30 de março de 2014

Alguém do outro lado

Escultura em fio de arame, de Sophie Ryder

ALGUÉM DO OUTRO LADO
Hoje fiz berbigão de molho branco – a receita da minha avó. Estava tão bom. Nem sobrou. Com o marisco muito fresco acontece isto de ficar o cheiro do mar em casa quando liberta a água que traz dentro na cozedura breve. E a cozinha passa a ser na praia se fecharmos os olhos.

Lá fora chove ainda. Chove desde ontem. A temperatura desceu. Assim mesmo é bom estar na praia de olhos fechados, a lareira a queimar bem o azinho há-de pensar-se uma fogueira. 


Escultura em fio de arame, de Sophie Ryder


Ontem não dormi. De vez em quando, mas cada vez menos frequentemente, acontecem-me ainda as insónias. É uma estação como a das chuvas. Nunca soube porquê. Já tive teorias e terapêuticas, há muitos anos atrás, não encontrei resolução nem numas nem noutras, deixei ambas: nem tudo tem desfecho, algumas coisas têm continuidade com ou sem interrupções. É assim. Mas a noite de ontem, confesso, enganou-me. Estava cansada do dia ter corrido bem, escrevi tudo quanto podia ter escrito, um despropósito de caracteres, e ainda voltei atrás, corrigi, planeei o que vou escrever hoje, tirei notas, tinha sono. E cansaço de palavras dentro da cabeça, conheço-o logo, falo em voz alta um pensamento, quero dizer, falo sozinha como quem está acompanhada, ou digo ou escrevo um disparate que detecto porém não sei corrigir o erro. Deitei-me e nada. Abri a luz. Li. Fechei a luz. Nada. Levantei-me e vim pelo escuro até aqui - gosto tanto de atravessar o escuro à noite, de sentir o chão frio em cada passo, da adivinhação das sombras, tudo está no seu lugar, caminho de cor. Não consegui alinhavar nem uma das notas em forma de frase, já o brilho do ecrã me entrava pelos olhos adentro, e tudo muito quieto: passei pelos sítios do costume, todo o www. dormia. Das nove às onze desta manhã o corpo cedeu e dormi eu. Há vontades em mim que desconheço, não as percebo, não lhes sei responder: deve ser isto a insónia, uma conversa de surdos ou um conflito mudo. 


Escultura em fio de arame, de Sophie Ryder

Enfim. Com ou sem insónias é um alívio quando se encontra o fio e sai. Ali onde se está preso é mau porque é incompreensível. Parte-se uma peça secreta qualquer e as ligações caem, tal qual uma chamada telefónica. Se estar só é bom e é um bem, ficar-se isolado até de si mesmo não. Enquanto dura é um susto. É um e se nunca mais. Depois a ligação retoma-se. É sempre o mundo lá fora que nos vem resgatar da solidão. Talvez seja a forma que encontra para nos dizer que é mentira, que parece que sim, mas não, está alguém do outro lado mesmo quando a chamada cai.




29 de março de 2014

Sidney sábado Bechet

É sábado, finalmente, é sábado ou uma aparição, um milagre à porta de casa, dentro de casa, é sábado entre os móveis e nos espaços em branco de uma pessoa.


Rica menina da mammy, que orgulho!

Se tudo tem um sentido na vida, como é que uma pessoa com um forte sentimento materno-pedagógico, como eu, não tem uma rica filha? Primeiro ensinava-a a cantar. Depois dos vidros partidos, a dançar. Tudo quanto é importante.


24 de março de 2014

Cosmos: A Spacetime Odissey, às 23:00, no National Geographic Channel

A minha ignorância dá-me muitas alegrias: a quantidade de coisas que ainda não sei e um dia lerei, verei, o que tenho ainda para viver, tanto, de fresco, fresquinho, no futuro - o futuro é um lugar bom. 
Também é verdade que, às vezes, fico, como toda a gente fica, triste. Mas deve ser só porque me distraio por um bocadinho deste rosário de maravilhas.

Um livro pequenino, uma vida grande


Eu abandono Roma
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de Deus abandona os homens
Alguém abandona tudo


Tonino Guerra in O Livro das Igrejas Abandonadas

Para Tonino Guerra

POEMA DO TEMPLO ABANDONADO
Do fulgor metálico da foice e do martelo,
nasceram as estrelas no céu vermelho, e ele
escorreu e tingiu até as montanhas altas,
os caminhos ainda de pó e cascos de cavalos 
iguais à tua infância,
e chamaram-lhe revolução cultural.
Depois de regressar da cadeia,
a Mãe saía muito cedo, cheia da primeira luz, 
e buscava entre as pedras e as ervas,
bagos, fios de nada que fervia, 
e com esta colheita caída à revelia dos cestos
que por ali passavam às costas dos carregadores,
alimentava as suas Filhas dentro das portas escancaradas 
dos templos proibidos e abandonados -
de lá a levaram, para lá retornou.
Assim aprenderam elas os outros nomes 
para a única navegação dos dias:
a duração, a dedicação amorosa, a frugalidade, 
como e por onde corre o sopro da vida, 
aquilo que dizem ser o tai chi.
Já Mãe era tão velhinha quando os templos voltaram a florir
a mais radiosa brancura, a que tu sabes e eu sei chega antes do fim,
e as televisões foram ver aquela lenda viva: 
as Filhas lavavam-na, cozinhavam para ela, penteavam-na. 
Nenhuma delas falou de comunismo nem de tai chi,
só de como a Mãe as tinha amado.

22 de março de 2014

Lucky gal

Perco-me sempre um bocadinho. A conduzir. A escrever. A fazer uma pesquisa. A sentir. A pensar. A meditar. Até a seguir uma receita. Costumava ter má opinião sobre estas minhas derivas. Agora percebo que ir na corrente é uma bela maneira de fazer o longe muito perto e trazer o desconhecido para dentro da rota.

20 de março de 2014

É a Primavera, não é a prima Bárbara!

O NOSSO OGRE
Chegou a Primavera. O caracol põe os corninhos ao sol. E os homens ouvem prima, e zás, porque mais se lhe arrima, acordam o bárbaro que há neles. Ora, isto não pode ser. A Primavera será família, mas é delicada nos seus lindos clichés: tem andorinhas no céu, azul a rodos, e calor morno daquele mesmo bom para despir um bocadinho aqui, um bocadinho ali, e só mais um bocadinho de pele nuazinha em flor. É o belo solinho a aquecer a bela perna e o que mais apareça a dar um ar da sua graça. Graça não é desgraça, rapazes! Por muito que faça gosto, e faço, em ver a rapaziada, ó, toda alargatada, a fazer a fotossíntese de vitamina D na rua, na praia, na esplanada, confesso, prefiro sabê-la desvitaminada. Explico tudo sem rima.
Se o caracol põe o que põe ao sol, os homens põem os pezinhos ao léu. E este é um horror primaveril. Ao incompreensível gosto por sandálias do inferno do tipo ortopédico e com velcros, acresce uma incompreensível falta de pedicure. Cariño, que te pasa? Já não bastavam os pêlos de ogre a sair das orelhas? E mais pêlos de ogre até pelas narinas fora tais bigodes-antenas de gato, mais ainda os das sobrancelhas do tipo einsteineziano? Agora, las patitas, no!
Dir-me-á, ah isso é mais depois dos quarenta. E passa-lhe pela cabeça que olhe duas vezes para si que tem vintes? Bebé. A minha geração inaugurou esta mania da paridade a sério, a começar logo na atracção: namorámos e casámos todos entre nós, a malta da mesma idade, mais ano, menos ano. Até nos divorciámos entre nós. E agora, zás, segundo round. Deve ser karma ou kastigo, ou lá o que é.
Pois muito bem. O corpo tem vontades depois dos quarenta. Não se pode fazer essas vontadinhas ao corpo. É dar-lhe um tau-tau, perdão, um choque de civilização. Repare, não estou a dizer que se depile e fique a parecer-se com uma enguia nadadora como os miúdos mais novos que tem aquele complexo anti-piloso global de nadador de competição e nem por isso sabem quem foi John Weissmuller, apesar conhecerem Tarzan. E arranjam muito as sobrancelhas em ângulos agudos e branqueiam os dentes ao ponto de encandearem uma pessoa. A despropósito:  o próprio do Tarzan, mesmo lá no meio da selva dos anos trinta a preto e branco, arranjava tempo e modo depilatório... é para que saiba de onde vem a vanguarda.
Já viu que nós, meninas, raparigas, enfim, mulheres, somos a própria da Primavera o ano inteiro? Fazemos manicure, hidratamos o cabelo, lailailai e tudo quanto há. Quando calçamos as nossas lindas sandálias de salto, ou rasas, ou quando enfiamos umas simples havaianas para irmos mesmo de fato de yoga e rabo de cavalo ali ao supermercado, num instantinho, cheiramos bem. E não é só por vossa causa, ingratos calçados em Scholl depressivas, é para fazer civilização, é uma higiene, vá, estética.
Não mastiga de boca aberta, pois não? É igual. O erotismo assim não é possível. Pedicure não é pintar as unhas de cor-de rosa fluorescente. Contrariar o despropósito piloso, não é uma depilação definitiva. É, olhe, um duche só que não é diário. Uma necessidade como lavar os dentinhos.
Porém, esta questão que como todas as questões fúteis dá imenso trabalho, é essencialmente social. Porquoi? Bem, não é só por dar trabalho, isto é, criar emprego na área da prestação de serviços de estética  - vê?, é a própria da prima da ética de que já lhe tinha falado. Nem é porque o aumento de consumo destes serviços seja bom para a economia. É porque, na intimidade, nós amamos o nosso ogre mesmo com pêlos e sabemos que o nosso ogre, mais conhecido por marido/namorado/híbrido, também nos ama logo de manhã quando estamos cheias de olheiras. Na intimidade amamos as imperfeições de quem amamos. A intimidade é uma coisa. O mundo lá fora é outra. E o que apetece ter ao lado, na cama, é o dois em um.
Ps: Feliz Primavera, Ogres.

19 de março de 2014

Está feito & Bonus track

1 Há coisas em que basta acertar uma vez e está feito, depois é só ir ajustando aqui e ali com curiosidade, empenho, gosto, e mesmo um bocadinho de maldade. Exemplos? Olhe, a vocação, um homem, a dieta e o exercício adequados. E o euromilhões. Fun!

2 Dançar à maluca uma música parva por dia
   Tanto bem que lhe fazia ao stress e à azia

Não há-de ser por falta de gira discos. Tome lá, faça play. Sou uma santa, é o que sou, a santa das endorfinas.

18 de março de 2014

Ray Noble Yoga Orchestra

Talvez já não exista um homem com quem se possa dançar isto, ao fim da tarde, na varanda de um hotel no sul de França, ainda os pinheiros e as escarpas, o mar em frente, e a elegância de cinema das nossas avós, um rasto de brilho Cartier Art Déco a iluminar o decote, o pulso, as orelhinhas. Mas que diabo, podemos enfiar um anel despropositado no dedo e fazer yoga com a orquestra em fundo e Al Bowlly no ouvido.



As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - we´d say whatever lovers say


16 de março de 2014

Galeria de Heróis - Janis Joplin i love u

No outro dia, ouvi uma daquelas pessoas inteligentes dizer coisas inteligentes e pensei: estou lixada. Afirmou: basta olhar para a galeria de heróis de alguém para sabermos a vida que vai ter. Sempre fui bem mandada. Estive a fazer uma lista de heróis persistentes na duração do tempo. Porém não me resultou a futurologia - se por acaso descobrir a vida que vou ter, conte-me, a que já tive, não é preciso maçar-se, lembro-me dela.

Ora, os meus heróis viviam lá em casa. Acima, a reger o mundo, a minha avó. Mas não a mostro, é minha. Conto esta para começar o futuro, uma das primeiras dessa galeria extra-familiar. Ainda antes da primeira classe já dançava muito. O quê? Janis Joplin. Esta dançava de olhos fechados. Lixada, sim, mas graças a Deus.


O pão dos anjos

A ROSA QUE FICA DE PÉ

Às vezes sonho segredos,
não me incomoda a estranheza,
sei que o mundo acima nos fala assim:
a língua dos anjos é uma
máquina de fazer loucos para quem
a quer entender, eu já não quero
Quando era muito novinha
e o tempo só existia fora de mim
ficava em casa a estudar tudo 
quanto apanhava, e nada chegava, 
ninguém respondia, nenhum mistério se abria 
e só Deus sabe: 
era uma forma de chegar aos céus
Nunca cheguei, claro
E sempre tive muita dificuldade
com o faça-se em mim a Tua vontade,
mas às vezes sonho segredos
e se a razão me diz isso não tem sentido
respondo-lhe não te acredito,
não há fé sem crucifixo 
Tudo quanto fiz e farei 
de bom, de belo, de bem
não começou em mim,
começou Além:
às vezes sonho segredos

10 de março de 2014

Pela minha palavra

HÁS-DE CONHECER-ME PELAS MINHAS PALAVRAS
Hás-de conhecer-me pelas minhas palavras
pelas minhas palavras e mais nada
lugar inteiro desta solidão habitada
onde vivo com Deus e o mundo retirada
e onde existimos contra o esquecimento
porque as palavras são corpo quando 
são música e assim são movimento
correm pelas veias cheias de gente
e se há-de vir a morte
antes virá o amor para dançar no tempo
e dançarei contigo contra o esquecimento
e com as palavras farei um monumento

7 de março de 2014

Fechado para obras

Tenho o romance parado há uma série de dias – bem mais de dez. Nada disso seria importante se não houvesse um prazo a esgotar-se. Não consigo escrever uma linha. Até me poderia perdoar se tivesse escrito um poema em condições. Mas não.
Se tivesse um ensaio para escrever, escrevê-lo-ia, ou uma crónica. Esta inoperacionalidade não afecta ensaios nem crónicas. Muito menos notas ou estes diários que fazemos abertos para acreditarmos que alguém se interessa. Não pela escrita, obviamente, por nós. Inventámos esta rede de ecos para imaginarmos que não estamos sós - somos mais ridículos do que o cliché das cartas de amor.
Toda a gente deveria ser obrigada a casar, a ter filhos, cães e gatos, hipotecas, correntes fortes como a gravidade, empregos de horário inflexível.
Um romance é um luxo voador, anti-gravitacional, ou porque se tem tudo e se trocam pessoas por horas de papel, ou porque não se tem nada e assim a própria existência é desprovida de razão, portanto um luxo – se não fosse a bendita civilização, toda a inutilidade estava morta. RIP.
Há aquelas pessoas que dizem: se voltasse atrás fazia tudo igual. Pois bem, se voltasse atrás fazia-me toda diferente em tudo. Objectivamente científica, nada menos do que uma biologia celular ou uma engenharia genética, solidamente materna, casada com homem daqueles das oito às vinte que chegam mortos a casa quando os filhos já dormem, e não escreveria umazinha só palavra que não tivesse de ser escrita,  e preencheria documentos de forma exemplar e debitaria pensamentos sobre o que fosse como um multibanco notas, certa e com extracto verificável. Saberia sempre o que fazer. 

Que felicidade não ter liberdade. 
Porra que estou farta. Desisto.

Fotos Grafias

Fotografia de Maria João Cabrita


12. ALTO E VERDE
A satisfação imediata que há em fazer ainda pior a quem nos fez tanto mal. Mas depois, florestas queimadas. E saber que somos só uma reacção… é pouco. O coração quer ser mais, quer ser a razão de ser: alto e verde.


FOTOS GRAFIAS, AQUI, DE SEGUNDA A SEXTA

Cherry me


A tristeza é natural, desejar excluí-la da vida é uma aberração como outra qualquer, é natural e não 
retira a perfeição às cerejas. O resto é disposição e disciplina: dedicar aos pequenos prazeres diários a atenção do trabalho; ter no trabalho a alegria que só num prazer. E entre um dia e o outro, dormir ou ter insónias.

5 de março de 2014

comacompão Todas as Palavras


TODAS AS PALAVRAS
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei 
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.





para os muito novos: comacompão era mais do que um chocolate Regina, era uma imperativa sandwich de chocolate.

Mon coeur s'ouvre à ta voix


Foi num desconsoladíssimo ano que comprei este livro no qual, então, durante o tempo de leitura acreditei porque acreditava no autor como escritor. Lembrei-me entretanto que ele se tinha suicidado. Depois disso, fiz uma das coisas que sempre faço: pus a Callas numa gritaria como se não houvesse amanhã. Talvez não haja consolo. Mas se mon coeur s'ouvre à ta voix, há beleza.



2 de março de 2014

As novas aventuras do Capuchinho Vermelho


- Expresso, para quê tantos mapas?
- Para te perderes melhor!

1 de março de 2014

A casa tem pó, mãe

Na quarta-feira fui à gelataria. Sentei-me na esplanada onde sempre me sento. A última vez que lá estive, antes desta agora, foi a vinte de Outubro do ano passado, um domingo a ler o Expresso de sábado. Lembro-me bem porque o Manuel Fonseca tinha então publicado Um Autor, Dois Ladrões, sobre o livro Taxi Driver, um texto de se lamber com chocolate, nata e chantilly: peço sempre o mesmo gelado, nem sei como ainda dura: tantos anos a comê-lo sem chegar ao fim.
Faço isto. Há dois ou três lugares onde vou quando tudo corre bem ou quando tudo corre mal. Não mudam nada, nem o bem nem o mal, nada se altera, mas os sabores mantêm-se os mesmos enquanto o mundo se desconhece, ou o cheiro ainda é aquele, ou é a paisagem intocada. Estes dois ou três lugares, quatro, se calhar mais, têm a maravilhosa propriedade de serem estáveis, ancoram-me: se estou feliz não voo, se estou triste não me afundo: tudo continuará exactamente na mesma depois de mim. Só somos importantes para meia dúzia de pessoas e vamos desaparecendo à medida que elas nos vão desaparecendo.
Na mesa atrás da minha duas senhoras com mais de setenta anos a caminharem para perto dos oitenta. 
A minha filha zangou-se comigo porque a casa tinha pó. E riu-se. Depois explicou à outra que a entendia perfeitamente: levanto-me, faço a cama, tomo o pequeno almoço, vou ao mercado comprar qualquer coisinha, hoje carapaus. Grelhou-os? Não, valha-me Deus, depois tinha de lavar a porcaria do grelhador que não cabe na máquina. Riram-se as duas. Ponho-me a fazer um bocadinho de renda - comprei dois novelos em branco pérola. Na Tininha? Não, no chinês, mas é linha boa e os dois três euros e vinte. Depois vou ao café para não ficar enfiada em casa sem ver ninguém - estive a ver as montras e a Manuela tem uns belos blazers. De fazenda ou tirelene? De fazenda! A seguir chegou a hora da novela e já não me deu tempo para limpar o pó. Quando a minha filha me foi buscar para irmos ao supermercado, disse logo a casa está cheia de pó, mãe. Riram-se as duas. É o tempo, disse uma. É o tempo, disse a outra. Não chega para nada: amanhã já é quinta-feira, é o fim-de semana e ainda ontem foi domingo. É verdade. É verdade.
A filha ainda não compreende a velocidade da vida. É muito rápida e a morte mete medo. É preciso desacelerar as horas, trocá-las por renda rápida nos dedos mas lenta até se fazer uma toalha. E andar devagar a espreitar as montras para levar blazers na retina, sabe lá uma pessoa se é apanhada descomposta, sem manicure nem cabeleiro, ao menos assim tem uma boa fazenda nos olhos. E se a cabra da morte entrar à socapa em vez da filha, pois que espirre dos ácaros.

As minhas insónias são melhores do que vosso sono - to ignite our eyes like fire flies