17 de novembro de 2013

Quem te amará, meu amor?

Não sei muito. Mas isto sei: o mundo já não é o que nos ensinaram, sequer o era então quando no-lo ensinaram. Não é o que planeámos. Nem é o que imaginas tu. Ou eu. Há mil correntes subterrâneas e outras tantas à flor da pele para as quais nem nome temos.
A modelar oração fúnebre de Péricles ao fim do primeiro ano da Guerra do Peloponeso que Tucídides levou para o Livro Segundo, não é sobre a nossa Cidade, ainda que estejamos a enterrar a democracia, um modo de vida, os nossos mortos. Porém, não os homenageamos, nem à sua descendência, nem à sua ascendência: há muito que a boa sorte, obter o que é mais nobre, os deixou a todos, nos deixou a nós.
A tristeza não é pelo bom tido e perdido, é pelo bem sonhado e desistido - o bom perdido é de tão poucos. Nem filhos há para arriscar as decisões de futuro, porque nem podem, de tão pobres, os filhos nascer, ou os nascidos e crescidos ficar: podem os avós envelhecer com vagar, irão morrer sós, ou na companhia dos seus pares se não foram roubados dos lares, netos não há, e os filhos estão no trabalho.
Ninguém levanta os olhos para esta Cidade nem ela é sol de alguém. Esta Cidade é a sua própria Sombra. Quem a amará?
Quando a glória e a grandeza só merecem esquecimento, e aos homens de coragem se arrumam na margem dos loucos onde falem sem se ouvir, quando a honra se negoceia, à pátria não é o valor próprio que se dá, é valor que dela se tira com louvor de outros ladrões iguais e celebração nas páginas dos jornais.
A terra inteira continua assim o túmulo de homens valorosos. Mas não há em quem quer que seja, deles, uma reminiscência não escrita, um pensamento gravado: ninguém lembra o que disseram, não tinham voz que se ouvisse, parentela ou clientela que abrisse a porta fechada, a porta pesada do silêncio. Como então fazer deles o exemplo?
Se felicidade ainda é liberdade e liberdade ainda é coragem, ser livre é estar da margem a falar sem ninguém ouvir. Nada tendo a ganhar, nada mais tendo a perder, podemos tudo sem temor, até morrer por amor.
Quando chegou a hora do combate, os grandes guerreiros cederam e salvaram-se a si mesmos, e os pobres, coitados, venderam-se-lhes por escravos, e às suas mulheres e ao futuro dos seus filhos, e na desonra encontraram a honra.
E é por isto, em suma, que digo: no que sobrou desta Cidade, a sua escura Sombra, cada homem, cada mulher, pode fazer-se senhor de si mesmo e dono dos seus actos no que decidir ser. Há mil correntes subterrâneas. E outras tantas à flor da pele.


Aqui, na História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, no Livro Segundo, páginas 108-114, encontrará a Glória de Atenas na oração pronunciada por Péricles.

16 de novembro de 2013

Só sabe amar e mais nada

A OCULTA SEMENTE
A tua língua deixou cair a semente das tuas palavras no meu coração.
Onde estavas que não ouviste os provérbios pela boca iluminada de Salomão? 
É tão fértil o músculo que ama. Só sabe amar e mais nada. Compassadamente,
uma e outra vez, repetindo muscular o Verbo, ininterruptamente a empurrar 
a circulação da semente, uma e outra vez, sanguínea, o sopro inteiro sempre na duração
das estações. Assim cresce no tempo a árvore. Se descobre a flor. Rebenta o fruto. 
A ele mordeste, comeste com gosto e à oculta a semente. E depois, beijaste-me tanto. 
Disse o rei: 
a vida e a morte estão no poder da língua, 
quem amar a palavra comerá do seu fruto.

15 de novembro de 2013

ii - Homens dum raio! Meninas, não digam que não avisei...


Talvez porque não gostasse de pérolas, a minha avó deu-mas. Uma a uma. Às vezes esqueço-me delas. Mas dão um jeito do caneco: fica-se sempre composto e nunca saem de moda, é só actualizar o modo de as usar. Pérola:
Nunca por nunca julgue um homem por si, mulher. São uma raça à parte. Isto para dizer o quê? Nós douramos a pílula, usamos palavras como anéis e conseguimos, pelos deuses, basta que pense em coisas básicas, fazer uma refeição completa para quatro a partir de meia dúzia de desconxavos que encontramos no frigorífico. Ou seja: circulamos. É uma actualização das nossas mais atávicas competências de sobrevivência. Mas eles, os diabos, inventaram a puta da linha recta. Fixe isso, é fundamental para a sua sobrevivência. Amorosa.
Para os homens o amor é uma conjunção. A conjunção, claro, copulativa e. Exemplo: Eu e tu. Não usam outra. São homens. Fazem o que funciona. Caçam só o que querem comer e conseguem caçar.  Os homens vão atrás da Vénus que querem. Fazem de um tudo, mesmo tudo, não se poupam a nada quando têm Vénus na mira - até travestir-se de caçadora Diana. Linha recta, lembra-se?
Para as mulheres o amor também é uma conjunção. Todavia uma adversativa mas. Exemplo: ele ama-me, mas foi comprar cigarros há vinte anos, e se nunca voltou é porque foi abduzido por extra-terrestres. Enquanto a minha querida está a folhear revistas de ovnis a ver se avista o seu querido, a vida está passar à janela, e ele está a passear com ela.
E já que estamos nisto, para facilitar o diálogo inter-espécies, se um homem não está, não liga, não aparece, não escreve, não a ama. Ou se precisa de tempo, ou de espaço, não é porque vá aprender relojoaria ou porque seja astronauta. Não a ama. Se está em conflito, dividido ou confundido entre si e não sei mais quantas, não é porque pense que as meninas são gomos de laranja, não a ama. Os homens são territoriais: se amam, estão presentes. Se estão ausentes, a minha querida é uma Pombinha da Catrina para quem a apanhar, e ele está-se bem lixando para isso. E juro que onde quer que esteja o malvado que não a ama e foi comprar cigarros, se fumar e ela não, fuma na varanda - é o que eles fazem quando amam.

12 de novembro de 2013

A Fada Malvada no Reino da Estupidez

A lite­ra­tura não pode ser ensi­nada. Ensi­nar seja o que for é apre­sen­tar um ins­tru­men­tal ade­quado e expli­car a maneira de uma pes­soa tirar pro­veito dele. Daí resulta que se ensina a escre­ver estu­dos sobre lite­ra­tura, e estu­dos sobre os estu­dos de lite­ra­tura, inde­fi­ni­da­mente; ou ainda se ensina a ensi­nar literatura.
 Jorge de Sena in O REINO DA ESTUPIDEZ
O REINO DA ESTUPIDEZ
- ATÉ COM RIMAS BEBÉS -
v
PARA SER FELIZ
Os intelectuais não gostam de felicidade,
de gente feliz, tal substantivo não querem,
eles, tão adverbialmente contra o adjectivo,
à substantiva vida, dizem-lhe não. Porquê?
Porque engoliram o dicionário de sinónimos,
subiu-lhes o palavreado à cabeça e regurgitam
litterasputas: lá, felicidade é ventura, sorte, êxito
e êxtase.
Ora, não se pode ser um intelectual de êxito
montado na ventura -
na desventura ainda se vai ao êxtase.
Apesar de ventura ser um tudo nada passé,
proibido francesismo, galo do cismo do caraças,
não há abat-jours com  neurónio, só quebra luzes,
mas se for a filha do Ventura
pós-modernamente montada, logo, coisa de nada, marcha.
Sendo feliz, estou, portanto, lixada,
da selecção gramatical à semântica contextual
hão-de faltar-me, pelo menos, a sombria consciência
social, o bom gosto e o café relacional: queres onde,
na tua revista ou no meu jornal?
Felicidade é coisa de bicho. Tem prazer. Sofre a dor.
Arrumam-se livros de tédio nas horas sem remédio.
Ri-se, chora-se. Cala-se tanto.
Come-se muito silêncio à frente da solidão para ser feliz:
felicidade é texto imprevisto, frase perfeita. Vida. Cliché de
meu amor, diz, minha querida.

Divina Providência

Uma amiga pouco amiga de arte urbana perguntou-me porque dediquei um capítulo do livro Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea a Alexandre Farto, aka Vhils. Disse-lhe a verdade, toda a verdade e não mais do que a verdade: sem cultura não há erotismo, sem erotismo não há bom sexo. Alexandre Farto é a Paula Rego da rua. Todo o acto cultural é um acto amoroso cheio de significado, a afirmação da existência, da vida, enquanto a morte, as mortes, rondam. A invisibilidade. Amar é fazer visível, é dizer: existes. Ora confirme.

10 de novembro de 2013

Sou tua

TERRA DE NINGUÉM EU TE PERTENÇO
Moisés logo à nascença estava condenado
estamos todos: quem és quem serás
porque és judeu ou nasceste na avenida de roma
ou nas colmeias de odivelas ou numa catacumba
qualquer do lado errado ou certo do rio
e morrerás se não for hoje amanhã será
Moisés logo à nascença foi salvo
fomos todos: devolvidos por milagre
à esperança das nossas mães
E como Moisés levamos quarenta anos a crescer
degrau a degrau estranhos numa terra estranha
no palácio do poder até que o instinto nos levanta
a mão e para não morrer o nosso sangue matamos
e assim mesmo a nossa própria carne nos nega
Não se pode viver e ser inocente descobrimos
isso e o nome da solidão em quarenta anos de deserto
A toda a nossa descendência filhos e obra insistimos em chamá-los
Gershom: estranho numa terra estranha
promessa de canaã cidadania de leite e mel
Ou só a repetição do verdadeiro nome do pai

ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:/ eu te pertenço, de Jorge de Sena in A Portugal

5 de novembro de 2013

A Fada Malvada no Reino da Estupidez

A lite­ra­tura não pode ser ensi­nada. Ensi­nar seja o que for é apre­sen­tar um ins­tru­men­tal ade­quado e expli­car a maneira de uma pes­soa tirar pro­veito dele. Daí resulta que se ensina a escre­ver estu­dos sobre lite­ra­tura, e estu­dos sobre os estu­dos de lite­ra­tura, inde­fi­ni­da­mente; ou ainda se ensina a ensi­nar literatura.
 Jorge de Sena in O REINO DA ESTUPIDEZ
O REINO DA ESTUPIDEZ
- DESTA VEZ SEM RIMAS BEBÉS NEM i, ii e iii -
iv
BEIJA O AR E MAIS NADA
auto-retrato

A arte é filha da consciência da beleza
e da certeza da morte
É inútil como eu:
a poesia não serve para nada
nem a literatura nem o funcional ensaio -
espelho apenas do mundo útil
Mesmo o amor fonte de tudo
não serve para nada senão para amar
e fazer poesia literatura ensaio
é o círculo fechado da inutilidade de sentido
em movimento perpétuo: beija o ar e mais nada
Tenho um infinito depósito de prendas inúteis
dons de nascença
reforçados por uma auto-didáctica pré-pós moderna
inútil
Amo sou bela inútil vejo a lindeza tamanha e sei que morro:
farei uma inevitável obra-prima

Beija o ar e mais nada, de José Régio, que beija o ar, e mais nada, e lindeza tamanha in Fado Português

3 de novembro de 2013

Se te portas mal, vai haver terror, se te portas mal, tu vais sentir dor, vou ter de te dar e vais ter de levar pancadinhas de amor...

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - vi
AMO VOCÊS, MEU POVO
Liliane Marise é mais do que um fenómeno. Liliane Marise é também um facto. Um facto sustentado em Jeff Koons. Em Jeff Koons e no das caveiras, do bling e do formol, em Damien Hirst. Mesmo em Joana Vasconcelos. Liliane Marise é um facto fenomenal que nos sentimos autorizados a aplaudir por causa deles – para vaiar pedimos autorização a outros, ou pensa que caiu de uma nuvem, etéreo e sem passado? O problema é que só podemos aplaudir em bloco, assim como a esquerda a despeito das facadas, perdão, das diferenças internas: não se pode louvar um sem, quer se queira ou não queira, de alguma forma, louvar o outro. Ou vaiar. Contra mim falo que tenho uma implicância do piorio com senhor formol, acho uma piada maluca à Joana Vasconcelos, e entendo muito bem o Jeff Koons. Isto vem a propósito de quê? Olhe, da falta que me faz uma mala. Chique.

Não é apenas Liliane Marise quem quer uma mala chique como viu lá na boutique. Nem é só ela nem são só as meninas de bem que andam na Feira de Carcavelos - o próprio Marc Jacobs considerou a loucura das imitações, no caso com a Louis Vuitton que havia revolucionado, uma homenagem, afinal criara objectos de desejo e amplificara o desejo. E a marca. Quem quer a mala chique somos nós. Todos. Mesmo os que dizemos, mala, não, filha, que não vai de viagem, que maçada, o que quer é uma carteira.
O objecto de desejo não varia assim tanto. Porque aspiramos todos, mais coisa menos coisa, ao mesmo, queremos todos, mais coisa menos coisa, o mesmo. E queremos o quê? O que nos dá poder para ser e ter. Não interessa se é um cargo público, uma empresa ou uma biblioteca, ou um guru. Quer um bom exemplo?
A coluna de Henrique Raposo, ontem, no Expresso. Sócrates quis uma mala chique. Fez mal? Não, fez bem. Uma carteira em condições, uma vuittonzinha, mesmo pequenina, a papillonzinha, passa de mãe para filha em perfeito estado de conservação ainda que tenha muito uso. Porquê? São boas. Boa pele. Trabalho bem feito, artesanal. E a estética ainda que vá de modas é suficientemente inteligente para ancorar o futuro numa base conservadora, logo, vai de modas mas não passa de moda, inventa moda. Sócrates queria uma mala chique. As tias de Cascais tinham a mala e não lha queriam dar. Ele gritou-lhes, não há melhor a quem fique! Contudo, há que compreender as tias: quem é que no seu juízo perfeito dá o que quer para si? Então que fez Sócrates? Foi à feira com a Liliane Marise. E quem nunca foi que jogue a primeira mala. Vá, carteira.
Queremos todos o melhor, todavia, criar, fazer, construir valor, exige trabalho e desenvolvimento moral. Quando chega a altura da verdade, tenha ou não tenha alça como nem parece que é falsa, lá vamos à Feira de Carcavelos: dar emprego a um estranho competente? Qualquer estranho é preterido por qualquer conhecido que pertença à mesma paisagem social, desconhecido que pertença, ou, em último caso, promova essa paisagem.
Este não é um mal português por muito que em Portugal e em Itália assuma as proporções que o índice de corrupção ilustra. Este é um mal visível nas grandes empresas europeias que se portam como as casas reais europeias - e como a máfia. O modelo é familiar e de alianças familiares. Mesmo no norte europeu, limpo e luterano, de igrejas minimalistas das paredes à prática económico-religiosa, é familiar. Só não é corrupta. Dir-me-á que não, as casas reais aprenderam o negócio com o Mónaco e viraram-se para a plebe que as salvará da guilhotina e que, como o movimento é reproduzido de cima para baixo tal como da loja para a feira, estamos salvos. Não estamos.
Basta uma gota de tinta na água: o que se passa na política, acontece nas empresas, dá-se da cultura aos media, e na vida social. Não estamos a gostar dos resultados, pois não? Azarucho, se te portas mal, vai haver terror, se te portas mal, tu vais sentir dor, vou ter de te dar e vais ter levar pancadinhas de amor. 

Ai...

1 de novembro de 2013

Rolando Teixo, de Pedro Bidarra

As desvantagens de não se pertencer a qualquer capela literária e afins são amplamente conhecidas. As vantagens menos. Pessoalmente gosto delas. A liberdade tem preço. E eu pago. Isto para dizer que não há qualquer conflito de interesses, ainda que escreva para a Guerra e Paz e escreva também com os meus Manuel Fonseca e Pedro Bidarra no blog Escrever é Triste.
Por muito que, como diz Pedro Bidarra, as pessoas venham sempre de algum lado, a verdade é que não interessa a Rolando Teixo que o seu autor venha da BBDO e seja o mais conhecido e premiado dos nossos criativos – acho que é assim que se diz em politicamente correcto de um profissional da publicidade. Ou melhor, interessa, mas tanto quanto o facto de ter jogado à carica ou pegado um touro. Jogou? Pegou? Não sei.
Rolando Teixo pertence à colecção Poucas Palavras, Grande Ficção, da editora Guerra & Paz.
Que poucas palavras são estas e que tamanho tem a ficção prometida? Estas poucas palavras, poucas se medidas em tempo de leitura, são um conto. E são ficção e literatura. Porque podemos ter literatura sem ficção, ficção sem literatura. E grande literatura e grande ficção.
Sim, já ouvi dizer que Rolando Teixo é um romance. Não é. É um conto. E essa é uma das suas maiores virtudes, entre outras razões porque é o primeiro trabalho literário de Pedro Bidarra. Para além da criação há a técnica. O conto serve para fazer a mão para ambas. E em Rolando Teixo isto acontece de forma limpa: o verbo e o substantivo dominam o adjectivo, tal como o avanço para o desfecho se sobrepõe a todas as vontades narrativas, mesmo às que lhe servem se suporte. E são duas.
Uma serve de pano de fundo social e é mantida com a notícia do rapto do banqueiro que se desenvolve em paralelo com o processo de vegetalização de Rolando e o enquadra profissionalmente.
A outra dá-lhe o tecido afectivo através do casamento, uma empresa familiar tão falida quanto a vida profissional e social de Rolando, e sustentadas ambas pela rotina e rituais já esvaziados de tudo, até de sentido, e bem representadas na casa da família, em Monsanto, lugar de expectativas incumpridas, construções desconseguidas e só presentes na memória do sonho tido como à janela com vista para o verde inútil.
Estes dois mundos tangentes, o profissional desfeito numa sociedade em crise e o de uma conjugalidade em crise, não são, no entanto, o cerne de Rolando Teixo, são o pretexto – não resisti à fonética. O cerne é o indivíduo. A negação de si mesmo. Ou se preferir em linguagem de fazer bonito, do self. A negação desse eu que não soube, não pôde, não conseguiu integrar naquilo que era esperado de si, que é esperado de todos nós, o que é no seu eu mais nuclear, íntimo, a sua própria razão de ser. A negação cresce no escuro. Toma conta de Rolando. Devora-o. Toda a negação nos devora. Ele resiste. Penosamente. Ao espelho. Em ferida. Enquanto pode. A questão em Rolando Teixo é: quem podemos ser? Que custos tem? Portanto, a velha e sempre necessária questão da liberdade. Reflectida, aqui, no equilíbrio entre a responsabilidade, a vocação, o dever, o coração. Quem podemos ser.
Tudo isto é tratado por Pedro Bidarra com virtudes e algum vício em cinco capítulos, ou melhor, em cinco dias definidores.
A arquitectura do conto é leve e funciona: os diálogos são tocados de ouvidos, são a música do dia-a-dia, são credíveis, somos nós. Nas descrições do quotidiano que só em si mesmo se justifica, também somos nós: sobreviver faz parte de viver, e por vezes, algumas vezes, por tantas circunstâncias, há um tempo em que viver é só isso: sobreviver. As frases são curtas e efectivas, dominadas pela acção. Mantêm o texto de trela curta e o leitor também. Ninguém se dispersa: nem o autor, nem o texto, nem o leitor. Atenção. Foco. Bom, não é? Como o elemento anómalo foi introduzido sem negociação logo ao início e cresce com o texto, é um dado adquirido e aceite, cedo deixa de ser uma anomalia para ser uma condição.
Os vícios são pequeninos. Um: a visibilidade desta arquitectura como a da sua congénere do ferro: está ao honesto serviço da função. Que mal tem? Nenhum. O elevador de Santa Justa é assim. Outro: excesso de controlo: os pontos estão marcados e ligados entre si no texto. Ligá-los é, deve ser, trabalho do leitor. Só assim se é colhido ou pelo imprevisto ou pelo inevitável - não somos. Que mal tem? Nenhum.
O conto, este género tão desprezado entre nós e tão bem querido nos países anglo-saxónicos em particular, exige o equilíbrio entre a criatividade e a economia. Ora, isto de economia numa terra onde se escreve para o efeito, para impressionar, quando não se escreve balofo e oco, não pode ser uma categoria amável. Eu amo-a, no entanto. Amo os contos de Borges e os contos de Eça e os de Herberto Helder. São mais curtos, são, mas Tabucchi, se não estou em erro, escreveu um maior do que este de Pedro Bidarra. Não vamos contar caracteres por causa disto, pois não?
Rolando Teixo, o primeiro livro de Pedro Bidarra é o belo antipasto italiano. Não, não é o nosso singelo e tão bom pãozinho com azeitonas, nem são hors d'oeuvre debicados aqui e ali. Sentamo-nos à mesa e começamos a refeição. Gostei muito. Sente-se ao meu lado para esperar por mais.