31 de dezembro de 2013

O que raio é isso de bjs?!

Já aqui expliquei as razões amorosas e erotolailai. Mas mesmo entre amigos. Conhecidos. Vá, por mera cortesia. O que é isso de bjs? Bjs?! BJS? Não me atirem consoantes à cara, que nervos! Kiss me e acabou-se.
Ps: Se clicar no artigo, ele fica de tamanho legível. Merci. Kiss

30 de dezembro de 2013

A cautionary love tiny tale

Run, Baby, Run
- Se queres que vá, dá-me a chave para abrir a porta.
- A porta não está trancada.
- Então, porque não consigo sair?
- Vives no passado, o futuro nunca chegará.

22 de dezembro de 2013

Diz a dona e diz o Cão: Boas Festas de livro na mão

Madame de Pompadour d´après Boucher, perdão, EV et Chien d´après RiVta

21 de dezembro de 2013

Bonjour Inverno!

běifāng yǒu jiārén juéshì ér dúlì
yí gù qīng rén chéng zài gù qīng rén guó
nìng bù zhī qīng chéng yǔ qīng guó
jiārén nán zài dé
lai lai lai lai 
běifāng yǒu jiārén juéshì ér dúlì lailailailai

Sim, tem razão, saudamos sempre o Verão e o Inverno da mesma forma - é para eles saberem que somos nós.

20 de dezembro de 2013

Cancioneiro, perdão, Cãocioneiro de Natal

Há mais de 13 anos que tenho o meu Cão comigo. Antes dele nascer já estava à espera que ele chegasse a casa. Toda a gente sabe. Andei mais de um ano à procura do Cão porque ele se esqueceu de avisar que ainda não tinha nascido. Só por causa disso estive para lhe chamar Cãolai Lama.

Canto-lhe canções patetas quase todos os dias - o Cãocioneiro de Natal é o que lhe cantei hoje no carro, no regresso a casa, vindos do veterinário. Se quiser repetir uma canção, a patetice é tanta que não consigo. É natural: as melhores coisas que fazemos na vida não valem nada. Descobri isso porque o Cão no banho transforma-se em gato. Para aquela aflição molhada não saltar suicidariamente da banheira e me arranhar os braços o menos possível, cantava-lhe variações disto, acrescentando bichos em cada repetição, e sei lá o que mais:
 
 
Ter um tigre da sibéria 
na banheira é um perigo
Ter um urso com um tigre na banheira 
ai que pavor, 
Vou chamar o meu querido 
senhor Cão para me salvar deste horror
CÃOCIONEIRO DE NATAL
Este Cão é o melhor que há no mundo
das quatro patas, das duas patas, 
das cem patas, que a centopeia
e do que a baleia, este Cão é melhor.
Este Cão é melhor do que um balão a passear, ó, pelo ar
do que estourar um balão, pah!, é melhor.
Não há melhor do que este Cão nem no Natal,
este Cão não tem rival, não tem igual
e é todo meu e só meu - ah ah ah ah.

Um lindo presente de Natal...

Sim, ela vai gostar... E ele, se tiver juízo, também.

18 de dezembro de 2013

Control Freak? Oui, c´est moi...

O verdadeiro control freak, perdão, controlador de fritos, sonhos, rabanadas, e mais doces conventuais, mousses, pâtés, rillettes e colheitas tardias, é o que, como eu, faz dieta antes do Natal. Haja saúde, aveia integral, gérmen de trigo e farelo do inferno para tanta chaladice. Cristo!

Ps: fujam que vem aí o Pai Natal!, quero dizer, o colesterol e as bombas de açúcar.

17 de dezembro de 2013

Mokambo

UM BOM-DIA COM MOKAMBO
Tenho estado aqui à procura de uma palavra
não queria dizer mágica
irrita-me a palavra mágica
mas na verdade é mágica a palavra que procuro
pode ser o voo nas asas do xamã
ou qualquer gesto que enrole o tempo para trás
até mesmo o bastão de prodígios 
de onde nascem serpentes 
e a chave que abre o mar em dois
Eu que tenho a mania vitamínica da saúde
redoxon centrum alhos envelhecidos soja ácidos gordos
penso que vou ter um exacto enfarte a qualquer instante
e penso que esta hipocondria saiu de areias imprevistas
ferventes como líquido metal inesperado depois de sólido
- sei muito bem já estive no deserto
E penso enquanto pensas que é mentira vais morrer de facto
É ansiedade um ataque de pânico querem lá ver olha não é só aos outros
se vais morrer ao menos que seja a escrever 
mesmo uma merda qualquer serve se vais morrer
Lembro-me do reclame a não-café de quando era pequena:
parece que é mas não é 
que gosto que satisfação
Brasa é bebida 
que aquece o coração
É isso parece que é mas não é é um bom mantra às quatro da manhã 
yoga que gosto que satisfação em meia dúzia de posturas lentas
pombo ponte roda
abrem o peito inspira expira inspira
aquece o coração
O único clarão há-de ser o da folha branca no ecrã
porque ainda não escrevi nada do que quis escrever
e amanhã vais ter um bom dia com Mokambo

15 de dezembro de 2013

O caminho do céu

Vou fazer-lhe uma pergunta. Feche os olhos e responda em silêncio. Ninguém vai ouvi-lo.
Quem o ama? Quantos são?
Não vale mentir. Nem vale dizer, o que é o amor, afinal? Vamos simplificar. Noves fora nada. Quem cuidaria de si se adoecesse gravemente? Se estivesse desempregado quem daria a cara pelo seu desempenho? Quem dá valor ao que faz, valor medido em reconhecimento efectivo? Em casa de quem encontraria abrigo se estivesse na rua depois de perder tudo? Quem dormiria consigo, com desejo de dormir consigo e quem o abraçaria nas noites longas? Quem o quer ouvir, ver, ter ao lado, quem não prescindiria de si e iria consigo como no poema de Adélia Prado pela rua mais torta da cidade, o caminho do céu? E quem ri consigo?
Agora vamos fazer ao contrário. Você, quem ama? Quantos são? Não, também não vale mentir. Ninguém está a ouvir.
É cru e justo o espelho da contabilidade amorosa.
À medida que o ano vai fechando os seus dias e avanço no balanço das minhas contas, percebo que a vida é muito curta para ser pequena e escolho as palavras velhas caídas com tempo para as fundações do futuro. Deus, outro nome para o Amor, o Verbo, é muito grande e eu quero andar esta imensa terra pelo caminho do céu. Amén.

13 de dezembro de 2013

Carta ao meu Amor

Monstro!
Estava a olhar para as minhas lindas unhas, fresquinhas da manicure de véspera, encarnadas rebrilhantes no preto do teclado, e a pensar toda contente que nunca as tive mais bonitas quando me ocorreu: ó… não posso mostrá-las ao meu Amor. Sua fera!, era em si que as devia usar num arranhãozinho bem marcado só para o lembrar de que não estar presente em momentos importantíssimos como este, dói: chama-se distância emocional. Patetão ausente.
Pois fique sabendo: não gosto de si. Porquê? Porque passou muito tempo desde que o verniz secou ontem. Já não quero que se manifeste como os espíritos de quando era pequena: está aí algum espírito que se queira manifestar? Fazia isto pela casa toda, em cada divisão, enquanto andei debaixo do spell de um filme de medos a preto e branco que vi com o meu avô. Uma coisa terribilis. A mesa saltava e batia com força no chão. Pelo sim pelo não, não desse algum móvel velho da nossa velha casa em estalar com mais entusiasmo do que o habitual, perguntava. Seráfica por fora cheiinha de medo por dentro. Depois houve aquela vez quando a minha avó teve uma visita de cerimónia. Pus-me de olhos de espreitar o além, sem piscar. Direita como um fuso. Mas antes de ficar tesa como uma tábua, tal como a senhora do filme inspirei e… cheira-me a rosas, alguém morreu nesta sala. Depois os faróis dos olhos nos máximos e está aí algum espírito que se queira manifestar. Os adultos são muito impressionáveis. A minha avó, azarucho do caneco, não era. Zás, castigo daqueles a sério. Ai, se calhar é por isso que não se dignou a aparecer. Ainda estou de castigo. Pois se estiver para se manifestar agora, não se manifeste, sou muito capaz de lhe fazer mal e sem recorrer ao outro mundo, não tenho só unhas, tenho caninos draculinos e odeio-o!
Por outro lado, também não gostaria que tivesse para aí um desgosto com esta Dear John letter - onde quer que esse aí seja, é decerto suficientemente mau só por não ser aqui, ao meu lado. Bem feita! E espero haja cobras aí. Enormes. Daquelas que comem pessoas inteiras. E piranhas no rio e tubarões no mar. Muito fumo de escapes. Cheiro de fábrica de papel e curtumes. E uma mulher feia e má que lhe dê umas chicotadas no lombinho – é melhor não que é capaz de gostar… um homem feio e mau. Fun! Enfim, não tenha tristezas. A verdade é que fez bem em não ter vindo: sou unlivable.
Não é que seja anti-social, gosto das pessoas. Muito. Tenho é pouca paciência para as aturar e prefiro estar em casa, ou onde quero estar, a fazer o que gosto, consigo, até a fazer o que devo, pasme-se.
E depois há a convivência no mesmíssimo espaço. Não é fácil, pensa o quê? Uma pessoa não é livre para fazer yoga na sala quando tem um marido esparramado no sofá a ver a bola – só vejo o Benfica, o resto é bola, detesto. E tomo conta da televisão. Adoro televisão desde que era miúda e lá em casa ninguém queria saber da maravilhosa televisão. A cores e tudo. Só desgostos. Ingratos. Se não fosse o meu avô a fazer-me uma vontadinha havia de ter sido a última criatura da minha geração a ter televisão a cores. 
Imagine lá o que seria a sua intelectualidade a querer ver uma mariquice qualquer na tv e eu com o NYCB Workout no ecrã, aplicada nos abdominals, legs and darts no tapete. Também preciso da televisão para ver as minhas séries que não me passou essa loucura em episódios quando acabou o Espaço 1999. E os mesmos filmes repetidos. Já os sei cor como os Maias. Nenhum homem vê o My Fair Lady e Gigi. É verdade que também sei de cor o Padrinho I e II. E ninguém aguenta o Wong Kar Wai, redux, de empreitada – tenho estações de melancolia oriental, que quer que faça, aquilo assenta-me bem no silêncio de quando o gato me come a língua. Vejo desenhos animados.
Mais. Aposto que não anda de bicicleta. Porquê? Nunca vi numa bicicleta um homem que me apetecesse dar-lhe uma guinada e comê-lo de beijos. Ou, horror dos horrores alérgicos, é uma cat person. Atchim. Eu e os gatos não nos damos bem. Que comichão nos olhos. Eles gostam de mim e eu também gosto de mim. E a garganta? É que não se respira. E o Cão não suporta gatinis. É mais pequeno do que alguns deles. Xô gato, vai bye bye, vai.
Não sei fazer rotundas nem preencher impressos, não me governo em repartições. Não tenho medo do escuro e o ruído dá-me nervos de exterminador implacável. Tenho uma, como direi, ligeira mania das arrumações. Durmo no meio da cama.
Isto é tudo para seu bem. Sabe o que é pior do que isto? Viver com um escritor - no caso, escritora. Raça de egoístas. E ainda pior, viver com um escritor que seja poeta. Só se pensa em escrever. Ler. Escrever. Escrever melhor. Aprender a escrever. Corrigir o que se escreveu. Jogar tudo fora e começar do zero, sem erros, como se fosse possível nascer outra vez numa folha branca. E a necessidade de gastar horas inúteis, parecem segundos, escapam-se, a pensar na morte da bezerra, para só Deus saberá o quê. É uma obsessão. Todavia mau mesmo mau é nos períodos em que a obsessão passa: quando acaba de se escrever não interessa o quê, um poema ou um livro, um texto qualquer. Naquele momento em que não há o que dizer, não há o que fazer porque não se consegue ser: fica-se vazio como o Frankenstein à espera do coração, do cérebro, da tempestade que ligue tudo e dê sentido ao corpo, quero dizer, à vida. Ninguém quer casar com o Frankenstein.
E há a estética de fugir. O meu sonho de casa em estilo maison é a biblioteca da Bela e do Monstro, basta acrescentar-lhe uma cama, uma mesa de jantar, um ginasiozinho, tudo em um, e, desde que as portas abram para um jardim, mesmo micro, vá, um pátio com uma árvore e um bebedouro para pássaros… meu mundo bom. Vê como faz bem em estar missing in action? Quem é sua amiga?
Não gostaria, no entanto, que julgasse que sou volúvel, ou uma intransigente do piorio: se me pedir perdão, mil vezes perdão, por não se ter fascinado a ponto de surgir como uma aparição com a minha mais que perfeita manicure, não se fala mais disto.
Um beijo da sua, um tudo nadinha ambivalente, mulher. Ex-mulher. O que Deus quiser.
EV

10 de dezembro de 2013

Amália Ainda Hoje - Soledad

Escrevi isto. E um leitor escreveu-me, e agradeço-lhe, a perguntar: porque não faz o elogio? Faço. Tenho feito. E continuarei a fazer.
CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - vii

O ELOGIO DOS VIVOS: NUNO GONÇALVES, A POP, ELOGIO DA VIDA

Para entender a cultura pop é preciso estar na rua pois é na rua que ela emerge e é na rua que ela desagua.
Há um momento em que alguém faz confluir numa tendência, inicialmente marginal, um conjunto de vontades onde se aglutinam valores éticos e estéticos que se manifestam desde a moda à música, passando pela forma de relação pessoal, inter-pessoal, e relação com a cultura pré-existente, o mundo. Trocado em miúdos: de repente, algo que não estava presente no colectivo passa a estar. E cresce da margem para o centro. Ou se preferir, os centros. Madonna é um bom exemplo porque cresceu até ser gigante, vê-se ao longe. Vivienne Westwood é outro, dia após dia, ano após ano, em passinhos pequeninos infiltrou-se nas passerelles de alta costura e já desceu à Zara. Joana Vasconcelos explora a visibilidade à distância usando-se da dimensão e do popular para uma cultura contemporânea que eleva como não acontecia há anos e por isso a rápida notoriedade. Isto para chegar onde? Ao elogio dos vivos que elogiam a vida. Esta vida do quotidiano, da rua. Esta vida onde se sabe o que falta e se está atento, de orelhas em pé, a ver se sim, se chega, de onde, se se apanha. Melhor ainda. Esta vida feita de gente porosa, permeável, que faz o que nunca se fez antes, nunca daquela forma. Da forma que responde à necessidade daquele momento. Parte da cultura pop é timing. Pulsação.



Para quem como eu tem uma relação apaixonada com o fado, não fora a vontade de conhecer, seria quase preferível nem o ouvir para não ouvir o que se faz desde que foi socialmente revalorizado, e porque foi socialmente reabilitado. Há muito fado dentro do fado. O meu é o transgressor e fez escândalo nos jornais com Camões. É o fado das frases longas inventadas por Alain Oulman para os poetas que Amália cantou. (A Camané, ao excelente Camané, só lhe falta o Oulman dele e os poetas dele. Todavia ele soube de um rio e isso a mim chega-me.) Enfim. Adiante.

Nuno Gonçalves foi o responsável pelo projecto Hoje. Produtor e director artístico a convite da Valentim de Carvalho para mostrar Amália a quem a desconhecia, portanto, a um imenso público, já que então verificaram que os mais jovens ouvintes de Amália tinham em média cinquenta anos de idade. Como sempre digo, desde Camilo o digo, trabalha-se bem por encomenda: quando o metro define os limites, pisa-se o risco com criatividade.
Se aquele Hoje é de 2009 porque o trago aqui, agora? Porque de 2009 até hoje não voltou a haver na música pop portuguesa uma intervenção rasgada como esta Amália Hoje. E estive, à data, não com a crítica especializada, mas com os muitos, quase todos miudagem, que aderiram em coro: adorei.
O fenómeno recente mais parecido com Amália Hoje aconteceu com a exposição da Joana Vasconcelos, em Sintra, que a despeito de nos dar música não podemos ouvir e estamos necessitados de cantar, de nos cantarmos – um destes dias falamos sobre Joana Vasconcelos.
Quando Nuno Gonçalves pegou em alguns dos mais icónicos fados de Amália Rodrigues, os rearranjou numa linguagem e numa expressão interpretativa sem qualquer tangente ao fado e com as vozes inesperadas e súbitas de Fernando Ribeiro e Paulo Praça ao lado de uma muitíssimo corajosa Sónia Tavares porque tão, tão distante de Amália, e os lançou e se lançou para a jovem boca da rua que não os sabia, foi amor, irreverência e sinfónica homenagem. Arrisco dizer que, e por não ser fado, tal como a miudagem, também Amália teria gostado. Também ela se dava à rua, o nome íntimo que o mundo usa para não parecer muito maior do que nós e se fazer habitável pelo lado de fora.

Neste trabalho ouvem-se gerações de música popular, e porque é popular vê-se, entra-nos pelos olhos adentro: desde o fado que evoca Portugal a preto e branco, a Joy Division em branco e preto, está lá Morrissey e ao fundo Jim Morrison e mais... Nada disto será informação nova. Contudo é com esta informação velha que podemos fazer como Nuno Gonçalves fez com Amália Hoje, estrela nestas cinzas: recusar, não o poema de Cecília Meireles, mas recusar dizer adeus a esta a terra, terra morrendo de fome, pedras secas, folhas bravas, antes que o sol se vá com um gesto de agonia, cairá dos olhos nossos, e nem depois não virá Deus, só soledad. Não. Podemos aprender com Nuno Gonçalves que se calhar até desconhecemos o mais que conhecido, chama-se a isso humildade, e agarrá-lo, a esse desconhecido, como a um amante, até o sabermos de cor, dar-lhe uma outra vida que possa juntar-se à que já tem, também é isso o amor.
Outro sopro é sempre um beijo que liberta.

9 de dezembro de 2013

Bonjour Mundo!

não sei não sabe ninguém
porque canto lailailailai
lailai
sinto que a alma cá dentro se acalma
nos versos que canto
foi Deus que deu luz aos olhos
perfumou as rosas deu ouro ao sol e prata ao luar
foi Deus que me pôs no peito
lailai se canto não sei porque canto
misto de ventura saudade ternura e talvez amor
lailailai
foi Deus que deu voz ao vento
luz ao firmamento e deu o azul às ondas do mar
foi Deus que me pôs no peito
lailailai
e pôs as estrelas no céu
e fez o espaço sem fim
deu luto às andorinhas
ai e deu-me esta voz a mim
fez o poeta o rouxinol
pôs no campo o alecrim
deu as flores à primavera
ai e deu-me esta voz a mim


8 de dezembro de 2013

Os outros Actos dos Apóstolos

FALAVA EM LÍNGUAS COMO OS ANJOS
Lugares terríveis são as florestas
quando a noite se fecha no escuro
e o canto se cala na voz dos ramos
e o vento sobra em redor das sombras
Foi do sol que se fizeram as trevas
Foi da lua que se fez o sangue
- oh meu Deus -
Debaixo das folhas mortas
pude adormecer no casuloso frio
houve a vontade cristalina e negra
caída das redondas copas em farpas tão agudas
agulhas geladas de pinheiro no coração primeiro
Ao longe ouvia ainda
falava em línguas como os anjos
a lírica viva e de fogo líquida:
O amor levanta as árvores pela raiz para enterrar 
lanternas que nasçam frutos amanhecidos
Que quer isto dizer?

6 de dezembro de 2013

A Fada Malvada no Reino da Estupidez

A lite­ra­tura não pode ser ensi­nada. Ensi­nar seja o que for é apre­sen­tar um ins­tru­men­tal ade­quado e expli­car a maneira de uma pes­soa tirar pro­veito dele. Daí resulta que se ensina a escre­ver estu­dos sobre lite­ra­tura, e estu­dos sobre os estu­dos de lite­ra­tura, inde­fi­ni­da­mente; ou ainda se ensina a ensi­nar literatura.
 Jorge de Sena in O REINO DA ESTUPIDEZ

O REINO DA ESTUPIDEZ
- COM AS RIMAS DO COSTUME: BEBÉS -
VI
MUNDO AO CONTRÁRIO - i
O JORNALISTA É NOTÍCIA E O POLÍCIA É LADRÃO

O jornalista quer ser notícia
nem seja a remar a canoa do morto
Flutuam bem os cadáveres
quanto maiores melhores:
cabem muitos escrevinhadores a gritar a sua
história pessoal onde ao de leve
evocam o morto afinal é preciso algum cenário
ensina a escola de comunicação social: é Gonzo
é Thompson e tal. E a cultura o trabalho
a loucura o amor o talento? Ao que chegámos:
rabiscadores de eventos de colunas de casamento
a fazer a história diária do pensamento
a eterna literatura do momento
E por isso acreditam que são escritores.
São actores.
Jornalismo o palco do narcisismo.


5 de dezembro de 2013

iii - Homens dum raio! Meninas, não digam que não avisei...


Talvez porque não gostasse de pérolas, a minha avó deu-mas. Uma a uma. Às vezes esqueço-me delas. Mas dão um jeito do caneco: fica-se sempre composto e nunca saem de moda, é só actualizar o modo de as usar. Pérola:
Nunca por nunca julgue um homem por si, mulher. São uma raça à parte. Isto para dizer o quê? As mulheres têm fama de românticas na escolha do seu amor. Os homens têm fama de fugir da escolha. Tudo mentira e falsidade. Eles são românticos, nós também, mas com muito pragmatismo. Problema? Nenhum. O problema é depois. Com o fim. Com o The End. E é nosso. Não deles.
O homem termina uma relação como quem marca o agora renovado ponto: às tantas horas do dia tal, exit. O romantismo passa-lhe como lhe passou a varicela. E não pensa mais no assunto haja ou não a senhora que se segue. Ponto. O tal ponto. Final. Missão cumprida, missão esquecida.
A mulher termina uma relação todavia não há exit porque não há ponto, há prazo. De validade. E como a das latas de conserva. Quero dizer, se a tampa não empolar, de que interessa a data marcada? Sabemos muito bem não só o que está lá dentro como se está próprio para consumo. Consequências do cabrão do pragmatismo condutor da boa escolha e do indeterminismo romântico que lhe plasmamos: quando, ó quando, é que a puta da tampa empola e a coisa rança, pergunta a minha amiga?! Quanto melhor foi a escolha feita, maior será a demora. Quem a mandou escolher tão bem? Fosse uma doidivanas... Ora, isto é gerador de grandes desigualdades sentimentais atrapalhadoras de um dia-a-dia feliz e com expectativas adequadas. Fazer o quê? Copiar. Copie tudinho por ele. Pelo bandido enlatado. Faça o que ele faz. Ou não sabe que o ser humano é mimético? É assim que aprendemos. Fixe isto, é fundamental para a sua sobrevivência. Amorosa.
E já que estamos nisto, para facilitar o diálogo inter-espécies, se um homem lhe marcar o ponto, fuja. Não! Não é atrás dele. É na direcção oposta. Fuja dele. Garanto-lhe: ele quer fugir de si. Não há nada mais clássico do que a tia Jane Austen. Vem a tia agora a propósito do quê? De Emma. Ai não lembra? Let his behaviour be the guide of your sensations. Traduzido: recicle, já sabe, não sabe? As latas vão por junto com o plástico.

2 de dezembro de 2013

Coração Amarelo

O Coração do Cão hoje é Amarelo

Foi com muito gosto que aceitei o convite de Leonor Roquette para fazer parte deste livro, Singularidades, com um poema. Junte-se a nós: os corações batem melhor em uníssono.


A Cápsula de Einstein

A CÁPSULA DE EINSTEIN
Neste exacto momento ou noutro qualquer
estás envolto em tempo estás do lado de dentro 
da cápsula feliz do meu pensamento - é o riso
É agora mesmo Tendo sido noutra data é agora
e o futuro também está num lugar que já passou