24 de março de 2017

O terrorismo explicado aos adultos


Ó.... a nossa capital!
O colégio onde os meus sobrinhos estudam diz que é internacional e o ensino é em língua inglesa - com português e mandarim uma ou duas vezes por semana, não sei exactamente. Porém, de vez em quando, lá em casa da minha irmã ou em conversa comigo ou com a avó, saltam frases mais inglesas do que internacionais e de arrepiar as nossas ricas, republicanas e portuguesas orelhas, assim tipo: a nossa rainha faz hoje anos ou Londres, a nossa capital, é linda!
Adiante. Deve ter havido conversa no colégio sobre o atentado na ponte de Westminster e no Parlamento porque em casa houve um total blackout às notícias com desenhos animados em looping - os meus sobrinhos são ainda muito pequenos, um tem cinco anos, o outro oito.
Quando chegaram das aulas, e por isso é que digo, conversa houve e de certeza, o meu sobrinho mais velho para mim:
- Sabe o que são terroristas?
- O que são?
- São pessoas más que pensam que são boas que matam pessoas boas porque pensam que elas são más!
E o mais novo que, como direi, conjuga os verbos em português com desvio à correcção, acrescentou convictamente:
- E os terroristas atropelem pessoas nas pontes e ataquem pessoas por terra, mar e ar!

22 de março de 2017

Tantas saudades meu Lindo Cão


Quem teve tanta sorte com o seu Lindo Cão, meu querido Cão? Fui eu...



e eu que sou católica e praticante, e praticante e praticante, de tanto não acreditar na ressurreição dos mortos e na vida no mundo que há-de vir, espero, mal morra, ver no mundo que há-de vir, porque de tanto praticar ai dele se não vier, espero ver o meu Cão a correr para mim, aquelas corridas loucas de cão novo, as orelhas para trás, todas do vento, e eu ai que lindas orelhas de Peter Pan seu maluquete, e ele um salto daqueles de molas nas patas... Não há nada mais feliz do que um cão novo: todos os dias parece que descobriu o mundo na ponta do nariz, a farejar.
Tenho tantas saudades do Cão... Não queria que ele estivesse vivo porque gastou a vida todinha e já não podia mais, nem estar de pé, nem sentado, nem dormir, nem estar acordado, nem o coração já sabia bater e se ele estivesse vivo levava-o a morrer outra vez que gostava que fizessem o mesmo comigo.
O Cão, ó raça de Cão mais que independente! Qual colo nem meio colo, deixo que me faças umas festinhas e já está, o que eu quero é passear, andar a direito sempre frente, ladrar aos cavalos, em pé, que é lá isso de ter esse tamanho todo, é pateta, olhe que chego bem para si, ouviu?!
O Cão mais que independente passou um dia inteiro, o penúltimo dia, numa longa despedida, deitado ao meu colo, a cabeça pousada, sem força nem peso, encostada no meu ombro e assim toda a manhã do dia a seguir, mesmo antes de o levar para morrer. Acho que chorámos os dois o tempo todo  - mas deve ser mentira porque o Cão era um valente e eu nem por isso. E fomos pelo caminho mais comprido, a fazer render o céu azul, o mar azul, a volta que antes fazíamos de carro, só os dois, a cheirar as laranjeiras com maresia. A cabeça sempre no meu ombro. Nem um olhar para tanto azul, nem maresia nem laranjeiras, nada, só um cão velhinho, leve, embrulhado numa mantinha de velho e lá fui levá-lo para morrer antes de almoço.
Assinei um papel. O veterinário deu-lhe a injecção. Morreu ao meu colo. Não estremeceu. Não se sentiu. Só o coração de gasto é que parou. Não queria que estivesse vivo: é cruel a obrigação de sofrer só para durar.
Mas tenho tantas saudades do Cão... E já que não existem milagres, gostava muito que existisse pelo menos a vida no mundo que há-de vir. Só para ver o Cão a correr para mim aqueles corridas loucas de cão novo, as orelhas para trás, todas do vento...

11 de março de 2017

Imitação dos Livros

IMITAÇÃO DOS LIVROS
E a apresentação do livro
e o programa de rádio, a entrevista?
É não. O livro não estende a mão,
passou bem, um abraço, um beijo, nada.
O livro tem o bom senso que falta ao autor:
sente o mesmo quer gostem dele ou não
e é-lhe indiferente o lugar na estante.
Há quem tenha imitado os santos, platinado
o cabelo à Marilyn, escrito devocionalmente 
à la mode deste ou daquele. É não.
O livro tem a sabedoria que falta ao autor,
ou a humildade: ou é bom, ou fica curto ou 
largo se a camisa é de empréstimo.
Os poemas então, alguns, são a pesca no inferno
a rabiar-nos nas mãos os versos e o diabo a rir...
É por isso que os poetas são chatos, chatos,
e escrevem sobre escrever poemas enquanto 
o diabo ri e nos mostra o espelho:
ah poeta pateta! É verdade, senhor diabo. É sim. 
Ai como essa verdade ao espelho nos rebaixa -
há-de ser por causa disso que Narciso para se
espreitar no rio, andava de gatas.
Eu também quis ser viral como a gripe, ter troupe,
ser do circo. Tive a grande sorte de me correr mal
ou agora andava por aí a assinar na feira e a debater
no festival. Hoje é não. Leve lá o espelho, 
senhor diabo, quem não me faz não me desfaz, 
e não preciso de me ver reflectida. 
Sei que le coeur n'a qu'une seule bouche e 
é ele quem dita ao poeta ou ao escritor,  
nomes de possessos para o verso e a frase em trânsito 
desde o fundo escuro de onde vimos até lá ao fim 
que só Deus sabe.
Nem é por mal que andamos de gatas na juventude
das letras. Quando somos bebés, basta-nos pestanejar
bocejar e oh que coisa mais linda, amor às carradas,
mas um dia pestanejar não chega nem falar, e já é o pino
ou a pirueta linguística e o débito gnóstico só para saber
que não há coisa mais linda – para ser amado, poeta pateta,
venha a pesca de versos no inferno e riso do diabo, não é?
É patético, sim, e poético, e terrível. 
É o esplendor da decadência de Blanche quando 
a morte assina com a impressão digital do desespero 
a data e a hora, e Stanley e Belle vida fora.
A beleza partida em duas luas de sombra.
Whoever you are, I have always depended on the kindness of strangers.
Nós sim. O livro não: le coeur n'a qu'une seule bouche.

5 de março de 2017

Está tudo bem

ESTÁ TUDO BEM
então, esta mulher alimentou o homem
de cada vez que ele passou à sua porta.
E porque ele ia e vinha, mandou fazer em sua casa
um quarto onde descansasse, e lhe o deu,
cama, mesa, cadeira e menorá. Desconhecia-o, mas
sentia o poder que só o sagrado tem, e a presença de
Deus reflectia-se claríssima e forte neste homem.
Jamais a mulher lhe pedira o que fosse, nem quando ele ofereceu.
Até o profeta estranhou tal contenção. Nada lhe pediu, esta mulher:
abrira-lhe a sua casa, alimentara-o, dera-lhe um quarto onde
descansasse, cama, mesa, cadeira e menorá.
E aos meus olhos, eu que não sou profeta, isto é a fé:
viver com a certeza de que a vida é a vida como ela deve ser,
nada do que é nosso nos falta, estamos
na linhas das páginas do livro da vida escritas mão na mão
com a mão Divina, assinadas em baixo por nós.
Assim mesmo, Eliseu, o profeta, quis retribuir, e
procurou o que ela não tinha nem pedia. E disse-lhe:
dentro de um ano terás um filho no teu colo.
Ela não quis levar a esperança tão alto e disse-lhe, não.
Mas o poder de Deus era forte neste homem. Eliseu
quis que ela visse a sua esperança. E ela teve um filho do seu marido.
Ele cresceu. E um dia, do nada, uma dor.
E morreu este filho nunca pedido,
aceite em felicidade e tão amado.
Ao corpo do filho, mandou que o deitassem na cama
onde em sua casa dormia o profeta – não fora afinal
o seu poder o útero da sua criação?
E cavalgou sem parar até ao Monte Carmelo. Eliseu viu-a
a grande distância, quando era apenas um vulto enrolado em pó,
e mandou saber o que se passava.
E a resposta veio. Está tudo bem. Estamos todos bem.
Insistiu o servo.
Está tudo bem. Estamos todos bem - sem abrandar o galope.
Chegou a Eliseu. Deste-me um filho, eu não te o pedi.
Agora ele está morto e essa não foi a tua dádiva. Leva o meu bordão
e que ele toque na cabeça do teu filho e ele viverá.
Não saio daqui sem que venhas tirar o meu filho à morte.
E lá foi o servo com o bordão. Nada aconteceu.
O filho morto na cama do profeta.
Vai então Eliseu com ela. Pelo caminho perguntam, o que se passa?
Está tudo bem. Estamos todos bem.
Eliseu deitou-se sobre a morte do rapaz.
Olhos sobre os olhos. Boca sobre a boca. Palmas sobre as palmas.
Sete vezes se deitou
e sete vezes respirou sobre ela,
e o seu sopro devolveu o filho da sunamita à vida.
E aos meus olhos, eu que não sou profeta, isto é a fé.
O que é nosso ninguém tira: está tudo bem.

10 de fevereiro de 2017

It’s hard out here for a bitch




isto - it’s hard out here
Hoje tive um dia lixado. Estava sentada num banco, na Bertrand, ao lado da literatura infantil, e tinha a cabeça em automático a cantar em repeat o refrão it’s hard out here for a bitch. Na verdade, foi um dia de merda - imagino que quem leia aquilo que escrevo, pense: esta tipa diz montes de palavrões. Escrevo. Escrevo tudo. A poesia não é exclusiva é inclusiva. A ficção. Escrever, escrevo. Dizer, não digo. Nem digo tipa quanto mais gajo. Gajo, então, até me arrepia os tímpanos! No entanto, hoje disse merda, tal não foi...
Vejo agora que estou a mentir - não é por mal.
O Cão morreu dia dois de Dezembro e eu até acho que foi uma última bondade que me quis fazer, esta de passar o dia do meu aniversário comigo e adiar morrer só por mais um bocadinho. Logo de seguida fui para Belgrado e quando regressei, pouco depois, lembro-me de ter pensado: tenho de conversar sobre isto, arrumar isto ou isto devora-me. Mais. Cheguei a dizer: preciso de falar sobre isto. Mas não falei sobre isto. Achei uma mariquice. A certos pensamentos, sentimentos, dúvidas, não sei se dar-lhes voz não é soltar monstros a que depois já não conseguimos pôr a trela. Tenho este preconceito de que a tristeza é um vício em que a gente se põe. E uma falta de disciplina. E de amor pelas pessoas a quem amamos e que nos amam, e por isso a quem devemos o melhor, não o pior de nós.
E isto, que é um isto generalizado, onde cabe Trump e o tempo do homem medíocre como Agustina nos contou tão bem na sua Quinta Essência, e onde cabem os intelectuais e os dirigentes que temos porque os merecemos, e o amargo do doce pão nosso de cada dia que amarga porque o fizemos amargo, a mim, isto não me larga e, caneco, eu não sou disto!

31 de janeiro de 2017

Mistérios de Inglaterra

O Big Ben! Maravilha das maravilhas... mas, ó, está em obras, e se não estivesse, também não podia ter entrado que ainda não tem 11 ou 12, ou lá o raio da idade que precisa para subir aquela infinidade de degraus que vimos até à exaustão no youtube... Mas o lado de fora também é bom, garantiu-me. E o sino toca bem.

MISTÉRIOS DE INGLATERRA
Antes, é preciso dizer que o meu rico sobrinho mais novo que já tem cinco, e não é bebé, nem um robot, é preciso esclarecer, é um menino, não tem ainda o ouvido ideal. Pronto, foi operado aos ouvidos e mais não sei quê. Enfim, coisas pequenas para quem é grande em, vá, fonética e semântica. Adiante.
Ontem, quando a mãe o foi buscar ao colégio, perguntou, como costuma perguntar, sobre o dia, as aulas e os trabalhos de casa. Contou que tinha tido Literacy, é natural, está no primeiro ano, mas que tinha gostado mesmo da aula de Mystery.
E a minha irmã:
- Mystery?! Não! History. Não há aula de Mystery...
E meu iluminado sobrinho:
- Ó mãe... claro que há, são os segredos dos reis e das guerras na aula de Mystery of England.
Mystery é ele ser um aluno do caraças em Literacy...

18 de janeiro de 2017

Só o mundo

SÓ O MUNDO
E ninguém para nos salvar.
Só mundo. Quando, de repente,
não é uma força de bloqueio,
é uma corrente e a força do mar.
Não connosco, iogurtes fora de prazo,
mas com alguém, e a gente, espectadora
imprevista, assiste… ah é como se nascesse 
de novo, e nasce! quando aquele ovo 
de talento que se vê, cheira, sente, 
eclode e as estrelas dizem sim. 
Há o tempo em que sonhamos
os nossos sonhos, e acreditamos, 
chama-se infância. 
E o tempo em que os perdemos
de tanto os desconseguirmos.
E depois há o tempo, finalmente, 
agradecido ao nosso Deus abstracto,
mais ou menos particular,
porque o sonho de alguém se fez facto
e os dias serão os das suas concretizações - 
há lá beleza maior?
E esse é o tempo do primeiro adeus.

15 de janeiro de 2017

Expresso

Transcrevo abaixo o poema que Nicolau Santos escolheu

A MERDA DA BANDOLETE
Tinha uma bandolete,
fita preta e laço de seda.
Deixava-me a testa livre
e as ideias soltas
para teclar melhor,
sem interrupções
de cabelos ou mãos no rosto:
concentrada, reminiscente, ritmada,
teclava como quem ainda estivesse na aula de ballet:
jeté-coupé-coupé-assemblé-jeté-coupé-coupé-assemblé,
allegro, rápida, direita.

Era tão bonita a merda da bandolete
e partiu-se.
Tinha um amor e perguntei-lhe no dia em que a estreei:
gosta da minha bandolete? Comprei.
E de meu laço gosta?
Muito, puro preto de Rothko.
Foi-se a merda da bandolete
mais a merda do amor tão bom
aliterado ao ouvido com a história da arte
e os exercícios de barra e centro,
tudo jeté de uma penada, coupé, assemblé nunca mais.
Comprei uma bandolete
forrada de seda branco-pérola,
mas nenhum branco de Rothko
me prende o cabelo.
É só a merda duma bandolete.
Se o homem soubesse a falta que faz à mulher,
sentia-se um cabrão dum herói.

in O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO