28 de fevereiro de 2014

Cléo? C’est dommage...


GRANDES MISTÉRIOS DO UNIVERSO VIII
É um grande mistério isto. Os homens são todos um herói qualquer, do Vaillant ao Corto Maltese vale tudo. As mulheres são todas Cleópatra ou Mata Hari. Quando se conhece alguém não se conhece quem quer que se seja que não seja um super-herói da bd ou da história.

Eu, por exemplo, sou a única mulher chata que conheço. Só eu é que sou chata. Todas  as mulheres são maravilhosas, sedutoras, empreendedoras, maduras, dinâmicas, seguras, apaixonadas, delicadas, o diabo a quatro. E eu sou chata. 

Uma das conversas que tive com o meu ex-marido, então marido, prova-o - ó meu Deus, foi há tanto tempo e posso dizer sem mentir que ainda sou tão chata como fui. Adiante. 

Ele oferecia-me livros. De preferência de autores que eu não conhecia e o diabo sabia que eu ia gostar deles. Isto é tudo verdade. Era, olhe, outro mistério: como é que alguém nos conhece melhor do que nós mesmos enquanto permanece um perfeito desconhecido? Enfim, de vez em quando oferecia-me Tolkien(s) em edições de capa mole, baratas, inglesas, porque sabia que eu os perderia. Gostava muito dos tolkiens. Uma noite, estávamos ambos a ler, eu o último Senhor dos Anéis que ele me havia dado de presente repetido e que já perdi, claro. Fechei o livro e interrompi-lhe a leitura:

- Achas que um dia fazem um filme disto?
- Não sei.
- Como é que não sabes, se já leste? Queres coisa mais cinematográfica?
- Não sei, se calhar fazem.
- E achas que é daqui a muito tempo?
- Como é que queres que eu saiba?
- Mas o que é que achas?
- Acho que seria uma grande ideia.
- Então achas que fazem?
- Acho.
- Mas isto é tão grande.
- Eliminam o que não é fundamental.
- E se cortam os ents?
- Os ents ficam.
- Mesmo assim é enorme...
- Fazem como a Guerra das Estrelas, em episódios.
- E se eu morro antes de ver todos?

Não me esqueci porque zás, mal me divorciei, toma lá senhor dos anéis no cinema, em episódios e com os ents. Vi todos, não morri antes - tem de me dar o desconto, casei muito novinha e divorciei-me quando as minhas amigas começavam a casar.

Bem sei, bem sei, sou mesmo muito chata. E também gostava de ser toda Cleópatra. Mas que quer? Mais cedo que tarde a plumagem caía-me e depois não se encontrava o pavão.

26 de fevereiro de 2014

Talvez não saibas os possessivos

AMOR & OUTRAS INUTILIDADES Lda

iv
PRONOMES POSSESSIVOS

Dizer minha querida
meu amor
dizer como quem sente
a impossível apropriação da pessoa
pelo pronome
uma questão territorial
definida pelo usucapião do verbo amar
e porque é impossível
dizer inteiramente
como quem mais que sente
enuncia uma verdade absoluta
Não sei no entanto
se ainda se ama
neste tempo em que se facebooka

23 de fevereiro de 2014

Fotos Grafias: Curso de Revelação do Invisível

Vivemos saturados de imagens. As fotografias já não se revelam em câmaras escuras, exportam-se à velocidade do telemóvel. 

Há milhões de palavras a circular em cada segundo: o pensamento é um tweet. 

Fotos Grafias é um curso de revelação. Curso de revelação do invisível.

Fotografias de Maria João Cabrita
Textos de Eugénia de Vasconcellos 

Todas as segundas-feiras, aqui.
Ps: segunda-feira começa às 00:02 (Please don´t ask... nem tenho Facebook. A Maria João é que sabe.)


A puta da vida é um milagre

Sei que tenho a infância comigo. Mas só agora que estou a entrar na matura idade adulta descubro a força da floração da juventude - sou uma besta feliz. A puta da vida é um milagre.

22 de fevereiro de 2014

A minha querida lista negra

O meu avô deu-me presentes atípicos, já contei. Aqui, por exemplo. Também me ofereceu um candeeiro de tecto que talvez um dia volte a contar.
A minha Hermes Baby cor-de-laranja não a pedi, nem sequer sabia que existia, foi uma grande e linda surpresa apesar de pequenina como eu então era. Porque quando eu era pequena ia ser escritora quando fosse grande: de romances, poesia, escreveria para os jornais, enfim, uma vida de letras. Ora, uma pessoa que passa o dia a escrever não se governa só com os Cadernos Flecha da Papelaria Fernandes, os melhores do mundo para tomar notas, precisa de teclas.
Este texto foi publicado no blog É Tudo Gente Morta, no dia 19 de Novembro de 2009. Republico hoje por grande culpa do Manuel Fonseca e para estrear as belas Trasladações e Outras Ossadas que o nosso Nuno criou para nós no Escrever é Triste - só mimos e vontadinhas.

A MINHA QUERIDA LISTA NEGRA
Quando era pequena, muito pequena, pensava em quando fosse crescida.

Quando eu era crescida nesses dias de ainda tão pequena, era crescida sempre de saltos altos e vestido, saia, às vezes calças, dezoito anos crescidos ou mesmo vinte, bem cuidada, composta, uma senhora, pois claro. Seja sempre uma senhora, ouviu? Sim, avó.
Quando eu era uma senhora, era obviamente casada e vivia numa casa onde as janelas francesas da salinha de estar da casa portuguesa abriam para um pequenino jardim de Inverno: uma árvore grande à sombra da qual uma mesa e duas cadeiras e eu sentada de saltos altos, bem cuidada, composta, e obviamente porque

quando eu era pequena era sempre casada. Os maridos mudavam: o Pedro Bala, o Duque Próspero, o Che Guevara, o Eça só dos Maias...
 
Quando eu era pequena escreveria sempre à sombra desta grande árvore, logo não estivesse a chover, duas cadeiras, eu sentada numa delas, ao lado a cadeira vazia, a cadeira de quando o marido em casa, e eu escrevia já quando era pequena histórias na minha Hermes Baby cor-de-laranja, mas com papel químico para o caso da cadela comer algumas folhas, ou de eu perder a pasta de cartão com elástico onde guardava os originais - as folhas dos leitores, folhas à solta, perdiam-se sempre nem que fosse do desgosto crítico-cítrico da minha avó. Ó. Escrever tudo outra vez até que um dia: muito bem, em condições. Nunca chegou o dia porque não chegou o tempo.

Quando eu fosse grande também teria um cão e papel químico de dedos azuis, e ao lado da minha máquina de escrever estaria um cinzeiro porque quando eu fosse grande haveria de fumar como a minha avó: um movimento longo, ascendentemente lento, elegante na ponta dos dedos de bailarina. E depois do intervalo do pensamento, durante o ininterupto tac-tac, o cigarro a queimar-se no cinzeiro em equilíbrio incandescente. Sempre acompanhada pela ausência do marido porque a presença do Amor é muito forte na cadeira vazia.

Quando era pequena, quando os meus maridos chegavam, ouvia com muita atenção o que eles tinham para contar de tudo lá de fora e depois do jantar, ao chá, na sala, eu contava de tudo de cá dentro. O cão dormitava na nossa sala, ao chá de depois do jantar, quando era pequena.
Quando eu era pequena, com alguns maridos a vida era mais movimentada do que com outros. Com o Michel Strogoff, por exemplo, era uma vida de estrada, os dois juntos, também gostava disso, além do que a Hermes Baby era portátil, leve, tinha uma alça, era uma mala se a casa era viagem. Até porque de botas de montar também se é uma senhora, e uma mesa e duas cadeiras em qualquer sítio do mundo há, pode-se ouvir tudo mesmo em estrangeiro, e contar de tudo em português em qualquer lugar se pode, e assim escreveria de fora para dentro, para Portugal, porque Portugal decerto haveria de querer de saber de fora tal qual como queria saber quando eu escrevia de dentro de casa para o mundo lá fora.
A casa não tem um pequenino jardim com uma árvore grande à sombra da qual, ou Amor algum na cadeira vazia. Uso ténis vezes demais e penteio-me vezes de menos. Tive um Toshiba cor-de-laranja, portátil - avariou já não sei quando. Não fumo há mais de quinze anos e Portugal não quer saber: decerto escrevo e escreverei. 

Mas à noite, na sala, enquanto tomo o chá, o Cão dormita.

15 de fevereiro de 2014

Blood Meridian

BM-cover
See the child. He is pale and thin, he wears a thin and ragged linen shirt. He stokes the scullery fire. Outside lie dark turned fields with rags of snow and darker woods beyond that harbor yet a few last wolves. His folks are known as hewers of wood and drawers of water but in truth his father has been a schoolmaster. He lies in drink, he quotes from poets whose names are now lost. The boy crouches by the fire and watches him.

Night of your birth. Thirty tree. The Leonids they were called. God how the stars did fall. I looked for blackness, holes in the heavens. The Dipper stove.

The mother dead these fourteen years did incubate in her own bosom the creature who would carry her off. The father never speaks her name, the child does not know it. He has a sister in this world that he will not see again. He watches, pale and unwashed. He can neither read nor write and in him broods already a taste for mindless violence. All history present in that visage, the child the father of the man.
Cormac McCarthy in Blood Meridian
BLOOD MERIDIAN, de Cormac McCarthy 
Cormac McCarthy escreve visões. Visões do mundo como ele é naquele instante em que se lhe revela. E da sua mecânica. Talvez pela primeira razão, a paisagem, a imensidão, seja antes de mais lugar de rapto do leitor como foi rapto do autor. E talvez pela segunda Blood Meridian seja uma parábola tanto quanto, na expressão feliz cunhada por H. Bloom, o definitivo western*. E assim não será o regresso ao sentimento épico, a uma ideia de grande, grandioso? Nesta obra perfeita a própria linguagem é pura música cadente para aquela vida cor de cinemascope. Para mostrar com toda a exuberância, e usando como pretexto o paradigma norte-americano, sincrético, onde a exaltação dos valores da revolução francesa se aliaram ao protestantismo mais branco, o modelo do universo em vermelho sangue. Como se extrai tamanha poesia do horror? Há estética sem ética?
Esta parábola é construída canibalisticamente. Na verdade toda a literatura e poética são - se as palavras tivessem calorias, os escritores eram gordos se não fossem prolíficos. Já não me lembro quem foi, se Goethe, ou quem, falava em ingestão. Foi Joyce? Usamos os pensamentos dos outros para os pensarmos, nos pensarmos, e agora, nesta hora literária em que, como tão bem disse Steiner a propósito de Hemingway, já não basta dizer Roncevaux para que o vasto público leitor logo antecipe a traição, agora nesta hora explicativa de Roncevaux em nota de rodapé, nesta hora em que as referências dos mais elementares conhecimentos, lugares fundantes da cultura que somos, são tidas por erudição, como ler Blood Meridian? Há quem leia McCarthy no cinema – confesso não o ler no ecrã, quando vi o cartaz de um dos meus livros da vida, The Road, tive medo: por muito bonita que a Charlize Theron fique mesmo enrolada em farrapos posso garantir que na estrada ela não estava. Enfim, derivo.
As referências de McCarthy em Blood Meridian, como em qualquer outro romance seu, são explícitas, não por mal digeridas, mas porque ele é um homem de reescrições, e aqui temos a  Bíblia, punitiva, protestante, redentora, revista por ele no silêncio de Deus até na cruz do Seu próprio Filho, e Moby Dick muito para além da dinâmica Captain Ahab-Jugde Holden, chegando à revisão do próprio texto de Melville – McCarthy não é para meninos nem tem medo de caras feias. Há mais referentes, e os de base como Chamberlain, usados na investigação, porém estas duas grandes obras colaboram na elevação de facto a ficção, e de ficção a mito, portanto, estão em Blood Meridian como Jonas dentro da outra baleia.
Claro, isto dito assim parece uma seca do caneco, tem razão, mas é preciso levar para dentro desta leitura, pelo menos uma ideia de ambas, ainda que assim, pela rama. E a ideia de mistério e de mal. Sim, ouviu bem: mistério e mal. Pensamentos clássicos, ambos substanciados, quero dizer, feitos carne e ossos de gente, logo traduzidas em acções dos personagens naquela acção maior: o tal western. Porquê?
Porque Blood Meridian é um livro que oferece resistência, quase não se deixa ler apesar do lirismo, usa-se da carnificina para nos fazer fechar os olhos e não ver. Blood Meridian vê-se. Precisamos de força anímica. E essa força vem de trás, da Bíblia sanguinária, da crueldade exposta por Melville. E depois abre-se. Como o céu apocalíptico. E vendo o tempo, o tempo que foi, vemos o agora e o fim dos tempos. É terrível. É majestoso.
Há a violência como condição da existência, expressão de vida, expressão divina, expressão humana, de superioridade humana. Sou da convicção de que todo o romance bem construído mostra no átrio a sua intenção como um neófito: basta ler as palavras iniciais para recebermos a chave. McCarthy dá-nos a súmula pela voz de Paul Valéry, your acts of pity and violence are absurd, do extraordinário Jacob Böhme, death and dying are the very light of the darkness, e finalmente, the reexamination of a 300.000 year-old fossil skull (…) showed evidence of being scalped. E sabemos a porta que abrimos.
Entramos.
O Tratado Guadalupe-Hidalgo de 1948 fechou a guerra entre mexicanos e americanos. No entanto.
Há um bando comandado por Glanton. São caçadores de escalpes. Cada escalpe de homem, mulher, ou criança vale duzentos dólares. Quem os paga? O governador. Quem os recebe distingue entre o escalpe de um índio ou o de um mexicano? Se não fosse paga a violência existiria? Sim, de todas as formas gratuitas e incondicionais ela aparece ao longo de Blood Meridian porque está na génese e na síntese de Blood Meridian na reescrição de Heraclito que disse: A guerra é o nosso Pai e o nosso Rei. A guerra revela quem é como deus e quem é apenas humano, quem é um escravo e quem é um homem livre. McCarthy na voz de Holden conclui: War is God. Existe. É uma condição da natureza à qual só se pode responder intimamente, mentindo e dizendo a verdade em simultâneo, You ain´t nothing e morrer da morte que vier. Por isto, se lhe passar pela cabeça fazer uma leitura social e política da América imperial quando focar a sua atenção neste bando que entre México e o Texas, matou, torturou, escalpelizou, violou, perde.
Há the Kid, nascido no Tennessee, órfão de mãe logo à nascença, pálido, esguio, de olhos inocentes, órfão de pai quando saiu de casa cedo, com uma vontade de violência para além do significado.
Há o Judge Holden surgido do deserto sulfúrico e de um pacto com Glanton. A ele o tempo não toca, mantém as suas características físicas inalteradas ano após ano: a carne terrível, imensa, albina, sem um único pêlo, sequer pestanas, super-potente, sobre-humano.
Há o ex-pastor Tobin.
Há mais gente.
E vou dizer-lhe uma coisinha, inha, inha: McCarthy faz com Holden e the Kid o Roncevaux de Hemingway para o que não se diz da natureza humana porque quando é dito é-se maldito como Sade.
Depois há aquela coisa dos prodígios. McCarthy é um dos últimos romancistas vivos. Protegeram o lince ibérico, os romancistas não, e estes vão-se extinguindo. No século dezanove saíam debaixo das pedras. No século vinte um, extinguem-se. É natural. No século dezanove não havia rádio, televisão, cinema, internet. Esta é só mais uma mudança de modo de uso da linguagem. E que bom podermos ter ainda a beleza da arquitectura do romance e na frase em papel, nas nossas mãos: McCarthy é o lugar entre Faulkner e Roth, assimilado a Faulkner, avesso de Roth e por isso mais complementar a Roth.
Ninguém escreve como ele. Ninguém sabe deixar tanto vazio e criar um mundo tão denso, a verdade é que lhe poderíamos fazer mil perguntas. Mas, de facto, elas são necessárias?
*era o próprio McCarthy quem se referia ao seu trabalho na altura em que o fazia como o seu western. Bloom sobredimensionou este conteúdo muito justamente – isso não significa que lhe possamos perdoar o despropósito de meter DeLillo na mesma prateleira que Faulkner, McCarthy, Roth.

14 de fevereiro de 2014

Bonjour São Valentim!

John Callcott Horsley, The Morning of St Valentine, 1865


13 de fevereiro de 2014

12 de fevereiro de 2014

Do Branco ao Negro - ROSA


A Sextante Editora publica, a 21 de Fevereiro, Do branco ao negro, uma colectânea de doze contos coordenada pela jornalista São José Almeida e ilustrada por Rita Roquette de Vasconcellos, onde cada história tem por base uma cor. 
São de diferentes origens e estilos as autoras que participam neste livro: Ana Luísa Amaral, Ana Zanatti, Clara Ferreira Alves, Elgga Moreira, Eugénia de Vasconcellos, Lídia Jorge, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Raquel Freire, Rita Roquette de Vasconcellos, São José Almeida e Yvette Centeno. Cada uma conta, neste livro, uma história em homenagem aos que vão perdendo a sua capacidade de as contar, uma vez que os direitos de autor revertem na íntegra para a Associação Alzheimer Portugal.
Do branco ao negro será apresentado na 15.ª edição do Correntes d’Escritas, no dia 19 de Fevereiro, às 21:30, na Sala Eça de Queirós do Hotel Axis Vermar, na Póvoa de Varzim.

Assim, em tão boa companhia, e com o boneco da querida Rita, deixo-vos só um bocadinho do meu conto, da minha cor: Rosa.

ROSA
(...)
Ficaram logo as melhores amigas. O pai de uma era intelectual e de esquerda, o pai da outra fizera a guerra e emborcava aguardente com tiros de metralhadora e horrores desmembrados que não se contam em alfabeto civil goela abaixo. Só em código morse. Quando as recordações deram em apontar-lhe o dedo, passaram-no na última comissão para as comunicações e agora, por causa das duas miúdas, a sua própria e a outra, recebia e enviava mensagens ao vizinho doutor em copinhos de um gole só. Saúde, senhor doutor.
(...)

11 de fevereiro de 2014

Girls, forget your balls and grow a pair of tits


I suppose I should tell you
What this bitch is thinking
You find me in the studio
And not in the kitchen
I won't be bragging about my cars
Or talking about my chains
Don't need to shake my ass for you
'Cause I've got a brain
If I told you about my sex life
You call me a slut
Them boys be talking about their bitches
No one's making a fuss
There's a glass ceiling to break, uh huh
There's money to make
And now it's time to speed it up
'Cause I can't move in this place
Sometimes it's hard to find the words to say
I'll go ahead and say them anyway
Forget your balls, and grow a pair of tits
It's hard, it's hard
It's hard out here for a bitch
lailailai
You should probably lose some weight '
cause we can't see your bones
You should probably fix your face
or you'll end up on your own
lailai
It's hard, it's hard
It's hard out here for a bitch
CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - viii
Lily Allen, a sweet girl
A 17 Novembro, Lily Allen, Lily Rose Cooper, lançou o single Hard out here, do seu terceiro álbum em estúdio que sairá a 14 de Março. É muito politicamente correcto. Acho que ganhará prémios - vamos esperar para ver. A imprensa deu gás a uma discussão que começou nos blogs e plataformas feministas. Tentam fazer da miúda uma bandeira, ou mesmo duas. Falo disto agora porque se aproximam os Dia dos Namorados e da Mulher e não gostaria que faltasse assunto, ou vontade, ou o contrário. Antes da discussão, vamos ao single propriamente dito.
Este tema é uma resposta directa a Robin Thicke em Blurred lines. Robin Thicke tem no seu videoclip, em letras bem visíveis, Robin has a big dick. E as mulheres são tratadas por bitch. Em Hard out here, em balões gigantes e prateados de sarcasmo, lê-se: Lily Allen has a baggy pussy. Esta é também uma resposta ao sexismo da indústria musical dominada pelos homens, neste men´s world e, portanto, uma reposta à objectificação da mulher. Tudo isto segundo a leitura da própria Lily Allen que, aos vinte o oito anos, e acabada de se estrear na maternidade, viu a sua imagem de estrela da pop ser questionada na praça pública através dos media.
Porquê? Porque o seu corpo não se adequava à imagem que media, público e indústria pretendiam. Lily Allen marca então uma intervenção cirúrgica: lipoaspiração e abdominoplastia - resumindo, barriga, costas, joelhos, tornozelos e já não sei se mamas ou não. É então que descobre que está grávida outra vez. Adeus plástica. Vem a segunda filha e, para fechar o assunto sem anestesia geral, este tema Hard out here que aponta alguns dos double standards que nos regem, a nós, homens e mulheres.
Para as feministas do costume, este single é feminismo do bom porque desanca os homens, a misoginia, a indústria musical dominada pelos homens, o mundo dominado pelos homens, o estereótipo da mulher enquanto objecto de satisfação sexual construído à imagem do desejo do homem, a falta de paridade e toda a parafernália do costume. A própria miss Allen, desconfio que fortemente influenciada por Pink e afins que têm uma visão conservadoríssima e politicamente correcta do feminismo, tem uma saída na letra que não é nada Lily e muito menos Rose. E é a saída logo à entrada: Isuppose I should tell you what this bitch is thinking/ You´ll find me in the studio and not in the kitchen/ lailailai/ Don´t need to shake my ass for you ´cause I´ve got a brain.
Ora, qualquer miúda com brain sabe que a cozinha é um lugar tão bom para ser mulher quanto o palco ou a medicina. E afirmar que quem tem brain não está em qualquer papel tradicional feminino, é negar valor a esse papel só porque ele foi/é também um constrangimento. Pior, shake the ass é uma forma de poder. Poder sexual. E quem tem brain também sabe isso. Mais, usa isso: viu Rihanna e Shakira a queixarem-se muito em Can´t remember to forget you, o videoclip da dupla que deu volta ao juízo da população masculina e disparou o valor de mercado de ambas? Sim, a indústria da pop é um negócio. Enfim, aquelas duas mulheres de negócios, pop stars, material girls, não se queixaram. Enrolaram no dedinho mindinho a fantasia de qualquer homem de mergulhar no meio das duas e ser bendito entre as mulheres e fizeram uns valentes trocados. Aliás, Shakira já o tinha feito antes com Beyoncé, em Beautiful Liar, uma versão pop de C´est obscur object du désir, Buñel de MTV. Porque é disto que se trata: negócio. E fantasia erótica tangente à pornografia para saturar a retina. Fantasia que depois levamos para a cama, mas isso é outra conversa.
Por outro lado, para as feministas que descobriram a mulher negra, ou a que não pertence à classe média e branca, quando estas chegaram ao poder e lhes apontaram o dedo com mais de cem anos de atraso, o videoclip Hard out here é racismo e objectificação da mulher negra/asiática/de baixos rendimentos pela diferença de papéis e raças (e de rendimento?) entre a cantora e as bailarinas. Não aceitam a explicação mais simples que costuma ser a verdadeira: foram escolhidas as melhores dançarinas do casting. Pelos deuses, quer comparar uma bailarina, ainda por cima negra com séculos de twerking nos genes das belas nádegas com a maioria das branquelas? E não me mace a dizer que estou a ser racista também, prefere o quê?, ver, olhe, o samba dançado por alguém na Portela ou na Beija-Flor ou no Carnaval de Ovar? E porque é que a própria da Lily Allen não está descascada como as bailarinas? Porque tem muita curva boa, porém de mulher normal, e não é bailarina. Ou seja: tem medo de não corresponder às expectativas irrealistas da sua própria cabeça - e está a justificar o tal brain. Quem disse? Digo eu.
Aliás, é por estas patetices que se gosta de Lily Allen, este é o seu apelo: a frágil humanidade. As inseguranças. As zangas, o I'll go ahead and say them anyway. Lolita. Não ser uma mulher adulta, apesar da idade - é mais velha do que Rihanna e esta é uma mulher feita. Não gostamos de Lily Allen por ser paradigma do feminismo nem role model de quem quer que seja. Ela é aquilo que todas as miúdas são. Quer ver?
Não é tão magra quanto as revistas pedem e gostava de ser. Sente vergonha de aparecer em bikini porque engordou. Tem distúrbios alimentares. E ainda por cima tiram-lhe fotografias e plasmam na imprensa quando bebe demais, ou porque chorou no meio da rua quando o namorado a deixou - e ela lhe fez uma canção tão bonita quanto pirosa. E também tem conflitos com a indústria a que pertence, com os colegas, com quem a emprega e com os seus pares, portanto. Diz mais palavrões do que a Julie Andrews, o que toda a gente sabe, não é fácil, dá respostas impulsivas, juvenis e na ponta da língua, arrepende-se. E tudo isto com aquele ar trendy, e um bocadinho kitsch, de boa menina que faz asneiras em público como qualquer boa menina as faz em privado porque não tem a vida nos tablóides.
Claro, por outro lado, Lily Allen não é nada como as outras miúdas. É uma estrela da pop, rica, casada, com duas filhas e uma carreira de grandes perspectivas agora que faz parte da Warner. Portanto, ao contrário das miúdas que querem um dia ter tudo, Lily Allen já tem tudo.
Até tem o que não precisa: patrocínios feministas e protestos feministas. Porquê? Porque Lily Allen é feminista com a plataforma feminista da geração da minha mãe. E porque não pensou no assunto, saiu-lhe, estava chateada, plásticas, filhas, corpo, Robin Thicke... Bum! É natural nela. E depois foi uma bola de neve. O que lhe saiu bem, mas mesmo bem, foi: forget your balls and grow a pair of tits. Porém, dirigido às mulheres, não aos homens. Porque o poder feminino não está na replicação do poder masculino. Mas no exercício do poder feminino e este além de brain inclui mamas, não tomates.
O feminismo tende a ser um lugar onde se não estás comigo és contra mim em cada uma das suas capelas. No entanto, pode-se muito bem estar sozinho. Ou mesmo servir a dois senhores. Ou concordar aqui e discordar ali. A vida não é o PCP: a coerência é quase sempre uma pobreza intelectual. E nós, como a Lily Allen, somos pessoas cheias de contradições.
Uma notinha final. Em controlo da própria vida está quem provoca a reacção, não quem reage. Resumido: mulheres proactivas são Beyoncé, Rihanna, Shakira, Jennifer Lopez e outras máquinas de eficácia pop feminina que não andam com uma fita métrica a chorar o próprio, vá, rabinho, preferem transpirar no ginásio.

10 de fevereiro de 2014

Tempestade Stéphanie?, onde é que já ouvi isto...

DEU-LHE UM RAIO DE UM OURAGAN NA COBERTURA
lailailai ouragan

de rocha era a lã
lailailai
agora só terça-feira
voltamos à brincadeira
lailailai
 Bikinis subidos e chumaços, não voltem, please...

7 de fevereiro de 2014

Paris contigo dentro

Uma vez, há vinte anos, talvez menos, pensei vou morrer e não fiz nada, falta-me quase tudo. Este foi o último pensamento que tive, e fiquei tão triste comigo mesma, de uma tristeza tão funda, que nem teria palavras para a dizer. Quando acordei no hospital estava dentro da tenda do E.T. e mesmo médicos, enfermeiros, estavam vestidos como no E.T.: fatos inteiros, luvas, máscaras, óculos. Não sabia se estava a sonhar com o E.T. quando, na cama do lado, vejo a minha irmã que me diz: finalmente acordaste. A mãe está ali. O ali era atrás de um vidro à altura do rosto que a porta tinha. Foi então que percebi que a coisa devia ser grave apesar de estar viva.

Fiquei a saber que também o namorado da minha irmã estava internado noutra tenda de E.T.. Nos períodos pequeninos em que estava consciente faziam perguntas: em que país tínhamos estado, o que tínhamos comido, se tínhamos estado em contacto com algum animal. Perguntas de maluquedo, o twilight zone verdadeiro. Havia uma banheira com água e gelo. Ou então era só água muito fria. Não me recordo bem – para escrever isto tive de perguntar como fomos para o hospital, não tenho memória disso, fui a que esteve pior e durante mais tempo.

Depois levantaram a tenda e despiram os fatos do E.T.. Não era nada infecto-contagioso. De qualquer maneira estávamos quase sempre a dormir porque a febre era muito alta. A coisa durou cerca de sete dias. E foi inconclusiva.

Para mim, no entanto, foi conclusiva. Diante do não fiz nada, resolvi fazer alguma coisa. Isto há vinte anos. E descobri que o mundo não se compadece de resoluções. Não consegui publicar o que quer que fosse onde quer que fosse. Nem ter uma só resposta de um qualquer jornal ou revista. Não havia lugar para mim em qualquer editora, agência de publicidade: nada em lugar algum. Ninguém queria ler o que eu escrevia, ninguém sabia quem eu era, nem ninguém queria saber - nem eu estava disposta a ser apresentada por uma figura tutelar que garantisse o que quer que seja que tais figuras garantem. Assim é a vida.

Isto porque tenho uma amiga de infância, fomos colegas de colégio, que todos os anos me oferece o Poemário da A&A. Quando era pequenina queria ser escritora, na quarta classe já tinha a certeza absoluta e esta minha amiga também. E no nono ano já a minha feroz professora de português que me gritava Vasconcellos, quadro!, tinha a mesma certeza. Foi com estas certezas e a oposição da família inteira, vivos e mortos, mais a oposição do mundo empregador, que andei ano após-ano naquele supra referido porta-a-porta qual Testemunha de Jeová até me fartar e dizer nunca mais. Minto. A minha avó sabia-o.

Quem havia de dizer que esta oposição é um bem? E dizer nunca mais outro bem? Não se pode escrever porque outros dizem que podemos escrever. É igual ao amor, é porque sim, não é precisa autorização. Escreve-se e acabou-se.

Hoje no Poemário da minha amiga repete-se o dia de há quase vinte anos atrás num poema de António Franco Alexandre. Conto um bocadinho desse poema:

E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava a “morte”;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.

O meu álbum é o mais incompleto dos álbuns que conheço. Não tenho as conquistas dos outros para mostrar – nem as minhas porque foram desconseguidas. É como o meu telemóvel. Não tem fotografias de filhos. Nem de marido. Nem de almoços de colegas, não tenho colegas. Falta-me ver Paris contigo dentro como me faltas tu, e como me falta quase tudo, e sei que vou morrer, um dia. 

Talvez não tenha feito nada, mas não me vejo a fazer outra coisa.

5 de fevereiro de 2014

A educação da alma

A EDUCAÇÃO DA ALMA
É muito difícil a quem tem um carácter
combustivo a aprendizagem da contenção
Vai-se à natureza como os outros vão à escola
aprender a respiração das marés e a sabedoria
da primeira onda que acolhe o atrito 
e não responde para que a segunda onda 
deslize sobre a água e chegue mais acima


Toda a contenção visa a expansão

4 de fevereiro de 2014

vi - Tenho de explicar tudo, eu?!

Está chateada, aquele chateado que só nós les girls compreendemos, de a um chocolate de um palmo chamar um figuinho e depois comer um gelado com chantilly? Está tão chateada que quer cortar o cabelo já que não pode deixar de ser quem é e de sentir aquilo que sente? Está tão para lá de chateada que lhe apetece desatar à estalada, armar-se em vândala e atirar prateleiras de loiça e livros ao chão?  Então não sabe que não se dão argumentos ao inimigo? Sabe, claro que sabe. Quer engordar? Não quer. Castigar-se? Não. Quer ser maluca e ter uma trabalheira a limpar e arrumar tudo para depois se sentir mil vezes pior? Não. Sou uma santa eu, é o que sou. C´est comme ça! Célia Cruz: la vida es un carnaval. Coreografia fácil, fácil. Mas de saltos altos vai sentir-se melhor, empowered - power não é powder. Fizeram farinha consigo? Pois muito bem, faça um bolo para a devolver.




todo aquel que piense que la vida es desigual
tiene que saber que no es asi
que la vida es una hermosura hay que vivirla 
todo aquel que piense que esta solo y que esta mal
tiene que saber que no es asi 
que en la vida no hay nadie solo - siempre hay alguien
ay no ha que llorar que la vida es un carnaval
es mas bello vivir cantando
ay no hay que llorar 
que la vida es un carnaval
y las penas se van cantando



 


1 de fevereiro de 2014

E só nós permanecemos imorais e puros*

Ouço dizer: não há milagres. E ouço-o com a maior atenção. Gente inteligente. Bem sucedida. Com um sorriso. Com segurança ou com ironia. Ouço, noutro tom, de quem queria e não tem: não há milagres. Porque houve a perda que marca o antes e o depois. Ou porque haverá a perda e o que o relógio conta é já o tempo decrescente.
Eu não acredito em milagres. Eu sei que há milagres. Mesmo agora tinha bem cavada a certeza de que não escreveria nem mais uma só palavra, que desistiria de todas, outra vez, de uma vez por todas, e aqui estou – sim, também as notícias da minha morte são manifestamente exageradas. E não é o meu desconhecimento de mim mesma que faz o milagre. É o mundo. E forma como colide com ele mesmo e comigo.
Há um momento em que o dessentido ganha o domínio e logo a seguir reina. Abre-se o caos. Doença, morte, nascer a norte ou sul, debaixo da guerra ou a céu aberto. Ver como é pago o bem e como é pago o mal, o amor no lixo e recém nascidos no lixo.
Tudo isto é Bosch e não estou a falar de electrodomésticos.
Não consigo, e penso que não consigo mais. Nada dói, não há desgosto. Só desolação e impotência. A devastação é devoradora. Uma solidão sem remédio.
E do nada, do fundo repetido do ecrã de quando era pequena, ouço claramente, não Deus, tire daí o sentido, na sala não me ardem sarças nem com a lareira a queimar bem, a voz clara de Julie Andrews a cantar Something Goodnothing comes from nothing, nothing ever could, so somewhere in my youth or childhood, I must have done something good . Claro que não tenho diante de mim alguém a quem possa dizer, concluindo a canção, for here you are, standing there, loving me whether or not you should. As pessoas, mesmo as que amamos, são-nos tiradas, mesmo contra vontade, não as podemos reter. Morrem. Partem. Até mesmo nós podemos, de um momento para o outro, ser retirados de nós. Demência ou outra tragédia qualquer.
Mas duas ou três coisas, nem que seja por uns segundos, temos, são nossas e ninguém tira.
A certeza de que cada dia é uma dádiva. Sei lá eu quantas vezes poderia já ter morrido, fracturado tudo, ter feito mil vezes pior do que fiz - e se há coisa que faço bem é fazer errado. E se a palavra que disse alta demais, ácida demais, carregada demais, transbordou desesperada num temporal qualquer no sul da Índia? Não é isto a concreta teoria do caos? Não é apenas feita de asas de borboletas e furacões japoneses abstractos. Há este impossível fio, e invisível fio de responsabilidade que nos atravessa a todos e nos liga uns aos outros e as coisas, árvores e rios também.
A certeza de que este caos é meu. Também o fiz. Também o faço. Tudo o que colho no exacto momento em que verifico que é impossível escrever uma só palavra mais, no meio da solidão sem remédio, é meu. Mas devo ter feito qualquer coisa boa, um bem qualquer, espreitado a verdade por um instante. Porque dentro desta dávida que é a vida, do caos que ela é, há outras perplexidades, o jantar feito, um casal de miúdos a inventar a paixão pela primeira vez, o filho que olha para o pai com aquele olhar que só o filho tem para o melhor pai do mundo. Tenho observado tudo, e muito o que não me coube, que é uma maneira viver em segunda mão e saber como se fora em primeira - eu sou uns grandes olhos que em isto tudo há.*
A certeza de que tenho andado noite após noite a ler um milagre a rebentar pelas costuras dos versos, Todas as Palavras, de Manuel António Pina. E também por isso sei: I must have done something good.
* do poema Imorais e Puros, de Manuel António Pina