29 de maio de 2013

24 de maio de 2013

A físico-química da Sorte

Gosto de cozinhar. E de fazer doces, mesmo bolos logo que não levem farinha. Faço coisas com farinha, claro: pão disto ou daquilo, mas quase sempre de azeitonas, mesmo bôlas, lindas e altas como só no norte, tartes doces ou salgadas, agora lá bolos com farinha é que não - é uma incompatibilidade. Em contrapartida tudo quanto seja de ovos, açúcar, amêndoa, até quando penso que os desgracei, saiem bem. E compotas. Arroz doce. Mousses. Nougat. Praliné não faço senão comia-o todo apesar de não gostar de quase chocolate nenhum. Há um que me dá volta ao juízo. Felizmente está em São Tomé e em pouquíssimos sítios mais. É uma perdição. Xô.
Isto porquê? Estava aqui a pensar que a Sorte deve ser a consciência da proporção equilibrada do positivo com o negativo. Quer ver?
Comprei um açúcar moreno tão bom que eu que não gosto de açúcar que se sinta, até o experimentei na ponta do dedo. Delicioso. Foi uma daquelas coisas: bateu-me nos olhos, comprei-o, provei-o e sabia exactamente como imaginara. As papilas gustativas da menina língua têm imaginação - é natural, pois se têm memória...
E comprei umas mangas tão más que eram impossíveis de comer. Bandidas! Raramente uma manga me engana, conheço-as de gingeira. A fruta que me engana é a ordinária da melancia e o sonso do melão, logo a mim, que gosto tanto deles que faço o figurino completo: aperto, cheiro, ouço, e depois, zás, pepinos. Isto é mentira - já foi verdade. Desde há dois anos para cá perdi a vergonha: quando vejo alguém a rondar melões e melancias com aquele ar de, conheço-te, estampado na cara, aproximo-me e digo: gosto tanto mas só tenho dedo para pepinos, escolhia-me um? Olhe, sou um génio com pêssegos, se quiser, é um gosto. Obviamente, tudo isto é quando vou ao supermercado, porque quando vou ao meu mercado secreto até as melancias estalam de doces nas traseiras do carro.
Eis a Sorte: excelente açúcar, papilas gustativas atentas, péssimas mangas. Resultado: um chutney de manga perfeito. Quer provar?

23 de maio de 2013

Bonjour Mundo!

lalailai oh we can do anything we want
live it up so live it up live it up go
oh and we ain’t stoppin’ ’till we’re done
live it up so live it up live it up
go go go lailailai


22 de maio de 2013

A Casa - viii

Peder Severin Kroyer, Summer Evening at Skagen, 1892


UMA ESMERADA DESEDUCAÇÃO - O PRÉMIO
O meu avô e a minha avó eram tão diferentes quanto um homem e uma mulher podem ser pelas definições da natureza e das circunstâncias. Onde um era baixo, a outra era alta. Se ele era moreno, ela loira. Olhos líquidos de pretos e verdes de musgo.
E no resto. O pai deste meu avô, o meu bisavô Manuel, aquele que tinha um pato de estimação que ia com ele para todo o lado, era um homem pequeno, seco e compacto, o cabelo era uma escova branca e rija, e de uma voz baixa e mansa cuja autoridade se fazia ouvir por todos os lados, na pontualidade, na distância do respeito e em mais que tudo no silêncio em volta. Tinha de ser assim, foi ele quem recusou o que a vida lhe deu de herança, nada, para inventar uma vida para os filhos que havia de ter. Queria-os sólidos para garantir que aguentariam caso, como nas casas dos três porquinhos, o lobo soprasse forte. Queria-os, sem liberdades, para a engenharia, coisa segura.
Porém, o seu filho mais novo, o meu tio António, tenor e doente de nascença, encheu-lhe a casa de música e do raio daquela inexplicável doçura de quem ama e vê a beleza toda pelas frestas do quotidiano por saber que cedo vai perdê-la. O meu avô era igual no desalinho da carreira, apaixonado pelo desenho e pela pintura, e adorava o seu irmão António – digo assim porque era assim que ele dizia, o meu irmão António, a vida inteira ao lado dele esta mancha luminosa e a religião da Deutsche Grammophon para o invocar pelo lado de dentro de outras vozes, talvez mediúnicas.
Ora, o meu bisavô não podia dar-se ao luxo de educar estetas e, ao meu avô, fechou-lhe as portas das Belas Artes. O meu avô desde esse dia não riscou um traço. E tinha uma grande implicância com o amadorismo e a criatividadezinha.
Uma vez, há muito tempo, era pequenina, ainda existia a 4ª classe, ganhei um prémio. Naquela altura chamava-se fazer redacções. Num máximo de 25 linhas tinha de contar-se uma história. A Irmã mandou-me fazer o texto, todavia deu-me indicações precisas: não quero cá os temas que costuma escrever, ouviu? Trate de fazer um conto como os de encantar, fadas, percebeu? E que ninguém morra, muito menos afogado, ninguém adoeça, nem fantasmas, nem criadas, nem a Nossa Senhora, nem panelas de pressão, e não quero lá a vida de gente crescida.
Segui quase todas as instruções - da morte é que ninguém escapa: fiz a redacção e ganhei o prémio. A coisa foi para jornal.
E o meu avô disse-me: fico muito contente que tenha ganho o prémio para o seu colégio. Mas teria muito mais orgulho em si se o tivesse perdido.

21 de maio de 2013

Bonjour Mundo! E se a pena for, de facto, mais forte do que a espada?

Resistência Activa ao Acordo Ortográfico. O Cabeça de Cão e a sua autora resistem. E estão com as 
VOGAIS E CONSOANTES POLITICAMENTE INCORRECTAS 
de Pedro Correia, pela Guerra & Paz.
Lançamento hoje, às 18:30, em Lisboa, na Bertrand do Picoas Plaza

19 de maio de 2013

Bonjour Mundo!


lailai lailai
don´t cha you wish your girlfriend was hot like me
don´t cha you wish your girlfriend was a freak like me
don´t cha you wish your girlfriend was wrong like me
don´t cha you wish your girlfriend was fun like me
don´t cha
lailai
Bem, bem, sei, hoje o dia começou cedinho... Força Bebés, sem dó!

17 de maio de 2013

Do Senhor Cão para a Menina Gata

UM NAMORADO PARA A GATA DA NAMORADA SABEMOS DE QUEM

A Maria João não tem um cão
Não tem não
Talvez a culpa seja do namorado
Wittigenstein é lixado
É tudo palavreado lugar pensado
Sentimento arrumado em letrinhas
Um alter ego de alfabeto todo muito recto
Ora isso pede orelhas de gato
Agudas atentas bicudas agulhas
À rosa dos ventos porque
De tempos a tempos a João é a Alice
Sempre a cair não pode subir
Tomou o gato por coelho
E foi atrás dele - que havia de fazer
Se era o menino dela toca a correr
- Não é menino gato é Gata Menina
Corrige-me a mais que perfeita voz canina
- Obrigada Senhor Cão
- Então
Insiste o Cão
- E se déssemos um namorado
À Gata Menina da namorada sabemos de quem
Um gato letrado de facto e em fato e de laço
- Esta Gatinha é uma Princesa Menina
Tem de ser um Senhor Gato um Príncipe Filósofo também
- Pois está muito bem

12 de maio de 2013

A Casa - vii



VALHA-ME DEUS QUE É MILAGRE! EQUÍDEO...
A minha avó tinha um humor, vá, queirosiano. Não lhe bastava a presença impressiva, o sorriso que nos deixava a pensar, terá achado graça ou uma desgraça, ser uma mulher, que diabo, há que dizê-lo, bela e ter um pulso férreo. Não, tinha de ter aquele humor. Explico. Era de uma grande implicância com a Igreja Católica em geral e com Fátima em particular. E não acreditava em Deus. No entanto, atirou comigo para um colégio de freiras – estou convencida de que não me enfiou num convento porque o ar do tempo era outro, tivesse nascido 100 anos antes, e zás, clausura.
Azarucho do caneco, saiu-lhe por neta uma beatorra do piorio: cresci com o gosto dos santos, a paixão pelos registos, os roliços barrocos, o drama dos ex-votos, e com uma loucura por água benta e de beijar o pézinho do Menino, factos geradores de tal incompreensão repulsiva que anos depois, uma vida, ainda me abanam os tímpanos com os agudos da indignação: parece que é parva, que nojo, não há milagre que limpe esses viveiros de doenças, que nojo!
Isto porquê? Liguei a televisão. Zapping noticioso. Peregrinos chegam a Fátima. Ora, Fátima e eu é um tu cá tu lá. Aquela Loca do Anjo dá-me cabo de séculos de racionalidade num segundo - apesar do anjo ter o cabelo igualzinho ao do Vegeta. Isto para não falar dos outros altares Marianos do mundo. E o que nem conto? E o Rocío? Enfim, desgraço-me. Ao que queria lembrar.
A minha avó tinha farpas, perdão, frases extraordinárias. Uma vocação perdida para o sound bite. E para uma descrente recorria sempre a Deus em cada uma delas. Era crescidota eu. Pareceu-me que teria mais hipóteses de sucesso se informasse em vez de pedir: Avó, olhe, como gostava muito de ir na peregrinação a cavalo, a Fátima, se calhar ia já para Évora.
- Valha-me Deus, ainda nem estamos a 13 de Maio e já se deu um milagre: uma burra a cavalo.

10 de maio de 2013

O meu amor


Um perfect date. Aposto que o amor está a pensar: ah, pois é...
De vez em quando lá vem a pergunta: porque é que não tens namorado? E zás. Há verdades que só se podem dizer a estranhos. Gostava tanto de gostar de namorar. Mas para isso tinha de gostar do namorado como gosto do meu amor. Ah, então tem um amor... Claro que tenho. Cresci a pensar nele. Mesmo antes de aprender a escrever já sabia muito bem que havia um amor meu ainda que não soubesse quem ele era. Mas estava desejando de o conhecer pois mal o visse... és tu. A felicidade é como o algodão do reclame: não engana.
De vez em quando lá vem a pergunta: não te cansas de estar sozinha? Eu? Ando acompanhada. Quando vou ao supermercado ponho rímel nas pestanas - não vá dar-se o caso do amor aparecer do nada. Já treinei o meu olhar, aprendi num filme: fito-o, de repente, sorrio um segundo até ao fundo, e depois finjo que nem o vi. Ele, coitado, há-de ficar fulminado, ali. Só não o vi todo estatelado porque ele não faz compras onde faço.

Já sabia, diz o amor, estou bem lixado... - ó, pois está, coitado.
De vez em quando lá vem a pergunta: queres jantar comigo? Não. Para quê? Aborrece-me de morte o jantar do pavão, fico má, apetece-me arrancar-lhe as penas e vendê-las ao Carnaval do Rio. O meu amor não iria convidar-me para esse jantar que só de pensar me faz engordar. Há-de levar a comer porcarias daquelas que enjoam tanto que se acaba a rir, a dizer, juro que nunca mais: cachorros de rua, sobremesa de algodão doce, sumol. Ai quem me dera que fosse manhã. E que lhe caísse uma nódoa de mostarda na camisa branca para lha apontar e fazer pouco dele.
De vez em quando lá vem a pergunta: não estás farta de esperar? Podia mentir e queixar-me muito. Mas a verdade é não. O meu coração é mais firme do que qualquer chão. O meu amor é meu. Decerto um dia saberá. Quando souber, vem. E eu não quero mais ninguém.

5 de maio de 2013

Parabéns ao Cão! Viva o Cão!



Quem é o perfeito? O mais que perfeito, quem é? O ideal concreto é quem? As quatro substantivas patas, o cabeça de cão do tão balalão?! Quem? É o próprio do Cão!