29 de dezembro de 2012

MÍNIMAS - iii



Nunca percebi o amor platónico, descarnalizado. O amor é a experiência da proximidade, tudo ali, íntimo, quotidiano, perto quase demais. Ter um amor platónico é  o mesmo que comer uma sopa de letras e esperar que o alfabeto de massinha escreva um romance.

28 de dezembro de 2012

Meditação Amorosa


Media nocte surgebam ad confitendum tibi

NOCTURNIS VIGILIS - meditações amorosas -
i
Que um grande silêncio desça sobre os sentidos e a respiração se alongue. Que o coração conheça o perfeito batimento e a sombra das pestanas caia sobre o olhar. Que o desprendimento faça ouvir a voz do mundo, o passo do amante se pressinta na distância e todas as chegadas se anunciem à partida. Que o teu nome não cesse de aflorar aos meus lábios.
ii
Em silêncio, em silêncio de escuro segredo, espero-te ó luz.
iii
Que a manhã venha com o nome que lhe deres: a luz dorme num casulo de sombra.
iv
Estrelas caem só para iluminar os corações no escuro.
vÉ lenta a travessia da ausência: só o coração aceso ilumina o mar quando escurece.

Bonjour Mundo!

je veux d' l'amour 
d' la joie 
de la bonne humeur
lailai
moi j' veux crever la main sur le cœur
lailai


26 de dezembro de 2012

A Casa - iv


NUA NUA NUA
No início do século xx, Viena estava apaixonada pela América – bem, Viena e o resto da Europa sonhavam a vapor e progresso em inglês de verso livre. Mas esta cidade quando ama, não é de sentimentos intangíveis, é de amor carnal, e isso faz sentido, o coração é um músculo, e assim vê-se na expressão do seu corpo, a arquitectura. Logo, bares americanos, de americanos e de inspiração americana, apareceram aqui e ali. Sobreviveram alguns. Um conheci. Abriu em 1908 e ainda hoje recebe clientes e amigos exactamente por esta ordem: entra-se uma coisa e sai-se outra, mais sublimada. Há-de ser isto a alquimia.

Leopold tinha então noventa anos, magros e altíssimos, uma bengala que pertencera ao avô ajudava-o a caminhar uma insuspeita diabetes. Esguio. Sobrancelhas finas numa linha bem desenhada seguravam as pálpebras descaídas sobre os olhos tão transparentes que assustariam não se vislumbrasse neles uma clareza de céu. O cabelo todo, branco, cortado curto. Uma feição clássica que o tempo envelhecera muito bem. Só os ombros levemente dobrados – obstinações do esqueleto que a vontade não consegue contrariar. Era o dono do Americano. Café, bar, restaurante, e um belíssimo jardim para dentro, onde só a convite pois era a ponte para o edifício do outro lado, a sua própria casa.

Quem entrasse no Americano depois do jantar, encontraria, invariavelmente, Leopold na primeira mesa junto ao bar, sentado não na cadeira, mas no banco corrido e confortável forrado de cabedal preto que serve mesmo hoje as três mesas dispostas em u - a quarta mesa só tem cadeiras. Mesas pequenas de tampo redondo, estas à frente do bar e de costas para a privacidade da sala de jantar. À sua frente, na cadeira, o maior gato persa que estes olhos já viram ou ouviram contar: um felino de parar os ponteiros de qualquer relógio de espanto: vinte e três quilos proporcionados, elegantes das orelhas às patas, cinzentos de chumbo e safiras nos olhos. Dentes a condizer. Nem se respira.

O meu pai disse-me: o Leopold bebe genebra e o gato também. E eu? Perguntei-lhe. As meninas não bebem genebra. O que é genebra ainda não sei, sei que foi nessa noite que descobri o que era champagne: um vinho fresquinho e gasoso, proibido, menos dessa vez, que fazia uma impressão risonha no nariz, e nariz de gato de persa. E porque tinha tanto medo de gatos, ainda o meu pai: não precisa de ter medo do gato, passada a genebra, salta da cadeira, pula para o banco do balcão e depois para o balcão e dorme ao comprido. E o Leopold? O Leopold convida para um passeio no jardim para ir ver as lindas, a seguir conversa-se na biblioteca. Quem são as lindas? São rosas em rosa escuro, de cheiro  forte como perfume, que foram criadas para uma linda mulher. Ele chama-lhes as lindas. Quem é ela? Também quero rosas minhas.

Chegámos.
- Porte-se muito bem.
Na Viena de então as crianças cumprimentam os adultos com um gesto desusado, mas gracioso e depois bico calado a menos que fosse outro o mandado. Tudo se passou exactamente como me foi dito que se passaria.

Uma noite de Verão perfeita. E uma noite perfeita. Uma névoa de cigarrilhas. A garrafa de genebra brilhava efeitos coloridos no seu líquido incolor – o meu pai não bebia genebra, soube depois, detestava genebra, preferia o seu whisky, a não ser que a genebra viesse de Leopold. O gato, à mesa, bebeu bem lambida a sua pequenina taça e pata, pata, pata, a reclamar no braço do dono, mais uma. É a última ouviu, Urbino? Urbino ouviu, bebeu e como previsto, saltou da cadeira, pulou para o banco e dormiu no balcão. E eu? Num céu de champagne, estrelado a dourado em bolhinhas de filigrana risonhas no nariz persa. Na pontinha da língua o doce tão fino não chegava a ser doce – e amargo não era. A garrafa preta enfiada no gelo mais que gelada, só para mim, dormia de cheia, coitada.

No jardim, o ar nocturno, mais frio, acentuava as notas mais altas do perfume das lindas: rosas de pétalas pequenas e redondas, intenso rosa em flor.

Já na biblioteca, Leopold diz-me: o pai veio vê-la, já tinha saudades. E aponta a tela solitária, iluminada no escuro da boiserie entre as estantes altas.

Não parecia bela, o nariz grado, os olhos também e mesmo um pouco salientes. À medida que me fui aproximando percebi: desprendia-se dela o mesmo aroma das rosas. Nem era aroma. Perfume de muitas rosas apertadas demais em pouco espaço. Eu parva. O gato sorria.

Isto foi há muitos, muitos anos.

Há uns dias, tive a oportunidade de ir ver a exposição que o Louvre e o Museu do Prado organizaram com os trabalhos de maturidade de Raphael, os do tempo de Roma. Uma coisa bem posta, simples, e confesso, estava ali satisfeita entre a exuberância dos retábulos e a disciplina dos estudos. De repente, uma grande leva de gente acompanhada de guia com microfone, para os auscultadores, é certo, todavia um magote em peregrinação parando diante de cada pintura os dois minutos do passo da via lucis. Fica-se cego com tanta pessoa à frente. Desisto daquela sala, continuo adiante e dou por mim rodeada de Madonnas, porém já tinha o pensamento interrompido: estava perdida de vontade de perguntar ao Vasari de serviço, ao meu lado: oiça lá, então e a Fallen Madonna with the big boobies onde está que não a vejo? Não perguntei, claro, e se o Vasari não tivesse visto o Allô Allô? Farta, finto o Vasari por uns minutos e, desprevenida, volto à direita.

Lá estava ela. A nua mais vestida que há. Tão completamente vestida e tão inteiramente nua. Do penteado bem apanhado, um único caracol solto na testa promete todo o desalinho do cabelo. O corpete sobre a camisa, levemente aberto, tapado com mão sobre o peito, mais aberto se revela, amo-te, vem. O véu que a cobre melhor lhe despe o pescoço, adivinha a nuca, expõe o ombro. Há calor naquela pele. E a contenção do rosto mais exibe o ardor do olhar.

Avanço em direcção à mulher velada. Toda a beleza ali capturada vai além do virtuosismo da técnica. Belamente aprisionados, ali, são o desejo e o desejado. Não lhes resistir. Ir.

No ar nem um traço do aroma da rosa fornarina. A dois passos dela, páro para melhor a ver e sorrio. Eis que do nada, ao meu lado, Urbino, o gato, também ri, de gosto, caninos felinos de fora. Pode ser uma obra maior e ter direito a guia de microfone e turistas de auscultadores: filha da mão de Raphael não é, de Giulio Romano, decerto será. La Velata, a única e verdadeira, está na casa de Leopold, o dono do Americano, o avô rebelde de Rudolf Leopold.

Raphael, Portrait de femme, dit La Donna Velata

Bonjour Mundo!

i've heard there was a secret chord
that David played and it pleased the Lord
lailailai
baby i have been here before
i know this room i've walked this floor
i used to live alone before I knew you
lailai
i did my best it wasn't much
lailailai
and even though it all went wrong
i'll stand before the Lord of Song
with nothing on my tongue but Hallelujah

A menina canta uma versão Cohen/Buckley e desgraça a letra ao fim, mas é só porque ainda é muito bebé - faz de conta que se enganou.

23 de dezembro de 2012

UM CONTO DE NATAL, de Fernando Canhão

Vê-se que é Natal: o Cabeça de Cão recebeu de presente um conto que é um presente para os leitores. Merci. E Feliz ante-véspera de Natal.

Pierre-Henri Cami edi­tado em 66 pela Afro­dite. No conto “O filho do Bêbado ou o pequeno jus­ti­ceiro” a exis­tên­cia de Deus é inequí­voca. Mais ou menos é assim, uma casa humilde, uma cri­ança ainda mais humilde(!) – Enquanto a minha mãe­zi­nha se esfalfa a tra­ba­lhar, o meu mal­vado pai embebeda-se em Caba­rets? — Entra a mãe com um embru­lho, os olhos bri­lham em ambos, mãe e filho. Do embru­lho saem figu­ras do pre­sé­pio, o está­bulo, pas­to­ri­nhos, ove­lhi­nhas, com fitas cor de rosa, pal­mei­ras cola­das a peque­nas bases de madeira redon­di­nhas, etc. etc., aqui­si­ção fruto da pou­pança da mãe, que para tal se ali­menta de um modo nada sau­dá­vel. A mãe – Esconde-te rápido meu que­rido filho, pois o teu bêbado pai deve estar a che­gar, e sei que ambos ire­mos apa­nhar e não vai ser pouco. O filho – Ó mãe­zi­nha como eu sofro, pois se ao menos te pudesse defen­der com armas de fogo, ou bran­cas, mas como assim, com as minhas peque­nas mãos de cri­ança de apenas oito anos, o dis­paro de uma Reming­ton Bolt Action Model700TM, seria devas­ta­dora na vizi­nhança, isto tendo em conta que encon­trava à mão tão pode­rosa fire-arm.

Entra o pai e tro­peça no pre­sé­pio, grande tombo e parte das figu­ras de ime­di­ato dani­fi­ca­das. – Mas o que é isto na minha casa? Ove­lhas com laça­ro­tes, reis magos mini­a­tura, está­bu­los? Isto é gozar com quem tra­ba­lha, e para quem a Nos­tal­gia do Abso­luto é ape­nas um mito. Dito e feito lança-se às figu­ras, e aos sal­tos e mur­ros tudo des­trói, aca­bando por cair devido ao can­saço e bebe­deira.

– Oh feli­ci­dade, o meu pai mal­vado, e bêbado, agora caído de borco, pelo menos, até ao raiar da aurora não irá espan­car a mãe­zi­nha, (nessa altura a vio­lên­cia domés­tica, tal como agora, não era punida, exis­tindo ape­nas alguns pre­cei­tos acerca de racismo, o que não é o caso pois a mãe­zi­nha tal como o garoto é bran­qui­nha como a neve). Mas e o meu pre­sé­pio total­mente des­truído? Que fazer?

Ouve-se o ribom­bar de um tro­vão, uma tem­pes­tade aproxima-se.

Entre­tanto o pai mal­vado, num sonho mau repete as pala­vras – Ove­lhas, ove­lhas em minha casa, mas como tal pode ser pos­sí­vel, nem uma esca­pará, depois de eu desan­dar o peque­nito e a ex puér­pera que o pariu! Cai de lado e retoma o sono dos bru­tos.

Uma ideia de cri­ança, ou os bene­fí­cios da for­ma­ção básica, o peque­nito olha em volta, e vê que uma pal­meira que esca­pou intacta. – Meu Deus será que uma pal­meira se pode con­si­de­rar uma árvore? Aprendi no pas­sado período, que durante as tem­pes­ta­des os raios ful­mi­nam as árvo­res, dando cabo de quem sob elas se pro­tege.

De ime­di­ato, coloca a pal­meira resi­dual sobre a testa do pai, e numa ques­tão dês segun­dos cai o raio fatal. – Mãe­zi­nha Deus existe(?) e é pro­vi­den­cial, o pai está car­bo­ni­zado! Toma este rolo de dinheiro, que me deu há dias um senhor em casa de quem pas­sei a tarde, fazendo uma sesta, depois de ter comi­dos uns bon­bons que esta­vam numa mesa de chá, e corre a uma segu­ra­dora para lhe fazer um seguro de vida com data de ontem. O T4 sobre a baia de Cas­cais, e o BMWTou­ring que sem­pre qui­seste ter, para te evi­tar chu­va­das quando vais tra­ba­lhar é nosso, ou para ser mais rigo­roso já é quase nosso.

Se depois do que aca­bei de des­cre­ver do conto de Cami, insisto, não che­gar para pro­var a exis­tên­cia de Deus, e o consequente Natal, então não sei que lhe diga.

21 de dezembro de 2012

T de TAI TAI

TAI TAI
Toda a gente sabe que Cheng Tinghua, quarto discípulo do mestre Dong Haichuan, morreu em Pequim durante a Revolução Boxer. Toda a gente sabe. Mas de Tai Tai, a quem ele adorava por ser mestre do seu mestre e a melhor dos filhos de Zhang Sanfeng, prova de vida deste, ninguém fala, e afinal, quantas mulheres houve no Templo da Nuvem Roxa, em Wudang? Mais que isso: entre o povo, ao lado do povo, na aspereza do chão, quantas princesas com privilégios de macios colchões de penas para sonos de seda? Uma: Tai Tai. Adorada por Cheng Tinghua, e por tantos à distância que o tempo impõe como se adoram os deuses e deusas. Bem, um bocadinho mais perto.

O marido de Tai Tai tinha duas mulheres e uma concubina. Amava e reverenciava a segunda das mulheres tanto quanto era apaixonado pela concubina. Na verdade, havia um entendimento mais que amoroso entre os três, pois, facto incomum, partilhavam do mesmo palácio, ele, a mulher e a concubina - sendo estas duas inseparáveis. Tai Tai era a primeira mulher, a principal, e ele não tinha, jamais tivera, o menor interesse nela. Sequer cumprira com o assentado no contrato de casamento. Todavia, homem liberal e em tudo atípico, logo a informara de que ela estava livre para ter os seus interesses, assim fosse discreta.

Tai Tai era então muito jovem. Não sabia quase nada do pouco que há a saber, porém, sempre lhe parecera sensato ver de ouvidos bem abertos: quando alguém diz não, procurar as razões do não é inútil, não o transforma em sim, e é desrespeitoso da liberdade de dizer não, pior, humilhante, porque subalterniza quem procura no não a razão e o sim, dando importância a quem não dá, querendo sem ser querido.

A ela era-lhe indiferente este ou outro marido: as mulheres da sua elevada classe social não levavam ilusões românticas para o casamento, não esperavam amar nem ser amadas, ou encontrar essa ilusão nos braços de um amante que desonrasse o bom nome da família de onde vinham, ou o da do marido à qual tinham passado a pertencer. Contudo, não, nunca esperara ver-se despojada do papel que fora educada para cumprir.

E, no entanto, o inesperado é o que mais acontece.

Tai Tai estava presa numa ratoeira. Não poderia fazer a longa viagem de volta à casa de onde partira para não embraçar a família. Nem podia partir para não envergonhar o marido. Não conseguia ver-se no futuro porque o presente era o limbo. Muito naturalmente, adoeceu. Como não sabia que estava doente, nunca se queixou. Só quando as roupas lhe ficaram todas grandes demais é que mandaram chamar o marido e este o médico. Nunca ninguém soube o diagnóstico, o que ficou registado na lenda foi a pergunta  que o marido lhe fez:
- o que gostavas de ver?
- Wudang, o céu na terra.

Tudo se providenciou. Tai Tai partiu com uma comitiva suficientemente pequena para não chamar a atenção dos salteadores e suficientemente grande para garantir a segurança na longa viagem. Foram meses até que chegasse a um dos mosteiros mais empoleirados de Wudang, ao mais antigo, uma gaiola de pássaros em pleno céu, a única maneira, então, de dar asas ao corpo humano.

Foi tudo como se nada fosse, como a água que corre, a chuva que cai, o sol que brilha. Habituada a obedecer, entrou pelas rotinas sem saber o que eram: levantava-se na hora de levantar, comia na hora de comer, falava quando lhe dirigiam a palavra, estudava os sutras e rezava a um bodhisattva que não conhecia para que manifestasse nela a natureza que desconhecia ter. E estudava medicina tradicional taoista, e treinava como se taoista fosse. De manhã, de tarde, ao fim do dia. E meditava de manhã, de tarde e ao fim do dia. Num só lugar, Buda à esquerda, o Tao à direita.

É preciso ver que Tai Tai era a única mulher num mosteiro onde viviam mais de oitenta homens de todas as idades, numa prática diária de síntese de fazer e pensar: o kung fu da tradição de Shaolin era ali respeitado por respeito ao primeiro abade, ao eterno mestre do templo, Zhang Sanfeng, que viera de Shaolin e entrara no pensamento da natureza ao ver como uma serpente se defendera de um repetido ataque de um pássaro: a contemplação da natureza, na meditação, como na poesia ou na pintura, é actuante. A única mulher. Uma mulher bonita, de facto, bela, esguia, o longo cabelo liso mais do que passado a ferro, uma cortina negra de pássaros a bater abaixo da cintura - nos dois retratos que ainda há dela no templo, o brilho feminino que não conhece oriente ou ocidente, quase etéreo, um passo de deusa entre mortais. Não há registo do mais ínfimo incidente, alguma vez. O que se sabe é que foi lá que se auto-nomeou: escrito pelo seu próprio punho, numa anotação no Sutra do Diamante, fundamental para prática Zen: sou sem sentido, nada mais que tai tai, e mesmo menos – este era o nome, pouco elogioso, dado à esposa principal de um homem muito rico e do mais elevado estatuto, tai tai: mulher rica e poderosamente casada, improdutiva, linda e vã.

Os dias colados e sobrepostos, todos iguais, um ano de um só dia, doze anos: dormir, acordar, estudar, meditar, treinar. Não sei, ninguém sabe, se fazemos o que somos, se somos o que fazemos. Mas sei o que toda a gente sabe: o tai chi é a respiração do kung fu, não há direito sem avesso, interno sem externo, masculino sem feminino.

Para Tai Tai nada sobrara, nada, e quando nada sobra que pode alguém fazer se não render-se ao nada e nada ser? Perder tudo é perder até a própria pessoa, mesmo quem se foi, passado que o presente revela obsoleto. Porquê? Não há resposta - nunca há, ou há todas que é o mesmo que haver nenhuma. É isso o dessentido. Acresce que não pertencia, não tinha lugar na vida de quem quer que fosse, nem ali, uma mulher entre homens, entre monges, pois homem não era, nem monja. E perder tudo é perder o futuro que o passado, desde a infância, prometeu. Há vidas que se interrompem e obrigam ao impossível: que se nasça, sabe-se lá como, do próprio cadáver vivo.

Aos vinte e sete anos desceu das altas montanhas, e do ar claustral e rarefeito, onde o equilíbrio é mais visível, para voltar ao mundo que a expulsara. Sem comitiva, fez o caminho de volta. Encontrou salteadores. Venceu-os na língua que conheciam e eles seguiram-na.

Passou no palácio de Verão do marido porque era Verão e ele estava lá. O arranjo clássico do jardim simulava a ordem da natureza nas quatro estações. Não se fez anunciar. Dizem que surgiu da sombra de uma parede.
- Vim para agradecer a doação que fizeste ao mosteiro. Mas agora que aqui estou, vejo que não há o que agradecer: o meu dote pagou-a como o meu casamento pagou ao meu pai. Na verdade, deves-me a diferença: gastaste o valor de doze anos frugais, e o dote provia a uma longa vida de luxo. Todavia, nem tu a vais pagar, porque não percebes, não podes perceber, nem eu a vou receber, porque não sou quem fui. Ora, isto é grave: não há dívidas por cobrar nas leis que regem os mundos, por isso, ama hoje que podes. A tua casa cairá, e o teu nome será apagado pela tua descendência. Não te assustes, não é uma maldição que lanço sobre ti, é a lei que tu, cego, não vês - para mim, agora, ela é evidente. Vive hoje. Ama hoje. Ama. Não há outra reparação além desta.
Infelizmente, Tai Tai afirmara a verdade. Os filhos homens do marido de Tai Tai, morto acidentalmente numa queda do cavalo, foram os quatro executados por conspiração. Os bens foram apreendidos e passaram para o império. A mulher e a concubina morreram pouco depois entupidas em ópio.

Dali, Tai Tai seguiu para o Monte Emei. Chegou à frente de um exército de ladrões, pobres, desapossados, e até estrangeiros. Levantaram um templo, de facto, uma escola aberta a quem chegasse, o único templo que existe sem concretos portões. O Templo das Nuvens Marinhas. E nele, outra coisa nunca vista, uma clínica - bem, uma sala onde quem nada tinha a não ser dor, podia chegar com a sua dor. Ainda pode. Foi também assim que estes conhecimentos medicinais, anteriormente reservados aos claustros, se fizeram do mundo.

Não teria havido revolução Boxer, se o Boxing, nome dado pelos estrangeiros às artes marciais orientais que desconheciam, não fosse do povo. Nem a forma Yang, curta, do tai chi, seria conhecida se Yang Luchan, o Invencível, não tivesse sido discípulo de Tai Tai em Emei. Não, não é a revolução que é importante, ou chamar tai chi ao tai chi. É a liberdade de conhecer e dar a conhecer a quem queira.

Não se sabe muito mais além do que Cheng Tinghua contou e já recontei. Só a lenda. Quando Tai Tai ia pelos caminhos, à direita e à esquerda dos seus passos, as flores em botão abriam-se, e nos ramos ouvia-se a respiração dos pássaros que calavam e depois a seguiam num chilreio pegado. As serpentes paravam para lhe dar passagem - mas isso, se acontecia, é natural que acontecesse: Tai Tai elevara o estilo cobra do kung fu ao seu ponto mais sublimado e mais letal. Criou o uso de uma arma insuspeita que juntou à espada de lâmina curta e direita: o alfinete de cabelo: tudo no estilo cobra é próximo, fluído, rápido, imprevisto. Não se conhece muito mais. Nunca foi vencida, e o templo do Monte Emei sofreu um terrível assalto. E que parecia extremamente jovem, coisa que costuma acontecer com mestres taoistas a despeito da estranha longevidade.

E sabe-se, ainda que não se compreenda, que numa manhã igual a todas as outras, diante dos olhos de todos, e eram mais de quatrocentos os que em uníssono respiravam a sequência de treino, parou, inspirou, sorriu e desapareceu num rodopio de luz.



Letra T, de um inteiro alfabeto feminino todo dedicado a Agustina Bessa-Luís, escritora maior.



Z de Zhen

I de ISABEL

A de AGRIPINA

B de BORGONHA

E de ESSYLT

Bonjour Mundo!

běifāng yǒu jiārén juéshì ér dúlì
yí gù qīng rén chéng zài gù qīng rén guó
nìng bù zhī qīng chéng yǔ qīng guó
lai lai lai lai 
běifāng yǒu jiārén juéshì ér dúlì lailailailai
jiārén nán zài dé


19 de dezembro de 2012

Bonne nuit Mundo, perdão, Bom Natal Malvados!


Se o mundo acabar depois de amanhã, as Boas Festas ficam-vos já desejadas. Se não acabar, também.



ps: merci pelo boneco, menina riVta!

Shortíssima


HAPPY
Estava ali, no consultório, a olhar para a revista, através da revista, Happy, a ver se percebia. Não que esperasse a vida como nas revistas, até porque eram miúdas e quase anorécticas, meu Deus, a desproporção das cabeças naqueles corpos mirradinhos, pintadas como os travestis, mas havia um fundo naquilo, não havia? coisas excitantes, um bocado arriscadas e ali a roçar o promíscuo, concedia, porém, fora o exagero e a diferença de idades, não percebia.

Era gira. Ainda tinha umas boas mamas, o rabo não era mau, tinha tratado as varizes a laser, as amigas disseram-lhe que voltariam, não voltaram, as pernas bem cuidadas. A pele. Os dentes. Ia ao cabeleireiro uma vez por semana, nunca deixava a raiz dos brancos aparecer, mantinha o cabelo preto, bom corte, maquilhava-se e até este aperto de dinheiro ia ao ginásio - um ginásio só para mulheres para suar à vontade.

Antes dos miúdos saírem de casa, era diferente. Às aulas na secundária somava as da formação profissional. Depois acompanhar os miúdos. Gémeos, uma trabalheira desde o primeiro dia. Comida, roupa, explicações que garantissem que haviam de entrar em medicina se quisessem, judo, ir buscar e levar, gripes, sarampo, tudo. Na verdade, se dissesse que ele ajudava, seria injusta, ele não ajudava, fazia pelo menos o mesmo que ela e pelo meio tivera tempo para um doutoramento e dois postdoc, conferências aqui e ali, programas, bolsas, enquanto ela repetia a mesma matéria ano após ano a alunos cada vez mais fracos e lá aparecia um que justificava tudo. Às vezes sentia-se toda mastigada. Miúdos, aulas, ginásio, comida, roupa, um bocadinho de televisão, os livros cresciam na mesa de cabeceira intocados. Sexo higiénico. Não era mau. Só não era aquela coisa. Amavam-se, claro.

Tinha um bom casamento. Toda a gente dizia. Vinte e um anos bem casados. E bastava olhar em volta: divórcios, solidão. Felizmente estava livre disso. Tinha uma boa casa. Uma boa vida. Bons amigos de uma vida. Não percebia porque é que, agora com os miúdos na faculdade e a casa toda para eles, o casamento não voltara a ser o que fora antes dos miúdos. Ela era a mesma, e ele. Com as diferenças normais de terem vivido uma vida. Eram os mesmos, a mesma liberdade outra vez, e não. O casamento não era o que fora. Não era. Não percebia.

Bonjour Coração, perdão, Maluquedo, perdão, Mundo!


18 de dezembro de 2012

Bailarina-Avestruz-Mulher-Bailarina

Paula Rego, Dancing Ostriches, 1995 

"The idea of contributing to the show immediately appealed to Rego, as Disney has been an artistic influence and inspiration ever since she first sat thrilled and terrified through Snow White as a child. For 'Spellbound' she contributed pictures inspired by three of her favourite Disney films - Snow White, Pinocchio and Fantasia. It was Fantasia she concentrated on, the most abstract of Disney's films, his inspiration of famous pieces of classical music through animation.

Rego purposely did not look at the film but relied on her memory and an occasional glance at John Cluhane's illustrated history of Fantasia. In the film the ostriches perform the waking or 'Morning' sequence from Dance of the Hours, a ballet in the opera La Gioconda (The Smiling One) by Amilcare Ponchielli, first performed in 1876. Cluhane writes that in the first stages the animators made sketches of ballet dancers who were brought to the studio to perform positions and movements, "the equivalent of a model's holding poses for an artist who draws still pictures". The models were turned into birds, sometimes quite literally. As those present recalled there was "a very tall, very ostrichlike girl, and she loved doing the burlesque of the ostrich for us.We put a few feathers on her costume where ostrich feathers should appear, and a bow on her head, and she performed the routine to perfection." Rego reserves this process, turning the birds back into people."  - da Staatchi Gallery.

Paula Rego disse, a pretexto de e sobre aquelas avestruzes acima, esta frase inesquecível: “The Ostriches couldn’t have been done if I hadn’t been the age I am. A younger woman wouldn’t know what it was like; longing for things that are not gone, because they’re inside one, but that are inaccessible.”

Com música de Vivaldi e coreografia de Mauro Bigonzetti, esta peça não me deixa vê-la sem que veja por junto as avestruzes de Paula Rego ainda inocentes do passar do tempo.




Ps: lembram-se, aqui?

Bonjour Mundo!


17 de dezembro de 2012

Capicua iv

Em tão boa companhia. Obrigada.

Doutor Raton

Surripiado daqui. Ó.

O RATO DOUTOR DIZ: SÓ É VALENTE QUEM TEM MEDO
Estava deitado
Queria dormir
Já estava cansado
De tanto tossir
De repente
Àquela hora
Ouvi passos lá fora
Bateram-me à porta
Eu fui abrir
E para meu espanto
Muito espantado
Quem é que estava
Do outro lado
Quase rente ao chão?
Um Rato tão pequenino
Bem mais baixinho
Que a pata do meu Cão
E carregado com um enorme malão…
Então vê-me neste estado
Morto de cansado
E não convida para entrar
Que falta de educação!
E quem é o senhor?
Ora essa! Sou o famoso Rato Doutor
Aqui ninguém está doente
Mente mente mente
Tanto que lhe abana o dente
Da frente
Não sabe que de mentir
Até um dente lhe pode cair?
É vá de rir, o Rato Doutor, todo contente
Da mentira convincente
Vá, ande, mostre a língua
Como se fosse malcriado
E deixe auscultar esse chiado
Não fuja
Não vê que não lhe faço mal
Faço-lhe bem, aqui ou no hospital
Dou-lhe remédios e mesmo picadas
Às vezes doem um bocadinho
Outras nem se sentem, é cuidado mansinho
Seja valente seja um samurai
Se quiser gritar ai ai
Faça um kiai
Sim, mesmo os guerreiros
Mais poderosos
Sentiam medo, mas deixavam-no sair
Disfarçado…
Porque eram vaidosos
Não queriam chorar
Respiravam fundo
E toca a gritar
Antes de atacar
Força. Grite tudo uma só vez:
Um grito assusta o medo, fá-lo passar
E ficar calmo para se tratar
Depois de tratado
Vou para outro lado
Com o meu malão
Vou bater à outra porta
De outro valentão.

Bonjour Mundo!

lailai
i´ve been an awful good girl
santa baby
lailai lailai
think of all the fun i've missed
think of all the fellas that i haven't kissed
lailai
santa baby
i´ve been an angel all year lai lai lai lai

Fun!

13 de dezembro de 2012

A CASA - iii

A MERDA DOS OVOS
A minha tia tinha dores de cabeça. Dores de cabeça terríveis. Diziam-lhe que eram enxaquecas. Depois passavam.

Um dia não passaram, desmaiou sem acordar. Entrou no hospital e não saiu mais. Um tumor de um tamanho absurdo. Uma bola de golf. Uma operação muitíssimo bem sucedida, excelente recuperação sem sequelas, o melhor prognóstico: morreu de embolia pulmonar pouco depois dos cinquenta anos. Um mês chegou para tudo. E sobre o mês um exacto mês, no dia da missa de um mês, mas depois da missa, morreu o meu tio, seu marido, de coisa alguma que a ciência soubesse: doeu-lhe o coração, foi andando a pé, a passeio, com calma de último dia, a saborear o céu frio de Inverno. Não disse que era urgente à menina no guichet, disse-lhe que estava um lindo céu claro, para mais, era todo delicado, se faz favor, obrigado, sorridente, não, não, é só uma dor no coração e caiu. A menina do guichet fartou-se de gritar e depois só dizia, mas ele não explicou, não estava aflito, quase pediu desculpa da maçada.

Era a melhor amiga da minha avó, esta sua cunhada, parceira da jogatina, bridge as duas ou nenhuma. Uma irmã, dizia a minha avó que tinha três irmãs e nenhuma mais próxima do que ela.

No dia do velório, a igreja perto, fomos a pé as quatro: a avó, a mãe, nós, as filhas. Perto da igreja uma mercearia. Posso jurar que jamais a minha avó lá entrara. Decidiu de improviso que tinha falta de ovos em casa. Nós pasmadas. E nem um ai. Não era cá mulher de se fazer reparos, nem que andassem galinhas poedeiras na sala alguém diria um ai. Tinha falta de ovos, tinha, ponto final. Era assim a minha avó, muito alta, muito direita. E, zás, enfia-me meia dúzia de ovos na carteira. Sim, meia dúzia de ovos na carteira.

Estamos no velório. Ainda que a minha avó tivesse horror à igreja e ao clero, respeitava as formalidades e exigia respeito pelo que as formalidades representavam. De repente, olha para mim, começa a rir e não consegue parar, tem sair para recuperar a compostura:
- Quer acreditar nisto? Esmaguei a merda dos ovos.

Bonjour Mundo!

Já está em dvd. Um belíssimo documentário - mesmo para quem nunca ouviu falar do YAGP, ou pensa que não gosta de ballet.

11 de dezembro de 2012

Porque hoje é terça-feira


Uma geração vai-se, e outra geração vem, mas a Terra permanece para sempre.
Eclesiastes

FOGO NA MONTANHA
Os teus passos incendeiam o caminho,
a que distância estás de mim?
Do vale vejo os pequenos fogos que ateaste
como uma só labareda erguida,
um grande farol de chama na montanha.
Quem alumias se não há mar
e o chão de ervas se deu ao mundo antes de nós?
Até onde levas a pressa de subir e morrer?
Resta apenas a montanha que arde.
Escuta-me:
no fumo que sobe não está escrito qualquer nome.

Volta ao mundo em três posts - um e meio

UM E MEIO - AEROPORTO CHARLES DE GAULLE
Nem bem descolámos, mesmo agora o avião ganhou altitude, passámos Londres, e de uma turbulência "moderada a severa" que prende a tripulação aos jump seats e nos deixa quase às escuras, trememos tanto que penso, oh meu Deus, assim, não. O Vasco:
-  São ventos fortes, está tudo bem.
A verdade é outra, ainda não a sabemos, porém: mais de quatrocentos voos foram cancelados por toda a Europa e o nosso voo foi o último autorizado a sair com destino a Frankfurt onde não chegaremos a aterrar, o aeroporto tem os aviões todos no chão, debaixo de gelo e de neve. 

Nos filmes nada disto acontece, o ritmo é ininterrupto, os aviões, águias em céus claros ou de tempestade, cheios de coragem, atravessam a distância e desde o Indiana Jones são uma linha colorida a riscar o mapa, a direito, sem turbulência de moderada a severa, e nem um ai de estou lixada dentro desta caixa de metal, mas o que é que me passou pela cabeça para achar que voava? Nos filmes, as heroínas não têm olheiras, estão perfeitamente penteadas, e não se preocupam de deixar as bagagens para trás porque mais cedo que tarde acabarão de vestido Valentino num palácio qualquer. Num filme há bom café a qualquer altitude, não há um copo cheio de água castanha e um pau de farpas agudas a fazer as vezes da colher. Caneco, bem que a vida podia ser como nos filmes. Um desfile das pessoas que amo e as memórias mais felizes estão na passerelle. Fui muito feliz.  Obrigada. Pronto. Deve ser agora. O comandante interrompe-me a deriva: vamos aterrar no Charles de Gaulle. Se é isto que se pensa quando se pensa, vou morrer, irra, que falta de filosofia.

- Que alívio.
- Não estavas a pensar que ia cair, ou estavas?
- Claro que estava, penso sempre, só sou valente a fingir.
- Finges bem.
- Obrigada.
- Estamos na boca do lobo, Eugénia. Em Paris eles terão todo o apoio de que precisarem, aqui os meios multiplicam-se por cem.
- Na boca do lobo? Porque raio haveriam de recorrer à Loja? Isso seria um grandecíssimo disparate, não estou a ver o Mestre nem o Cardeal a entregarem o que é deles a troco de coisa nenhuma.
- Não têm de entregar o que quer que seja, apenas partilhar um conhecimento ao qual, de facto, os outros têm acesso há um ror de anos.
- O conhecimento sem a aplicação do conhecimento de nada serve. Não sabem o segredo, nem a chave do Túmulo. À maioria deles que interessa a abertura do portal amanhã? Estão-se marimbando que se abra o caminho para lá, não há intriga política, nem ganho social, não há poder que se disputa. E a quem possa interessar, decerto abstraem, sublimam no jogo do simbólico. Lembras-te, leste o Jogo das Contas de Vidro, não leste? Ao Magister Ludi cabe a representação do conhecimento nas suas infinitas ligações. Não é muito diferente no ponto de chegada, apenas não é uma Castália à margem do mundo, pelo contrário, quer-se, subterrâneamente, gestora do mundo acima. Ocorreu-me agora mesmo: tive uns livros da Yvette Centeno, um deles Símbolos de Totalidade na obra de H. Hesse, e o Amor, Morte, Iniciação, ah, a Alquimia e o Fausto de Goethe...
- Não vais desfiar os títulos todos ou vais? Que falta de sentido de realidade.
- Pelos deuses, Vasco, já não os releio há mais de vinte anos. É preciso reler para ver se crescemos ou encolhemos, não te parece? Que excesso de pragmatismo. Toca a sermos práticos, então: como é que vamos para Las Vegas encontrarmo-nos com o Gonjasufi se não temos voo? E, mais importante, tens como saber se o Pêéne chegou a Belur Math? Preciso de ligar...
- Olha! Porra, porra! põe-te aqui atrás, é o Mestre e o Henrique, se podemos vê-los, podem ver-nos. E o Marta-Santos... quem havia de dizer? 

10 de dezembro de 2012

Aventuras de um imigrante linguístico.


O meu sobrinho tem quatro anos, é português de pai e mãe, mas frequenta o ensino em inglês. Incidentes são mais de mil, giros até fartar. Aventuras de um imigrante linguístico.
- Meu querido, que letra aprendeu?
- A letra P.
Desenha um belo P no ar.
- Uaau... que P tão perfeitinho. E é um P de...
- Pizza!
- E um P de...
- Tarte!
- Tarte?! Tarte é com T.
- Não Tatia, tarte é com P de pie. E isto é polvo! Com O de octopus e O de avestruz.
Letra P, ó letrinha versátil.

9 de dezembro de 2012

O belo arroz de polvo

Compre um polvo ou espere que lho ofereçam. Congele a bicheza para começar a amansá-la - é dura de roer. Esqueça-se dela no ártico.

Tem montes visitas duma só vez?

Descongele o monstro e panela de pressão com ele para aprender a ser macio que não quero cá tentáculos de fora. Xô. Para trás, vilão. É cozê-lo tapado de água e mais um bocado se for de tamanho assustador. Com um caldo Knorr de galinha - não se arme em purista que isto não é um workshop de lailailai, é cozinha simples com o sabor da que havia em casa das nossas avós, porém sem mariquices e de tempo contado. Enfim, uma receita de arrozinho de polvo de comer e chorar por mais, sem mais.

ui que medo!
Ponha uma panela ao lume com azeite, cebola muito finamente picada, e pimento verde e vermelho tão picadinhos que depois se desfaçam em sabor insubstanciado, uma grandecíssima folha de louro.  Duas. Deixe que a cebola tome cor, lentamente, em lume brando. Haja paciência e colher de pau para uma mexidela, não deixe pegar, não se desgrace. Depois, uma fartura maluca de salsa e coentros tão cortadinhos - sim, uso a tesoura que não sou cá mestre cuca, e se é para picar, tenho opções, ou vai de robot ou  de uma daquelas meia luas... medo de facas tenho eu que já levei quatro pontos na palma da mão esquerda por mal cortar uma fatia de pão, sabe-se lá o que isso terá feito à minha rica linha do destino, ou terá sido à do coração? ó drama sanguinário. Ao fim o alho, miúdo, miúdo. Já está? Então está à espera do quê para acrescentar 3, vá, 4 colheres de polpa de tomate e uma colherzinha de açúcar? Colorau? Se quiser, ponha, vai benzinho.

ai que lindas cores que o menino polvo tem!
Disse-lhe que reservasse e coasse a água da cozedura? Tenho de lhe dizer tudo? Parece mentira...

Bom. Corte o cefalópede às rodelas. Rechonchudinhas, sim, gorduchas, não. Se o celfalópede for uma besta enormíssima como esta que aqui tenho, não a faça toda, reserve, logo amanha outra coisa qualquer. Olhe, polvo à galega que, bem feitinho, finíssimo, faz uma travessa linda e é de se comer a rezar. Está cortado? Panela com ele. Envolva tudo. Pimenta branca moída e mais pimenta preta moída, a gosto, mas não esqueça, terá de levar, mesmo assim, daquele picante caseiro, o que fez com malagueta, azeite, whisky e se guarda até estar bom para usar. Não tem? Não o faz? Pateta. Quando o meu acaba ou não me apetece, compro daquele Jindungo Quinta d´Avó. Não é para o deitar ainda, é lá para o fim, agora contente-se de o regar com vinho tinto e envolver mais. Quem é que não gosta de boa companhia?

Convidados ingratos que estão atrasados. Faça uma travessa com brie e pãozinho torrado para acompanhar um doce de figo feito com Lambrusco. Ou tire a tampa a um queijinho de Azeitão, leve trinta segundos ao microndas e polvilhe com oregãos, sirva com bolachinhas, tostas, mais uvas moscatel, ou outras quaisquer, porém doces. Ou os dois queijinhos e não se fala mais nisto. Boa?

mhhaammm... vou-te comer!
Espere que as visitas malvadas se dignem a aparecer antes de acrescentar o arroz em cru, agulha, claro, vá de o mexer, de o deixar fritar um bocadinho e, a pouco e pouco, junte a água da cozedura, molho de soja, um nico, e molho inglês, outro, e molhos nicos são dois. Prove o caldo. Trate de corrigir sal, se for de flor, melhor, pimentas, piri-piri, molhos. Uma volta na colher de pau e paz e sossego. Desligue o lume antes do arroz abrir ou não ficará húmido, tão malandrinho.

Chegaram? Diabo de gente apressada, valha-me Deus, nem se tem tempo de pôr rimmel nas pestanas! Sirva o vinho, tinto, bem respirado, pois então. Quinta do Mouro. Sirva com boa vontade - a vida está que não se aguenta de sequeiro.  Vá, rápido para a mesa.



Ps: já plasmo as photos que não encontro aquele fio que liga a máquina de fazer photos ao pc.

Ps 2: photos plasmadas mesmo sem cabo de ligação graças à competência tecnológica da minha Rita, perdão, minha competência, minha, fui eu que fiz tudo, tudinho, sozinha, sou um crâneo do hardware ou lá o que é.

Volta ao mundo em três posts - um

UM - PEQUENO ALMOÇO NO FRANKIE & BENNY´S
A empregada, calças pretas, camisa branca, gravata verde, avental branco, loura de um sorriso mais claro do que o cabelo, traz o café, a água, pousa-os na mesa. Olho em volta e finalmente percebo: é um cenário como os dos filmes só que de verdade - tolice, também os filmes são verdade mal começa a projecção. As mesas têm tampos a fingir-se de granito preto, os sofás todos em volta são de napa beige e bordeaux a fingir-se cabedal nos idos de 1950, os apainelados de aglomerados de madeira a fingir-se anos vinte ou trinta. Extraordinários anacronismos atravessam a decoração do restaurante-café que se quer italo-americano de franchising, toldo verde riscado em branco e encarnado e flores de plástico em canteiros perfeitos, suspensos da cerca inútil,  à entrada. Contei das mil fotografias a preto e branco nas paredes, mais fotografias de estrelas de Hollywood? Rol musical surpreendente: Dean Martin, Billie Holliday, Michael Bublé, acompanham os ovos estrelados com bacon e torradas da miúda da mesa ao lado que pequeno almoça em animado diálogo por escrito via iphone.

Abro o livro que tinha decidido não comprar e comprei. Estou perto do fim do último artigo. Uma maçada sem brilho nem fôlego. Artigos como quem faz papo-secos, salvam-se dois bocados de pão, o do erotismo, e o da lei estremenha e andaluza que sexualmente educará a juventude que lhes pertença. Bom, haverá sempre a tia Júlia. Penso em Borges. Há felicidade em ler Borges, mundos que chegam. E no Sena - toda a esforçada minúcia permite a liberdade, mesmo a puríssima invenção. Tenho ali na carteira a antologia poética que ele seleccionou e organizou, até traduziu, para contar vinte e seis séculos em verso, trouxe-a hoje por causa de Píndaro assim dito, É um dia, um dia só, a vida Humana, e de Um Epitáfio, de Calímaco, Chorava,relembrava quantas vezes, falando nós, o Sol se pôs exausto. Reli-os ontem à noite e não mais consegui separar-me deles.

Estou só.

- Eugénia.
- Sim, diga.
- Eugénia, sou eu, o...
- Credo, Vasco!
- Despache-se, não temos muito tempo.
- Não percebo.
- Explico enquanto caminhamos, venha depressa. Mas quantos livros tem neste saco? Lixe-se a terceira pessoa. Temos de sair daqui quanto antes ou não saímos daqui com vida, estás a ouvir? Publiquei a senha - esperava nunca ter de a dizer: que por nossa culpa e dis­tração dei­xá­mos pelo reino à solta. Tenho bilhetes para Xangai via Frankfurt e Omã para que tenhamos outras saídas, caso necessitemos.
- Li e ouvi, não acreditei. Quem está atrás de nós? Porquê? O que dizes não tem sentido.
- É o Mestre.
- O Mestre? Que disparate, o título é honorífico desde que a Sociedade passou de secreta a pública, e tinha de passar, a vocação de qualquer sociedade secreta é a coisa pública. E nem ele nem a Sociedade alguma vez foram violentos.
- Quem falou de violência? A morte pode ser doce.
- Vasco, estás a assustar-me. O que se passa?
- O Mestre e o Cardeal decidiram abrir o Túmulo.
- Impossível. Não pode ser aberto por dois.
- Têm um novo aliado, ele conhece bem a causa e abraça-a. Decidiram que é o Tempo.
- Pode conhecer a causa, muita gente a conhece, isso não quer dizer nada, o editorial sempre esteve à vista. Conhecerá o segredo? Não acredito. 
- Não sei, penso que não o saberá ainda, mas é um homem inteligente, uma vez que o saiba não se poupará a esforços para descobrir a chave.
- Que perigo, Vasco. Quem está connosco?
- Ninguém.
- E quanto ao público?
- O Mestre decidiu reproduzir a situação que tivémos antes, ninguém desconfiará.
- Não!
- Sim.
- Oh meu Deus... é tudo gente morta.
- Em que dia é que vão abrir o caminho para o portal?
- No primeiro dia: será aberto a 12 e fechará...
- ... A 21, claro. Isso quer dizer que temos de chegar à Missão Ramakrishna quando? E por Xangai?
- Não, a esta hora já o Pêéne está a caminho de Belur Math, chegará à Missão em dois dias. Nós vamos encontrar-nos com Gonjasufi. No Nevada, pasma-te. Ele decerto conhece uma parte da chave, afinal, é um mantra da escola a que pertence.

8 de dezembro de 2012

À conversa com Bob Dylan


BEYOND HERE
Cassandra:
- Beyond here lies nothin´ but the mountains of the past.
Apolo:
- Ninguém acreditará.
Cassandra:
- E assim mesmo, como Tróia: beyond here...
Apolo:
- De que serve a sabedoria sem o poder de a fazer acreditada?
Cassandra:
- Serve à tragédia.
Apolo:
- O que é a tragédia?
Cassandra:
- Quando Aristóteles der à vida dirá que é o curso do rio, os rios correm para o mar: hybris, ágon, ananké, pathos, peripécia, anagnórise, clímax, catástofre, catarse. Depois dele repetirão até à náusea: inexorável: os rios correm para o mar.
Apolo:
- E hoje, o que é a tragédia?
Cassandra:
- Um homem e a vontade do mundo.
Apolo:
- Sou um Deus, não percebo a condição humana, ou se preferires, a preposição: um homem e o mundo.
Cassandra:
- Tragédia sou eu.


6 de dezembro de 2012

05 - Postais de Cambrigde

RUAS TODAS SÓ A DESCER
Antes de ir almoçar, portanto, com o estômago convenientemente vazio, fui fazer yoga onde sempre faço quando estou aqui, na cozinha - nenhuma razão de mistério, é um daqueles espaços em u, armários todos em volta, vazio perfeito para um tapete ao centro, movimentos amplos, nada tem de ser afastado, mexido, arrastado.

Não ia com o pensamento em busca do perfeito escoamento onde o universo rebrilhasse porque, do lugar onde me calhou ser quem sou, há om bastante em tudo e o excesso de luz encandeia. Na verdade, ia com o pensamento cheio desta ideia

Quando comecei a escrever o romance que agora corrijo pois não faço mais revisões para além daquela com que encerrei cada capítulo, ou jamais teria terminado, vivi o livre arbítrio das personagens. Não fora assim, e não teria conseguido escrevê-lo pela simples razão de não o ter conseguido antes, a despeito de mil tentativas esforçadas e de isto aqui, aquele ali. E o mesmo acontece na poesia: os poemas sobreviventes, são os que nasceram já escritos. É triste, e nem por isso falso, a maior parte de uma obra poética bem pode ir fora.

A cozinha tem duas janelas, uma à esquerda, por cima do lava-louça, com vista para uma tira de relva de má qualidade e ervas daninhas cobertas de uma película fina de neve e gelo que não se desfaz nem aumentou. A outra, em frente da porta, mais pequena, deixando ver depois do muro de estreitos tijolos vermelhos, os ramos altos da árvore no baldio atrás e neles dois pássaros que não reconheço, castanhos por inteiro, rápidos, rabos como os das pegas azuis, a cabeça a lembrar a das poupas bebés, sem poupa porém. Vidros em quadrícula. No quadrado superior direito, do lado de fora, uma teia de aranha leve, imperceptível não fora uma enorme mosca presa, de asas para cima, olhos facetados para baixo, patas ainda a mexer. Moscas grandes metem-me nojo. O estertor lento na agitação das patas, desistente, aflige-me. Decido abrir a janela. Libertar a mosca. Ruas todas só a descer. Não a abro: o que comeria a aranha?

5 de dezembro de 2012

Auto-retrato?

Ele para ela, na mesa ao lado:
- She was lovely, she woudn't say boo to a goose.
Eu para mim, na mesa ao lado da do lado:
- Diabo, nem sei o que é pior, se ele a desfiar os amores em rosário, se ela que os quer ouvir. Haverá alguma coisa menos erótica do que este jogo? Até parece que está a dar referências: estive com esta, pode confirmar o bom serviço, fiz aquilo, senti-me assado... que pavor. Wouldn't say boo to a goose. Plácida, portanto. Ora aí está o que nunca se diria de mim - sempre gostava de saber com que frase me definiria um ex-lailailai. Não me ocorre nenhuma. Não faço ideia.

Lembrei-me agora. O meu ortopedista de quando era pequenina de botas ortopédicas até ser crescida de não as precisar dizia:
- Esta miúda tem andar de toureiro.
Há coisas que nunca mudam. Está tudo dito. 

04 - Postais de Cambridge

TELEMÓVEIS
Telefonam-me:
- Pode dar-me o número de referência do voo? Creio que conseguirá outro voo ou o reembolso: o aeroporto foi fechado.
Espero.

Às seis menos um quarto da manhã o telemóvel tocou - fabuloso gadget, nem um dos poderosos reis da antiguidade mais ou menos clássica o possuiu. Crescemos tanto em facilidades. É um galo matutino, se o quisermos para despertador, e sem inconveniências de galinheiro nem enervante cantoria; é, qual Miguel Strogoff, correio mesmo debaixo de qualquer intempérie; mundo amor ou mundo Cão conforme voz ou latido do outro lado. Eu para a minha mãe:
- Passe lá ao Cão...
- Parece que é parva. 
- Vá lá, mãe, se faz favor, passe ao Cão.
- Anda cá à tua dona.
- Olá Cãoooooo.
- Não é cão nenhum que ele não quer falar.
O Cão não quer falar: somos todos parvos. Às seis menos um quarto da manhã o despertador. Malas escada abaixo. Cozinha. Paragem obrigatória diante da Nespresso: perdoa-lhes, meu Deus, eles não sabem o que fazem, são ingleses, pensam que estas cápsulas em folha de alumínio colorido, sem aroma e sem memória, uma parafernália higiénica de sabores a rondar o maluquedo da Starbucks, que custam os olhinhos da cara e têm de se encomendar online, são o belo café. Culpa do George Clooney, se lhe achassem a gracinha que lhe acho, andava tudo a sumo de laranja. Estou convencida de uma conspiração entre o pessoal da Bimby e o da Nespresso: estamos aqui, estamos todos a comer pastilhas alimentícias aromatizadas, em salas estéreis de qualquer bicharoco, e só vamos ao mundo de luvas e máscara.

Abro a porta. O carro à espera. Nevou. Tanto branquinho macio acabado de cair do céu. Farto-me de pasmar. Sempre. A minha irmã há-de ter nascido com uma prancha de snowboard nas botinhas de lã. Não posso dizer o mesmo, sequer coisa parecida, não trato as estâncias por tu, nem por você, a bem da verdade. Neve é para pasmar e dizer ai que lindo frio, rir quando escorrego.

Na estrada, a caminho do aeroporto, olho os campos nevados e, finalmente, reparo que estou no acesso à casa dos March. Nenhuma das mulherzinhas se avista, nem há vestígios de passos. É natural, é muito cedo, nem amanheceu ainda. Temos de sair da auto-estrada, um acidente aparatoso, e sem mais, gerou uma interminável fila. Estrada secundária e ainda nenhuma das March à vista. Os ramos das árvores, tão esguios, contornados a lápis de gelo. Que lindo frio. Os camiões não conseguem subir, se começam a patinar, está tudo perdido. Trânsito parado. Inversão de marcha. Um salto no tempo, outro no espaço, as March outra vez no passado literário do continente americano, sou crescida, estou na estacão de serviço a olhar vários restaurantes onde escolher comida hiper-calórica. Voo dado por perdido. 

Quatro horas depois, de volta ao ponto de partida. Telefonam-me:
- Pode dar-me o número de referência do voo? Creio que conseguirá outro voo ou o reembolso: o aeroporto foi fechado.
Espero.

4 de dezembro de 2012

03 - Postais de Cambrigde

TURISTA
Estive em Paris neste fim-de-semana. Paris postal, Paris guia-turístico, e tanto chinês de máquina em punho, dignos herdeiros do Japão em viagem. Paris cheia de sol e corvos gordos - estou farta de corvos, ingleses ou franceses tanto faz, quero as minhas andorinhas a voar de barriguinhas rentes ao chão, metereologistas infalíveis a anunciar a chuva e o céu de Turner. Sim, estou convencida de que todos os céus de Turner revoltos de Outono à boca do Inverno são trazidos nas barriguinhas pequeninas das andorinhas. Quase tudo é assim, não é? Mínimos gestos compõem a imensa orquestra. Quantos são necessários para dizer amor?

Neste fim-de-semana, em Paris, esperava-se a segunda-feira de Carla Bruni. Conto tudo. Esta deu à Vogue uma entrevista com trechos já publicados em alguma imprensa. Ainda antes da revista sair, pelo rumor que se criou com o que foi dito e do dito com quanto foi entendido, teve de vir pedir desculpas ao mundo livre por usar da liberdade de dizer o que lhe passa pela cabeça. Não sou cá brunista, chateia-me é que os paladinos dos direitos e liberdades sejam os primeiros a cortar nas liberdades e direitos dos outros. Percebo, é fodido andar um gajo a lutar pela democracia para uns sacanas de extrema direita terem uma plataforma de onde chegar ao mundo. É fodido e é bom que continue a ser. Carla Bruni nasceu num meio confortavelmente burguês, é linda como um felino, foi top model, está casada com o ex presidente da França e gosta, acha-o sexy e admira-o, convida Houellebecq para conversar sobre a chatice que é envelhecer, ele aceita, diz-lhe que gostou muito da música que ela fez para um seu poema; e Carla Bruni põe botox no narcisismo, está de bem com vida, ri-se de nem os anos de psicanálise terem evitado que se transformasse na sua própria mãe e, de repente, afirma que o papel do feminismo ortodoxo foi rasgado pelo tempo. Alto e pára o baile: isso não, nos bezerros de ouro só Moisés toca. Não se perdoa a Carla Bruni a nossa falta de dinheiro, de conforto, de sucesso, de beleza, de bem estar. De bom sexo e de riso. Mas, acima de tudo, não se lhe perdoa que ela saiba ter tudo e o diga por poder dizê-lo. É assim.

Depois cheguei e pus-me a ler os Diários, de Al Berto - o blog dele. Tanto desespero mastigado, fogo no estômago, e do nada, uma tímida, surpreendente ternura assalta o coração, assoma à frase. Sei lá. Sei, no entanto: é preciso atravessar selvas de palavras para chegar àquela uma só palavra de onde nascem todas as palavras exactas e diante das quais as anteriores, simulacros, se desfazem. Talvez seja por isso que tantos morrem a desbravar o alfabeto.


Bondades

Um mundo bom: às vezes somos felizes de um bem que nos fazem. Só podemos agradecer: merci.