28 de março de 2013

Poema de Quinta-Feira Santa

Esta é a photo tirada pela polícia ao beijo roubado em Odessa e recuperado em Berlim. Do meu rico Caravaggio, claro.
POETURA - ii
(CARAVAGGIO - ii)
POEMA DE QUINTA-FEIRA SANTA
CROCODILOS DANÇAM

Quando os nossos amigos se sentam
À mesa dos nossos inimigos
Enquanto avançamos com tanta dificuldade
Pois se Deus partiu rodeado dos anjos e das suas espadas
E nem nos deixou uma concha de luz que se pudesse beber
Com tanta dificuldade e a água barrenta pela cintura
A passos lentos sobre a areia mole
Quando os nossos amigos se sentam
À mesa dos nossos inimigos
Pré-históricos crocodilos dançam
Imensos de sangue frio e os dentes
Cheios do riso de quem nos vai comer
Dançam contentes para depois bem chorar:
Gosto tanto dele é tão bom faz tão bem
E nós surpreendidos no estômago da besta
Pequenos demais deglutidos trabalhados a ácidos
Ainda perguntamos
Inimigos eu traição porquê se um grão é nada
Um grão é nada apenas se não for semente

Porque hoje é quinta-feira


POEMAS COM ADÉLIA PRADO DENTRO - iv
MIL MULHERES MORTAS À TUA PORTA

Traz uma lei um jugo uma prisão
o amor é criminoso
e voluptuoso ferino exibicionista
mesmo em hora de expediente
aparece num truque de ilusionista
vindo do impenitente coração
sem arrependimento inconveniente:
o amor precisa é de casamento
para ser uma relação civilizada
de tu pão e eu mostarda dois a comer
a memória do sabor do cachorro
Mil mulheres mortas à tua porta
Tenho de afastar a carne nua
uso um sorriso na pontinha dos sapatos
outro na elegância assassina dos saltos
para passar

Bonjour Mundo!

lailailailai
baby the way that I'm working my body
i can tell that you already like it
i make you lose your cabeza
baby we don't even need any music
cause we make the beat when we moving
lailai


21 de março de 2013

Bonjour Mundo!

lailailai
baby
lailai
I wanna dance, and love, and dance again
I wanna dance, and love, and dance again
lailai


16 de março de 2013

Porque hoje é sábado


POEMAS COM ADÉLIA PRADO DENTRO - iii
AI QUE HOMEM BOM...

Meu amor é homem bom
Muito fino e letrado - coisa
De homem safado. É danado
De in-te-lec-tual, veja só
Ele diz que carnaval
É de razão pro-ce-ssi-o-nal
Antiga, lá de um Portugal
Desfilante e ba-rro-co
Eu lhe respondo:
Deixe isso, benzinho
Tome uma água de côco
E espie o samba no meu pé:
Melhor que Santo em andor
Meu rebolado é que nem meu cozinhado
É de vixe Maria, Nosso Senhor…
Meu amor é homem bom
Muito fino e letrado
Me oferece livro encadernado
Bonito demais para usar
- Mas leia, querida, é Machado
Vais gostar, e lembrar de ti no olhar de Capitu
- Logo leio o filme no cinema, meu bem
Agora, vem, que quero ver o livro em tu.

14 de março de 2013

11 de março de 2013

Porque hoje é segunda-feira


POEMAS COM ADÉLIA PRADO DENTRO - ii
SEGUNDA-FEIRA DE ESPERANÇA

Hoje segunda-feira todas as segundas
dia da criação
fazemos com esperança e de lábios vermelhos
o céu e a terra e a todas as criaturas
alimentadas de leite e mel
Sexta-feira à noite
em escuro preto de luto
contemplaremos a nossa obra
levantou-se ruiu
e respiraremos fundo o novo fôlego
já para segunda
- isto se não tivermos morrido quarta-feira à tarde
de uma surpresa branca
que daria cabo do fim-de-semana

7 de março de 2013

Porque hoje é quinta-feira

MENINAS SERPENTINAS

A maçã é proibida
e elas também:
as meninas são do pai
antes de serem a mãe
e quando são só delas
são de ninguém
Então pintam as unhas
em inocente encarnado
um imaculado e redondo
mordido pecado

FLOR DE SANGUE

GIRLS ON FILM: MEIKO KAJI
FLOR DE SANGUE


Quando era pequena, todos os dias o mundo mudava: todos os dias havia um filme novo no cinema. Jerry Lewis. Bruce Lee. Marisol. John Wayne. Gene Kelly e Fred Astaire e só uma Cyd Charisse para os dois. Ninguém queria saber se o filme tinha vinte ou cinquenta anos, ou se tinha passado dois-fins-de-semana antes, ou saíra ontem: era sempre novinho em folha no tempo em que as heroínas do cinema indiano cantavam com a voz da minha Lata Mangeshkar. Os títulos? Como não há, creio mesmo, nunca houve, nem então. E as meninas dos filmes, tão lindas, de uma pessoa querer crescer durante a noite enquanto dormisse para acordar crescida assim. Mas melhor que tudo eram as tragédias e as vinganças… ó drama bom.



Lady Snowblood é um filme de Toshiya Fujita, dos anos setenta. Lady Snowblood, Meiko Kaji, é Yuki, uma assassina. A família foi dizimada e ela parte em busca da vingança que obterá. A música, tão bonita, Shura no Hana,  foi muito bem reposta nos nossos ouvidos quando Tarantino fez Kill Bill - e ele usou-se, também, de parte do imaginário de Lady Snowblood, e mesmo da imagética, basta olhar para a morte de O-Ren Ishii na neve. E agora, em Django, o sangue nas flores brancas vem de lá.
Esta é a inesquecível canção, ouça todinha. E em baixo, tem a letra contada, vá, fielmente, em português, a partir das traduções disponíveis, em espanhol e inglês, no YouTube, ao meu jeito, pois então - a linda mais que linda Meiko Kaji, que é também quem a canta, sim, bela e talentosa, não vai zangar-se comigo -, ela sabe que são tão boas estas histórias: têm o drama mais infantil, o da cor do sangue, o herói solitário contra o mundo, desprotegido como uma flor. São mais que boas estas histórias, sejam a oriente de olhinhos em bico ou a oeste de cowboy. E na tela voltamos à quase sempre impossível simplicidade do bem e do mal.


Shura no Hana - Flor de Sangue
A neve, branca de luto, cai sobre a manhã morta, e assim ela caminha com o peso dos céus sobre os ombros e abraçada à noite escura dentro de si. O barulho das sandálias, o latido de um cão longe, atravessam o vento de lâminas e a sombrinha de papel é tudo o que tem para o enfrentar. É o caminho que guia os passos de quem há muito desistiu das lágrimas. Eis o rio. As lanternas que alumiam os viajantes estão apagadas. Os grous imóveis: gelaram de frio. E o vento. A neve. O cabelo, que despenteado, e a sombrinha de papel reflectem-se na água fria, mas nem uma lágrima sua acrescerá ao leito das águas. Nada sente quem deixou o desgosto onde deixou o coração. Desejos. Sonhos. Ontem. Amanhã. Bondade. Justiça. Palavras sem significado para a vingança: esta mulher vai matar quem a matou, vai recuperar o seu tesouro de lágrimas.

6 de março de 2013

Porque hoje é quarta-feira


POEMAS COM ADÉLIA PRADO DENTRO - i
COZINHAR, LAVAR A LOUÇA, ESPERAR
Quando as pernas juntas
só um pouco se separam
a sombra de uma coxa
repousa na outra
escuro a abrir o escuro
Estar sentada no degrau da entrada
da cozinha - uma coisa de Adélia Prado
e de mundo com quintais
estar sentada no degrau a descascar ervilhas
quando as pernas juntas
só um pouco se separam
e cabelos obstinados caem sobre o rosto
e de volta atrás da orelha
Nem um eco de um passo de homem
bate na soleira da porta e sobe ao céu
nem um eco nem um ai
mas a luz cai com uma gota de humidade
no reflexo do cabelo agarrado à face
afastá-lo para quê
se o sol brinca no joelho
Ervilhas soltam-se à mais leve pressão
do dedo que desliza no carreiro
estreito
e a sombra descansa na sombra