um caixote deles, todos, pronto, e nunca mais haver essa fatalidade de nascer sem braços por um passe de mágica comercial.

Não podia, então, sair sozinha, o que me parece razoável, mas também não podia ir com quem fazia as compras, o que me parece indecente. A raiz do problema estava à porta de casa: a rua de todo o comércio.

A mercearia dava cabo de mim: a gruta de Ali Babá ao pé daquilo era nada. Via as pessoas a comprar o grão que cantava na medida de metal, e o bacalhau pesado na balança nova enquanto a fruta se equilibrava nos pratos e com os pesos da balança velha. Ai aqueles armários do chão ao tecto com tudo quanto se poderia querer, e eu queria, tachos levezinhos e sabão em barras que se cortavam com facão de ogre. A mais linda loiça de feira e bombons pequeninos de mau chocolate com um recheio pasteloso de açúcar – adorava-os e às pratinhas coloridas em que vinham. Chupas de caramelo: um cone espetado num palito e forrado a defensivo papel vegetal, uma maravilha enjoativa com legendas: esta miúda só gosta do que não presta, sai muito em conta esta minha neta.

E confesso: perdia a cabeça na retrosaria arrumada com primores nervosos: aprendi mais ali do que mais tarde com a parvoíce da metodologia para o trabalho científico. Fora das caixas, a amostra do que estava dentro delas, a variedade dos botões, colchetes; as gavetas etiquetadas tinham fitas de nastro, seda, cetim, veludo, e abriam à largura pretendida, e as peças de tecido, céus, peças inteiras ou a metro onde se escondiam, naquela lisura enrolada em cartão duríssimo, saias de pregas perfeitas, escocesas ou não, casacos ora com macho ora assertoados, vestidos Deus queira cheios de folhos e favinhos ou de fresquinho bordado inglês. E por bónus, quem haveria de dizer, a aritmética do futuro escolar fácil facinha de se tem esta largura então quero duas alturas. Assim não custa ter vinte valores sem explicadores. E os atacadores que rimavam com isto vendiam-se no sapateiro.

Fugi muitas vezes para lá. Adorava o sapateiro e os sapatos, os caros e os baratos, nada difíceis de distinguir, todos em puríssima igualdade de trato desde o tempo de internamento aos cuidados prestados. Ficava sentada num banquinho e ele vá de fazer voar aparas e de afiar a navalha numa tira de couro. Meticuloso. E a máquina de coser as solas? Maravilha de força bruta. Mil sapatos possíveis e eu, raios, de botas ortopédicas em todas as estações. Quando me apanhavam e devolviam, bem dizia, se estava com o vizinho sapateiro, mas qual vizinho sapateiro nem meio vizinho sapateiro, a quem é que esta miúda sai? O lugar mais desarrumado da minha infância, o mais atafulhado, o mais pequenino, o palácio secreto dos sapatos. Cheirava bem, a cola amarela e grossa, a couro e cera no balcão tão velho que até a sua madeira inventava saudades das florestas já mortas.

Mas melhor do que tudo eram as histórias em livraria e papelaria com relíquias de outros tempos enfiadas lá ao fundo onde a clientela não entrava. E havia uns bonequinhos, meninos, meninas, cães e gatinhos, pais natais, casas de conto de prodígios, coisas mínimas de máxima lindeza em papel de poucos centímetros na folha da qual se desprendiam, e purpurinas, assim na bochecha ou a sair brilho da chaminé. Colavam-se para enfeitar os cadernos da escola de muito antes de eu nascer. E estampas que se retiravam com cuidado e pouca água não se fosse rasgar a asa da borboleta. E ele, o vizinho da livraria: já ninguém compra isso. E a mulher dele, vizinha minha, sempre ao lado, já ninguém compra isso. Mas eu comprei um saco inteiro de folhas Glanzbilder que me durou até à quarta classe: enfeitava os cadernos e as sebentas que de sebentas só tinham o nome: mil horas de trabalhos, tabuadas e verbos inteiros, primeiro na sebenta, a lápis, depois a limpo a lapiseira no caderno, e mais tarde a caneta de tinta tão pouco permanente que se desfaria em borrões escorridos como os desenhos japoneses se apanhasse uma chuvinha de nada.

Não vou contar da loja dos brinquedos nem da sapataria dos sapatos de verniz e das socas de pau da Anita de onde vim arrastada mais do que peixe na rede. Não tive sorte, claro, as duas ou três birras homéricas protagonizadas por esta yours truly não produziram os resultados pretendidos, nem foi compreendido o terrível desgosto consumista, além de, uma vez em casa, ter ficado com o rabo a arder e não ter sido por estar chegada à lareira... Artigos de primeira necessidade, ó Tiranas, as duas em conluio, tal mãe tal filha, feras! Estão a ouvir? Por vossa tão grande culpa tenho uma apetência por Mary Janes que ainda não me passou e duvido que venha a deslargar-me um dia…

Este mundo fechou. Aqui, do lado mais ocidental da vida, fechou. Transforma-se dia a dia num imenso centro comercial onde, a espaço certo e com a metragem bem definida, podemos encontrar o franchising, as catedrais dos nossos desejos, dos nossos serviços, ou muito mais correctamente nesta linguagem de multinacionais, o lifestyle, do pensamento à roupa de cama, em acordo com os grupos de pertença social também eles pertença de grupos económicos. Amazon, bares de gin, Murakami, cayennes brancos de menina, bmws em tamanho de funerária para os rapazes. Assinale com x e consulte o espelho dos resultados tidos e aspirados.

Cada vez mais e maiores, as superfícies ganham tecto para nos tapar o céu dia e noite e fazer o perpétuo dia em turnos sucessivos. O mundo, este mundo em sol de Led, este já não fecha. Caminhamos para a planetária cidade global de Asimov, homogénea até nas diferenças previsíveis por educação e carteira, e mais cedo do que tarde, explicitamente como agora ainda com a discrição possível, seremos cidadãos da multinacional que nos empregar  - e ai de quem não for cidadão.

5 de outubro de 2014

Uma questão de mamas e beleza


MAMAS E SOUTIEN
Já contei que gosto de mulheres - não, não é dessa maneira. E de maminhas também gosto. Pequeninas, grandes ou à medida da mão certa. Daquelas a apontar para o céu juvenil e das que cheias cedem à gravidade gosto também. Redondinhas ou em bico como em chinês.
No entanto, por ser mulher, não as vejo com aquele olhar dos homens. Que olhar? Aquele olhar que têm e nos faz pensar, pobres diabos, foram desmamados cedo demais, à boca da fome – ou pensava que era só a Shakira que tinha una fijación oral?
Hoje vi uma miúda. Não era gira nem estava bem cuidada nem tinha roupas que a favorecessem minimamente. Mas tinha aquela coisa tenra e terrenosa dos vinte anos quase trinta que cuidado algum supera: a natureza nas veias. Ela estava distraída ao telemóvel então pude vê-la com tempo.
Tinha um grandessíssimo par de boas mamas. Ela. Eu tenho um defeito terrível, faço julgamentos com e sem justiça. E não gosto de os fazer, nem a uns nem a outros. Sei lá eu por onde entrará a ruína de um homem, se pelo seu imenso sucesso se pelo seu enorme fracasso… e até esse dia chegar, o da sabedoria, julgo, e a seguir tomo noto do julgamento para o desfazer. Educo-me.
Aquelas mamas estavam presas dentro do soutien errado. Não é preciso trabalhar numa secção de roupa interior para perceber que as mulheres não sabem que raio de soutien usar.
Debaixo da t-shirt branca de mau algodão e muito uso, escapavam de aflição e falta de ar uns refegos valentes acima da cintura. E o cós e o fecho de colchetes subiam pelas costas. Número pequeno demais. E as próprias mamas quase no pescoço, que sufoco, em meia copa c onde uma copa d inteira deixaria o corpo feliz.
Depois arrependi-me logo da avaliação. Há qualquer coisa bela na carne que foge à roupa, no vinco marcado. Bela como a cabeleira de Maria Madalena de procissão que ela tinha, porém viva, inteira, forte: um véu de pudor na nudez.

3 de outubro de 2014

O Bordel das Musas ou as nove donzelas putas


"Claude Le Petit, libertino francês, foi queimado na fogueira, em Paris, por causa dos seus poemas eróticos. A Guerra e Paz, pela primeira vez em Portugal, publica O Bordel das Musas ou as nove donzelas putas, o livro que o condenou, numa edição rara, com a participação de dois artistas: 22 desenhos originais de João Cutileiro, concebidos especialmente para este livro, acompanham os poemas traduzidos por um poeta, Eugénia de Vasconcellos.

Além da ousada e irreverente beleza dos poemas e dos desenhos, este é um delicado livro-objecto. No formato de 15cm x 21cm, é um livro de capa dura, cartonada, revestida a tela Brillianta. Sobre essa tela, em impressão serigrafada, surge o primeiro dos desenhos de Cutileiro que é a imagem da capa. O miolo vai ser impresso em papel Athenea Verjurado Ahuesado, um papel texturado com uma gramagem de 120 grs.

Desta edição bilingue do Bordel das Musas serão impressos e comercializados apenas 1.150 exemplares, todos numerados, todos com a assinatura digital de João Cutileiro e de Eugénia de Vasconcellos.

Esta é, por isso, uma edição única. Não haverá reimpressão ou segunda edição deste livro, com estas características. O livro vai ser comercializado, a partir de 19 de Novembro ao preço de 24€.
Mas aos amigos e leitores da Guerra e Paz oferecemos a possibilidade de garantir o seu exemplar, adquirindo-o já com um desconto de 40%. Ou seja, pode comprar o seu O Bordel das Musas por apenas 14,40 € se o fizer, de 2 a 30 de Outubro, aqui, no nosso site.

Vá já ao site da Guerra e Paz e garanta o seu exemplar nesta oferta única.

Esta compra é limitada à oferta existente. Os livros adquiridos serão enviados, a partir de 5 de Novembro, para a morada que nos indique, sendo os portes de envio (para Portugal e Ilhas) suportados pela editora.

Oferta válida de 2 a 30 de Outubro. Compra exclusiva no site da Guerra e Paz."


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Visão, tenha duas: Táxi


Chove nesta The New Yorker. Quem anda à chuva molha-se. Vejam como é que se molham, diferentes, os olhos do Manuel S. Fonseca e os meus. Molhe também os seus.


TÁXI, A METÁFORA PERFEITA À CHUVA E A REALIDADE AO SOL
Quando era pequena não havia táxis. Noutras casas a existência de táxis era uma realidade, mas na minha só se sabia da existência de carros de praça - descobri, portanto, o táxi mais tarde. O carro de praça era um veículo que supria uma falta.
Ora, a minha avó que não conduzia, nunca conduziu na vida, nem pretendia jamais em tempo algum conduzir, não suportava carros de praça. Lembro-me de pensar nisto como uma grande interrogação, um quase mistério. Se não conduz e gosta de ser conduzida, havia de os adorar… Não. Carros públicos não.
Não é exactamente um segredo bem guardado que a minha avó era para mim a própria da encarnação de Deus na terra e planetas circundantes. Resumindo: só tirei a carta porque me obrigaram. A minha irmã começou as aulas de código assim que pôde e de forma a fazer o exame de condução logo na semana em que faria os dezoito anos. Foi nessa altura que me caiu a bomba em cima, e que parecia mentira, e já a minha irmã mais nova conduzia e lailailai. Enfim. Lá fui tirar o raio da carta. Para quê?
O carro de praça, o belo táxi, é o meu automóvel preferido - a influência de Deus nem sempre levou  a melhor. Pior. Apesar de ter uma vocação pouquíssimo comunista e de defender a propriedade privada, perco uma série de tempo a achar que sou a proprietária do futuro: não quero ser dona de nada – e já fui de algumas coisas, não é real, porém este ponto, ser ou não ser real, é filosófico e logo volto a ele noutra altura mais conveniente. Quero é ser dona do usufruto de algo e enquanto estou a usufruir. Chega.
O que eu gostava era de morar num hotel, ter à porta quando necessário um carro que não fosse meu com um motorista que fosse dele mesmo. Quem diz de isto, diz de tudo.
O meu sobrinho mais velho compreende-me. Filosoficamente. Na altura ele só tinha quatro anos. Estávamos de férias, férias familiares e alargadas como ainda não voltámos a fazer, e alojados num hotel de frente para o mar - bastava descer as escadas para termos os pezinhos na areia. Vínhamos pelo corredor, só a minha irmã, ele e eu. De repente, diz-nos:
- Gosto muita desta nossa casa.
A minha irmã:
- É um lindo hotel, mas não é nosso.
E ele:
- Enquanto aqui vivermos é a nossa casa, não estamos em mais nenhuma.
Tenho um pequenino senão: comprar, possuir, ser dona mesmo de papel passado e ai de quem, gostava, ó tanto, de ser dos livros todos que desejo e espectáculos e lugares do mundo, do sonho das galáxias, tal como sou dona do Cão e a pessoa dele. E como não sou do Amor. É inútil, bem sei, os livros continuarão e eu tão morta, o bailado e os meus concertos já lá estavam antes e estarão depois mim, o que vi nos olhos do Hubble não se agarra, e não há afecto monolítico, sequer o canino. Nem o amor do Amor nem o meu o são ou serão. E ainda bem ou vida seria de altarzinhos de um santo para uma vela. Tudo da vida é em time-sharing.

Visão, tenha duas: O primeiro táxi de Manhattan, por Manuel S. Fonseca


Chove nesta The New Yorker. Quem anda à chuva molha-se. Vejam como é que se molham, diferentes, os olhos da Eugénia de Vasconcellos e os meus. Molhe também os seus.

O PRIMEIRO TÁXI DE MANHATTAN
Foi um toca e foge. Era a primeira vez, 1986. O avião bateu no JFK e eu, em trânsito, operações alfandegárias feitas, vim ver a rua, cinco minutos de cá fora, antes de entrar noutro portão e apanhar o avião para Los Angeles.
Encostados ao infinito passeio, estavam ali, como a flor de Coleridge, num amarelo de Van Gogh, os táxis de Nova Iorque. Sei bem que, se fechasse os olhos e acordasse, acordasse eu onde acordasse, sempre encontraria na mão essa reminiscente flor amarela com que acorda quem já viu, de Nova Iorque, o inocente, insolente e impassível yellow cab. Olhei – ainda era esse tempo – e vi que havia um ocioso Mitchum, um nervoso De Niro, encostados às portas dos carros, à espera.
Três meses depois, passados e repassados alguns indiferentes táxis de L.A., voltei. Estava Dezembro com um pé na chuva e outro na neve e faltariam três renas para o Natal, se assim se pode dizer.
Havia no ar uma solidariedade de cães e gatos entre os humanos. O taxista arranjou maneira de quatro estranhos partilharem um táxi. Lembro-me que, banco de trás, entrei em Nova Iorque com a fria manta das sete e meia da manhã aos ombros, a coxa direita encostada à esquerda de uma morena, a esquerda à direita de uma loira – há vantagens em ser-se portátil e encaixarmo-nos bem na doçura juvenil de um táxi que rola e entra em Manhattan.
Não se entra em nenhuma cidade como se entra, pela primeira vez, em Nova Iorque: fundem-se a grandeza e o pormenor, a sofisticação e o trivial, o arranha-céus e o esgoto, o céu e o fumo do chão. Em Nova Iorque temos a certeza de que a reincarnação é a única explicação racional para a vida humana. É a primeira vez e reconhecemos cada cara negra, branca, porto-riquenha, eslava ou chinesa que passa. Já os vimos, sempre os vimos, mesmo sem sabermos onde os vimos. Hi! Hello! Honey! Todas as ruas por onde passamos nos fazem soltar um ah! de espanto, o ah! de espanto de quem, nostálgico, se admira e grita com o regresso às ruas da sua infância. Já vivemos ali, sem sabermos que vida ali vivemos, sem sabermos que outra vida possamos ter vivido que não seja essa vida que lembramos, cruzando-a de táxi, sem sabermos como a podemos algum dia ter esquecido.
Rola, rola, rola o yellow cab e, quando é a primeira vez, o táxi leva-nos para Nova Iorque como quem nos leva para Brigadoon. A cidade que acorda, os outros carros, as bicicletas, as mulheres que correm, os homens agitados, tudo isso é uma invenção, uma liberté, com que um daimon cartesiano nos encanta e engana. Sabemos bem que depois do táxi passar, aquelas ruas, as pessoas, os gigantescos edifícios, hão-de desaparecer como uma conjectura de Berkeley. É o nosso olhar, o nosso olhar que espreita pelas janelas molhadas de um táxi (há poucas coisas molhadas de que se goste tanto como das molhadas janelas de um táxi), é o nosso olhar, dizia, que inventa, cerebral, Nova Iorque.
O preguiçoso Mitchum era o meu taxi driver. Lá vou eu, dentro do girassol de quatro rodas. No bolso, para sempre, a chave do primeiro hotel de que já me esqueci do nome, perto do Grammercy Park - isso lembro-me. Ainda tenho essa chave no bolso e não sei se é a chave de um hotel rasca, se é a flor que o utópico Coleridge teria colhido se um dia tivesse passeado em Nova Iorque, atrás do molhado vidro de um táxi.