27 de junho de 2013

A casa - ix

AMPLE MAKE THIS BED
Aos 14 anos uma pessoa está completa, feita. Mesmo bem antes dessa idade. O resto é o isto e aquilo, o conhecimento dos outros e de si mesmo, mas os planos da obra estão mais do que concluídos.
Ainda tinha 14 anos quando vi o filme A Escolha de Sofia. Até essa altura e mesmo um pouco depois ia ao cinema como quem vai à janela. Porque não tinha de pagar bilhete. Se tivesse, com a minha semanada mínima ficaria a gastar os cartazes e a preencher os espaços entre eles com a imaginação – eram lindos: pequeninas exposições fotográficas emolduradas a cartão duro, cenas roubadas do filme e um poster de encher a retina, descomunal, à laia de sumário. Enfiava-me na frisa depois das obrigatórias perguntas de precedência às tias velhas a saber se iam ou se tinham dado os lugares às amigas velhas iguais. Chegavam a juntar-se séculos à volta de uma pessoa. Todo o filme a dar ao dente e à língua de pó de arroz. Gatas pretas, grandes e gulosas, com os seus rebuçados, as suas bengalas, brincos, pentes de cabelo, anéis e pulseiras rebrilhantes, e uma pessoa a contar os lugares. Irra.
Outra coisa boa era poder repetir as sessões. Tarde e noite. Rir logo por antecedência. À noite quando de fui de companhia da minha tia ver a mesma Tess que tinha visto à tarde desafogada e desacompanhada, ainda ele não tinha levantado o chapéu da cabeça e já eu ria da folha de couve que o resto do cinema iria encontrar debaixo dele dali a um minuto. Na verdade, como o riso é contagioso riu um cinema em peso antes da couve surgir e mais riu depois. Ainda bem - naquele momento de Tess ainda há uma primavera pequenina antes da sombra cair e a esperança.
Com A Escolha de Sofia, uma coisa fulmínea, descobri que lá em casa não havia Emily Dickinson. Porque fiz como ela. No intervalo apontei o nome num guardanapo do café. Só a li em inglês de empréstimo e pasmava-me daquilo, coisa mais fora do tempo, poder ser mais velho que as tias velhas e fresco, ar fresco.
Anos mais tarde, um dia tão feliz, encontrei Emily Dickinson portuguesa na Livraria Apolo 70, foi Jorge de Sena quem a fez nacional e boa.

Desde a cena da biblioteca, no filme, soube que era para escrita e ponto final - na verdade, já sabia mas as certezas demoram a convencer porque chegam carregadinhas de dúvidas. Aquele foi o dia em que senti que a minha árvore estava plantada no meu coração. E se não tivesse talento suficiente, ou disciplina, teria de os inventar e acreditar que acabariam por ir chegando. Porque é no escuro que alma vê. E eu vi:
Ample make this bed.
Make this bed with awe;
In it wait till judgment break
Excellent and fair.
Be its mattress straight,
Be its pillow round;
Let no sunrise' yellow noise
Interrupt this ground.

22 de junho de 2013

xxiii - Ces petits riens

i - C´est quoi choisir? Às vezes, pergunto-me: mas o que raio faço eu aqui? Qualquer que seja o "aqui". O que vale é que me lembro logo: também fui eu que fiz o "aqui" e somos os dois impermanentes por natureza. Um "aqui" só é permanente por decisão, porém é sempre auto-limitado já que a sua maior amplitude potencial é enquanto a vida dura. Agora lembrei-me de David Mourão Ferreira: Que dúvida Que dívida Que dávida/Que duvidávida afinal a vida

21 de junho de 2013

Bonjour Mundo!

běifāng yǒu jiārén juéshì ér dúlì
yí gù qīng rén chéng zài gù qīng rén guó
nìng bù zhī qīng chéng yǔ qīng guó
lai lai lai lai 
běifāng yǒu jiārén juéshì ér dúlì lailailailai
jiārén nán zài dé


Já, sei, já sei... Mas o que quer? Nos solestícios é esta. Solar. FELIZ VERÃO!

16 de junho de 2013

Menina Amor

Your life is your life
The Laughing Heart, Charles  Bukowski
Há poemas aos quais é preciso regressar uma, duas, três, dez, mil vezes e tantas quantas forem necessárias até que o corpo os saiba cardiacamente, compassados, bem respirados. Porque são poesia. E são sarça ardente. Revelações.
As mulheres não são como os homens. Não se partem da mesma maneira. Com ou sem ironia, são muito como as bonecas, são desmembráveis. E pensam que foi o amor quem as desconstruiu assim, e agora como é que volto ao lugar, como é que me colo. Há homens que têm natureza predatória - mulheres também. Hoje, neste tempo, não se pode dizer que é coisa de gente sem compaixão, tem de dizer-se, sem empatia e outras higienes para dar novo nome aos venenos. E convém fazê-lo sem advérbios de modo e sem recorrer à exclamação. Se o discurso se quer credível tem de ser átono. Porém a dor é adverbial e exclamativa e ouve-se - e o prazer.
Não falo de desgostos de amor. Falo de perigosidade. De destruição. Também isto acontece: crimes sem corpo de delito.
Os cordeiros oferecem-se, e não sabem, para ser sacrificados. Pensam que é amor. Que é isso o sacrifício do amor. A vida. E não é isso o sacrifício na sua dignidade, na sua honra: um leão pode dar a vida por um cordeiro, não pode pedir a um cordeiro que dê a vida por ele. Não é isso o amor. Uma vítima não sabe amar. É ignorante da sua própria e íntima verdade.

15 de junho de 2013

Contos de uma página só - i

Todas as memórias são o rasto das lágrimas
2046,  
Wong Kar Wai
A FILHA DE JOHN WAYNE
Caminhavam de mãos dadas. Ele nem sabia o que fazer dos dedos, via-se nos dentes de cavalo novo a alegria igual à dos dedos, tudo irrequieto, a anatomia palpitante, o andar elástico. Poderia dizer-se que a felicidade era para sempre: também o mundo era um cavalo jovem, via-se na noite sem mácula de aragem. Mais tarde, céus de verão assim, só pintados nas igrejas decoradas mesmo rente ao terramoto que varrera tudo menos aquelas abóbadas de cenário popular.
Uma vez, em pleno velório, ela pusera-se a pensar nisto enquanto choravam em redor do morto. E ela como se nada fosse de olhos pregados no papel de lustro azul a tentar ler a data por retocar havia séculos: 1768. Lá te aguentaste nas canetas, disse às tábuas pintadas acima. Era uma cabra insensível. Morressem, morressem, logo que o corpo frio não fosse seu em nada, engolia e aguentava-se nas canetas também. A inocência que se fodesse, não trazia nada de bom a ninguém: só espalhava o seu cheiro a carne doce a cada passo, e o perigo no encalço. Não havia raça mais nojenta do que o homem. Se não houvesse a luz do dia e gente em volta eram animais e, ali mesmo, em plena rua, lhe rasgariam a carne depois da roupa. Compreensão? Compaixão? Isso é coisa de fracos ou de bêbados. Um homem só entende duas línguas: a da dor e a do prazer e só uma o prende: a que fala com ele, bífida.
O que falta à educação é a sinceridade. Tudo é bons modos e escola de cortesia para tratar com hienas. O sofrimento, ao contrário, é uma escola que não esquece e prepara bem. Só depois disso se pode ser feliz, quando se vê a morte e se lhe diz: foge senão mato-te. Vivemos porque deixam. Esta é a verdade.
Fosse como fosse, agora ele era uma hiena como outra qualquer, dia a dia, misterioso e genético, encolhera, ganhara pêlo, pusera no chão as patas dianteiras onde antes tivera braços, e as mãos que apertavam de júbilo as dela. A juventude é muito muscular, os tendões têm vigor para amparar o impacto do salto de um homem acabado de nascer homem: quando ama pela segunda vez, é com a fúria da primeira: volta-lhe a fome das entranhas com que agarrou e sugou o leite à mãe. Só que àquela mulher pode comê-la toda de tanta liberdade. Consegue agarrar o sol e lento, cheio dele, retorna à terra, dá-lhe a mão, porque ela é divina, e por ela mata e morre - se não fosse divina, esquartejava-a como uma vaca. É tudo sangue em ramos de rosas e elas, cegas, só vêm as flores, metem dó. Compreensão? Compaixão? Pode dar-se-lhes um pontapé como a um fraco ou um bêbado.
O facto é que, ao fim de tanto tempo, estavam os dois na cidade. Era domingo e o rio ao fundo. O Terreiro do Paço desolado de calor abria tais brechas na terra seca que a calçada estalava. Não se suportava a claridade e as pessoas passeantes enfiam-se arcadas adentro e desapareciam na sombra das pedras largas.
Deus explicou tudo e mesmo a literatura, a matemática. A simetria dos olhos, das pernas, dos pés mostrou-o também: um par não são dois. São dois iguais, um à direita, o outro à esquerda. Um par é o dia e noite. Perseguem-se porque são um. Como dois inimigos ou velhos amantes já no fio do ódio.
Ninguém viu aquela hiena enorme sair da água, arreganhada subir as escadinhas do cais. Vinha potente, alfa da sua rua, húmida. Ninguém viu porque de dentro das colunas frescas tinham os olhos na mulher de preto, parada no centro ardente do terreiro, de preto e saltos altos. Com as mesmas mãos de antes, com a mesma vontade, segurava agora uma arma. Quieta a espreitar a margem. Só se juntaram para ouvir o estertor da besta nas suas últimas palavras. Quando ela, sem dó nem arrependimento, lhe perguntou:
- O que vieste fazer?
- Vim morrer. E tu?
- Vim matar-te.

13 de junho de 2013

Ó meu rico Santo Antoninho, não te desgraces...

ISTO ASSIM NÃO PODE SER, MEU RICO SANTO!
Ó meu rico Santo António
Isto assim não pode ser
Tenho um Amor e não sei
Onde raio se foi esconder
E ele - espero que triste
Há-de ter pensamento igual
Ó malvada mulher que fugiste
E que grande é Portugal!
Ó meu rico Santo António
Isto assim não pode ser
Estou aqui estou a apagar
A vela que acabei de Te acender

11 de junho de 2013

Bonjour Mundo! PARABÉNS! VIVA!

Cabeça de Cão

FOI HÁ UM ANO,
FOI ASSIM...
EU NÃO DISSE?
SIM, DISSE.
AGORA, DOUTOR LEITOR:
MERCI. KISS.

lailailailailai
can´t you see it´s possible
and oh oh so probable
lailailailai
with a little luck 
lailailai before
the day can turn to night
with a little luck lailailailailai

4 de junho de 2013

Caramba... há que dizê-lo

Este rapaz devia usar franja como a Beatriz Costa - sim, isto é bom: a Beatriz Costa era fresca, não tinha papas na língua nem lhas comiam na cabeça. E com esta vos deixo. (Link à esquerda como convém ao espírito da coisa.) Boa noite.


  CANTA BLOCO!





3 de junho de 2013

O amor morde

Dracula
AS DENTADINHAS DO AMOR
O vampiro é uma criatura pequena que nunca viu nem leu o Crepúsculo e mora dentro do nosso amor. Todos os rapazes têm um vampiro. A maior parte do tempo é coisa microscópica, dormente e, na verdade, se acorda, é pateta como um chihuahua a ladrar a um touro.
O vampiro vem e, zás, morde e bebe o amor que temos ao nosso amor e em troca deixa a marca dos seus mínimos dentinhos. Que nervos! Irrita mesmo quando é indistinguível de um mosquito: zumbe um ciuminho, não vê que fomos ao cabeleireiro e não quer saber se fizemos, sei lá, mousse chocolate só para ele. Diz assim: hoje não quero sobremesa, como amanhã. Porém quer, e se quer, que provemos quando ele a faz para nós: ó, nunca comi mousse assim, e foi para mim…
É preciso dizer: o vampiro é um tonto, amanhã é muito longe e pode mesmo nunca chegar.
E ele faz o quê? Dorme num caixão enquanto está sol lá fora. Um desperdício do nosso amor tão claro.
Sei muito bem o que nosso amor está neste instante a dizer:
Quem diz é quem tem
um vampiro também,
e mesmo agora ele
acabou de me morder!
Espera que já vais ver...

2 de junho de 2013

Ces petits riens - xxiii

i - C´est quoi Dieu? Agora que penso nisto, vejo que não se acredita em Deus, no infinito que não principia nem acaba, nos Seus mistérios de regra e aleatoriedade, não por racionalidade mas por arrogância: acreditar Nessa maior maioridade, obriga-nos a aceitar a nossa pequenez. O problema do ateu não é com Deus, é com sua própria e grande falta de humildade.

1 de junho de 2013

Herberto Helder - só por causa de Manuel António Pina

OS LIVROS
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo "eu"entre nós e nós?
Manuel António Pina,  in Como se Desenha uma Casa, A&A, 2011

OS  LIVROS
Hoje, quando acordei, o meu pensamento foi para Manuel António Pina. E não foi um bom pensamento. Ficava-me bem dizer que foi por causa de um verso dele, de uma linha. Mas ele e eu não precisamos disso entre nós. Explico.
Não conheci Manuel António Pina. Fui conhecendo, poema a poema, crónica a crónica. Faz-me muito feliz ter com quem ir pensando coisas que também penso, e as outras, aquelas que sem a pessoa estar presente na nossa vida nunca nos passariam pela cabeça. Tenho muita sorte. Tenho bons poetas ao meu lado, andam, vaidosões, armados em versos pela casa toda.
Não seria melhor se estivéssemos juntos, na esplanada, a tomar café. Pelo contrário. Haveria todo aquele incómodo cheio do ruído que embrulha o pensamento, o corpo,  e mesmo a vida para além do cinco sentidos. O relógio, as diferenças irreconciliáveis e, de certeza, as picuinhices enervantes que só têm beleza quando se ama de carne e osso, quando se ama assim de cama e fogão.
Só me aborreci com o Manuel António Pina uma vez. Há bondade nele - ora isso dificulta até o mau génio de uma pessoa como eu. Foi quando ele morreu. Porque me lembrei da história do almoço para as trezentas pessoas que compram livros de poesia em Portugal. Ele tinha escrito isso numa crónica. E nesse dia, de irritada que fiquei, só me apetecia atirar-lhe à cara a traição daquela reunião que não se fez e à qual não iria. Para quê? Fazer o quê? O que é que se diz a alguém de quem se gosta tanto de ler e ter à disposição egoísta na estante:  leio sempre o que escreve, gosto muito, obrigada. E depois fica-se ali num constrangimento de 2 de Paus por não haver nada a acrescentar. Tudo quanto é importante não tem palavras quando lhe falta o quotidiano do convívio, o conforto do abraço. E a conversa de circunstância está aquém demais até para os tímidos.
Hoje, quando acordei, o meu pensamento foi para o Manuel António Pina. Com quem então trezentos?! E ele nada. E o livro do outro, cinco mil exemplares, foi-se ao ar. Nicles. E ele nada. É melhor mudar o almoço para um pavilhão para enfiar os 4700 que faltam. E ele nada. Uma paciência de santo.
Sei que ele já me perdoou por ter um humor terrível, daqueles que pega e não larga, e insiste, tão chata quando algo importante me foge e não entendo, não quero - que nervos!
Sei. Tenho Servidões na mão.